Quem não se recorda do seu tempo de tropa?
Com o fim do serviço militar obrigatório a tropa tornou-se mais uma saída profissional do que propriamente uma forma de servir a Pátria. Depois, há que dizê-lo, quem é que sentia realmente esse sentido do dever, quando por ali andavam obrigados e arrastados das suas casas, familiares e amigos, principalmente no tempo da tropa a sério, em plena Guerra do Ultramar, nas suas diversas frentes.
Seja como for, não pretendo aqui fazer um exercício sobre a tropa, o serviço militar, nem debater os seus contextos históricos e sociais. Pretendo apenas recordar o tempo de tropa, pura e simples, e se possível trazer à baila as melhores lembranças, aqueles momentos que jamais esqueceremos e agora nos fazem sorrir com saudade e até mesmo, estou certo que na maioria dos casos, em desejar voltar a esse tempo e a essa experiência.
No meu caso, passei pela tropa já depois de assentes as poeiras decorrentes da revolução do 25 de Abril de 1974, portanto já sem o pesadelo e o estigma da Guerra no Ultramar.
Quiz o destino ou o acaso, ou outras coincidências, que prestasse o serviço militar durante dois anos, completos, ao serviço do ramo da Marinha de Guerra Portuguesa.
Iniciei o serviço militar na Escola de Alunos Marinheiros, em Vila Franca de Xira, mesmo na borda do Tