6/18/2008

A lousa de escrever (letras e máguas)

santa nostalgia lousa de escrever

Um dos objectos fortemente associados à nossa passagem pela escola primária, principalmente à primeira classe, é sem dúvida alguma a "lousa", também conhecida como "lousa de escrever" ou "quadro negro". Refiro-me não ao clássico quadro, grande e rectangular, também de lousa e negro, afixado na parede frontal, onde todos eram chamados a efectuar os mais diversos exercícios, sempre com medo dos castigos dos professores rigorosos e implacáveis, e nessa altura eram quase todos, e ainda do escárnio da turma, mas sim à pequena lousa, de uso particular, com o tamanho mais ou menos de um livro e na qual praticávamos as primeiras letras e resolviamos as primeiras contas da bicuda aritmética.

A lousa era acima de tudo uma forma de se poupar gastos com lápis e papel aos pais, invariavelmente quase todos pobres. Por outro lado permitia as constantes correcções apagando-se o que estava mal (quase sempre).
Infelizmente, o uso diário da lousa tinha vários inconvenientes: Desde logo a sua fragilidade, imprópria às brincadeiras e lutas da criançada a caminho da escola, principalmente dos rapazes. Por isso não raras vezes era ver a malta a fazer os exercícios de escrita em lousas todas fragmentadas e até com bocados em falta como velhos desdentados; Por outro lado, com o uso constante, e alguns tinham a mão pesada, a lousa começava a ficar sulcada pelo que tornava-se difícil escrever e até ler a partir dela; Depois, e isso era norma, os métodos da apagar ou safar, não eram os mais convenientes à limpeza e higiene. Usava-se assim as mangas para limpar, a própria mão e o recurso geral ao cuspo para recuperar o fundo negro.

Os lápis de escrever na lousa também eram do próprio material e também muito frágeis, pelo que era raro alguém manter os mesmos originais. O recurso, era pois, escrever com pequenos bocados com 3 e 4 cm de comprimento. Para colmatar esta falha, havia quem recorresse a pregos. Funcionava, é claro, mas a lousa era maltratada e em pouco tempo ficava com profundos sulcos como as rugas no rosto de uma octogenária.
Resta acrescentar que, norma geral, a rapaziada com a lousa assim maltratada era alvo de duplo castigo: Pelo professor e pelos pais.
Toma que é para aprenderes...
Actualmente, e desde há muito, a lousa tornou-se num objecto meramente decorativo e nostálgico, podendo ser ainda adquirido em diversas lojas de artesanato. Foi substituída por uma vasta panóplia de sebentas e cadernos e por agora a norma até é escrever nos próprios livros. Entretanto, mesmo no ensino primário, serão vulgarizados os quadros electrónicos onde se pode escrever digitalmente, Palm Tops, etc, etc.
Outros tempos, outros meios.

6/15/2008

A Pedra Branca - Série TV



Hoje trago à memória a série de TV "A Pedra Branca". No original "Den Vita Stenen", foi realizada na Suécia, e exibida pelo canal local SVT em 1973 e constava de 13 episódios com duração de 30 minutos.
Entre nós passou na RTP poucos anos mais tarde, mas creio que ainda nessa década, e  aos sábados, a seguir ao almoço. Teve assinalável êxito na Suécia mas também em Portugal, Noruega, Espanha, França, Alemanha e Holanda, entre outros.

A série foi baseada no livro infantil de autoria da escritora Gunnel Linde, datado de 1963.

Era a história de dois amigos (um rapaz e uma rapariga, com idades de 10 anos), oriundos de diferentes classes sociais. Ela menina rica e ele menino pobre. A menina chamava-se Fia e o rapaz Hampus. Eram interpretados por Ulf Hasseltorp (ele) e Julia  Hede-wilkens (ela).

A história decorre nos anos de 1930 numa vila do interior. Fia é filha da senhora Petterson, uma melancólica professora de piano, por sua vez filha de um juiz.
A vivência na casa da família é marcada pela personalidade forte e pouco simpática da governanta Malin.
Num certo Verão, Hampus chega à aldeia com a sua família,seu padrasto, um sapateiro pobre, sua esposa e seis irmãos.
Hampus é pouco acarinhado pelos membros da sua família, que o chamam de estúpido e o culpam constantemente dos seus problemas, que os levam a mudar de residência com frequência.
Por sua vez Fia também vive num mundo muito próprio, pois na escola é provocada e marginalizada pelas colegas, com acusações de que tem uma mãe inútil e preguiçosa e que só sabe tocar piano. Em casa é muito reprimida pela governanta.

Ambos, em especial a menina, eram muito introvertidos e viviam à margem de todas as restantes crianças, sempre num jogo de mistério e encanto mas com toda a carga dramática decorrente dos seus diferentes estatutos sociais, espartilhados pelos adultos, no caso de Fia principalmente pela governanta da casa, que assim vivia num ambiente de recolhimento, sempre longe das outras crianças.

Certo é que estas duas crianças, num certo sentido solitárias e marginalizadas pelos contextos familiares e escolar, acabam por travar uma amizade muito especial, em que a pedrinha branca assume uma ligação de fantasia, coragem, aventura e lealdade.

Neste contexto o enredo decorria à volta de uma pedrinha branca, tipo um seixo do rio ou do mar, e que para ser conquistada por um dos dois amigos cada um deles tinha que realizar uma determinada situação, superar uma prova, um pouco à semelhança do jogo "Verdade ou Consequência". Para além do mais recordo ainda que aquele desafio em que Fia não podia falar em circunstância alguma durante um dia, o que originava algumas situações caricatas e embaraçosas para todos. Também o desafio em que Hampus teve que pintar uma careta no sino da igreja local. 

Recordo também o genérico de abertura e a sua linda música. Melancólica mas profunda e que pautava toda a trama. A menina tinha a pedra branca na mão e depois afagava-a no rosto. Lindo e terno.


Lista de intérpretes e personagens:

Julia Hede Wilkens - Fia 
Ulf Hasseltorp - Hampus
Ulf G. Johansson - Häradshövdingen - Juíz
Betty Tuvén - Tant Malin
Monica Nordquist - Fru Pettersson
Håkan Serner - Skomakaren
Maj-Britt Lindholm - Skomakarfrun
Ingemar Hasseltorp - Henning
Cecilia Nilsson - Eivor
Gunilla Söderholm - Siri
Ann-Charlotte Lithman - Nanna
Joakim Rundberg - Ture
Robert Rundberg - Lulle
Fanny Gjörup - Britta
Börje Mellvig - Livsmedelshandlaren
Eva Dahlqvist - Essay
Pia Skagermark - Solbritt
Björn Gustafson - Bagare Emilsson
Ove Tjernberg - Farornas Konung
Willy Peters - Doktorn




Fia com sua mãe

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Os dois amigos actualmente. Porque os anos não perdoam




Extracto do genérico de abertura

O meu relógio Cauny Prima

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O meu actual Cauny Calendario, de 17 rubis

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A característica marca no fundo da caixa

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O meu Cauny Major, com o inconfundível ponteiro vermelho

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A marcação no fundo da tampa do Major

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O Cauny Apollon, em homenagem da chegada do Homem à Lua. É um dos modelos mais populares

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O meu modelo mais recente, ainda embalado, de movimento automático e resistente à água

Actualmente o uso de relógio está extremamente vulgarizado, pelo que mesmo em idade pré-escolar já se vêem crianças ostentando estas máquinas de medir o tempo nos seus pequenos pulsos, mesmo que ainda não sejam capzes de ler as horas. Quase sempre modelos em plástico, coloridos e com temas dos desenhos animados.
As tendas dos vendedores asiáticos e marroquinos, instaladas em qualquer romaria, vendem ao preço da "uva-chorona" relógios para todos os gostos, quase sempre aparatosos, com muitos ponteiros e muitos botões laterais, e quase sempre imitações de grandes marcas como o Tag Heur, Rolex, Patek Philippe, Longines, Tissot e outras mais. Claro que a maior parte das vezes são relógios para durar alguns dias, pelo menos enquanto se aguenta a pilha.

Hoje, de facto, a abundância é geral, e para todas as carteiras, mas no que diz respeito aos relógios nem sempre foi assim. Recordo-me que no meu tempo de criança, o normal era receber-se o primeiro relógio de pulso no final da quarta classe ou aquando da cerimónia religiosa da Comunhão Solene, como foi o meu caso. Também por tradição, o relógio quase sempre era oferecido pelo padrinho.

Não deixo, por isso, de recordar o meu primeiro medidor do tempo, oferecido precisamente pelo meu padrinho e simultaneamente avô. Tinha eu dez anos e recordo-me perfeitamente que era um Cauny Calendário. As vicissitudes do tempo e as trapalhadas nas brincadeiras de criança ajudaram a que lhe perdesse o rasto. Felizmente, já tive a oportunidade de adquirir um outro exemplar, original, como novo, adquirido em Londres. Guardo-o religiosamente como se fosse aquele que recebi do meu saudoso padrinho e uso-o principalmente em dias mais ou menos festivos ou no fim-de-semana. Com um pouco de sorte, posso admitir que foi montado pelas mesmas pacientes mãos de um qualquer mestre relojoeiro.

Este "Calendário" trata-se de um dos muitos modelos clássicos, mecânicos, de corda, da famosa marca suiça, embora com várias variantes, mas quase todos de diâmetro generoso (35 mm) e extremamente delgados, isto é, muito elegantes, quase não se sentindo o mesmo no pulso.
A Cauny Prima é ainda hoje uma das mais emblemáticas e clássicas marcas de relógios, muito famosa nos anos 60 e 70, por produzir relógios de inolvidável qualidade e beleza a preços relativamente acessíveis à classe média. Daí a sua forte implantação nessas décadas.

A Cauny tem a sua origem em Le-Chaux-de-Fonds, na Suiça, em 1889, embora há quem afirme que apenas nos anos 20, sendo que nesta década principiou a sua comercialização. A marca ainda existe e, sem investigar, até porque não há muita informação disponível, ouvi falar que foi adquirida há algum tempo por uma empresa espanhola, que lhe recuperou a dinâmica e prestígio, continuando a produzir belos relógios com a mesma marca.

Conheço muitos modelos clássicos da Cauny, para homem e senhora, desde os mais simples e elegantes até aos de linhas desportivas e mais complexos, como o Chronograph Landeron e o Cauny Submarine; Desde os mais acessíveis até aos mais caros e luxuosos. Todos eles são de uma beleza que o tempo só veio reforçar.

Pessoalmente tenho talvez uma dúzia de modelos todos diferentes, incluindo o tal Cauny Calendário até ao Cauny Apolon, Cauny Cadet, Cauny Major, com o seu inconfundível ponteiro vermelho, que marca os segundos, e o mais recente, um Cauny automático, ainda por estrear.

Por tudo isso, dos objectos pessoais que nos marcam, os relógios ocupam um lugar de destaque. Não tanto hoje, com toda a facilidade com que se adquire, mas principalmente num tempo já distante e com todas as dificuldades próprias a ponto de se considerar então um relógio como um objecto de luxo, estimado e de valor sentimental. Devido a essa memória, a Cauny será sempre uma marca nas referências da minha memória, como também, estou certo, de muitos rapazes e raparigas da minha geração.

6/08/2008

Kalar - Banda Desenhada - Revista "O Falcão"


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"O Falcão" Capa da edição N.º 1, 1ª Série, publicado em 18-12-1958

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Como aconteceu com muitos colegas da minha geração, o meu gosto e a paixão pela Banda Desenhada surgiram logo nos primeiros anos da escola primária, fortalecendo-se nos anos seguintes e hoje, embora com outra maturidade, a sétima arte continua a exercer o mesmo fascínio. Assim, desde cedo entrei no universo dos heróis e das suas fantásticas aventuras, embora, como seria natural, com preferências bem definidas, quer quanto ao género, quer quanto ao herói e mesmo considerando os respectivos criadores.

Neste contexto, para quem tomou conhecimento com a Banda Desenhada a partir dos anos 60 e 70, conhece perfeitamente a revista juvenil "O Falcão", de tiragem semanal, hoje extinta, mas que durante muitos anos fez a delícia de todos os entusiastas das aventuras desenhadas, dos seus heróis, cenários e personagens. A par da revista Mundo de Aventuras, será talvez a edição mais conhecida e popular  de todas quanto se publicaram entre nós.

A revista foi quase sempre semanal mas também quinzenal e até mensal. Foi publicada em 3 séries, a primeira com 82 números (formato maior e com várias histórias em continuação), a segunda (formato bolso) com 1286 e a terceira, mais recente, com apenas 25 números.
Em cada edição (a partir da 2ª série) era publicada uma aventura de um determinado herói, por isso alguns ganhavam certa preferência junto dos leitores. No meu caso, sempre preferi as aventuras de Kalar, Ogan (o Viking), Sandor (o corsário) e Oliver (Robin dos Bosques). Mas muitos outros herois eram os preferidos de outros colegas, nomeadamente o muito conhecido Major Alvega (intérpido piloto da RAF) um dos mais representados na colecção), ENE 3, Arizona Jim, Caribú, Dogfight Dixon, Jim Canadá, Texas Kid e outros mais. Todas as histórias eram provenientes de diversas editoras europeias.

Do leque dos meus preferidos, hoje destaco o herói Kalar: Kalar é uma criação do mestre espanhol Tomas Marco Nadal (Marco, como nome artístico), catalão, nascido em 1929 e falecido em 2000. Marco é um dos nomes grandes da Banda Desenhada europeia e espanhola, tendo produzido sobretudo em França, onde nasceu Kalar. A sua obra é de profunda qualidade, muito vasta e o herói da selva é apenas parte dela.
Kalar começa com a a queda na selva de um avião, onde seguia um playboy milionário, Jean Calard. O avião não resistiu à tempestade que sobre ele se abateu mas Calard sobrevive. Encontra então o pigmeu Bongo, que traduz à sua maneira o nome para Kalar. Kalar rapidamente se sente atraído pela selva e por lá fica, aprendendo os seus segredos.
Kalar tem muito do herói Tarzan, nomeadamente na sua relação com a selva, os seus habitantes e toda a envolvência humana, mas mais modernizado, sempre com a sua farda de explorador tropical, com a sua espingarda e o seu jipe. Kalar tem em muitos animais grandes amigos que o ajudam em muitas das aventuras, principalmente o inseparável chimpanzé Gib e o leão Simba. Kalar também tem a sua amiga e namorada, a bela Pamela, que faz papel de médica e que é figura muito regular nas suas aventuras. O cenário de Kalar localiza-se nas frondosas selvas do Quénia, na África.

Kalar destaca-se essencialmente pelo rigor do seu desenho, o que não é muito comum na revista "O Falcão", quase sempre com arte de pouca qualidade. Marco desenvolve páginas de um rico pormenor e valor estético, com uma profunda textura, quer ao  nível da representação humana mas principalamente da fauna e cenários da selva. Cada página está sempre povoada de animais e impregnada da densidade da paisagem tropical africana. São famosos os seus desenhos de vários animais da série, que, inclusive, deram lugar a obras complementares, designadas de O Bestiário, publicadas em francês e em espanhol.
Por tudo isto, sabe sempre bem retirar da estante um dos diversos exemplares de "O Falcão" onde Kalar nos dá a conhecer mais uma aventura. Kalar, no entanto, foi publicado em outras colecções, nomeadamente a "Tigre", de formato idêntico à revista de "O Falcão" e também na Kuandor.

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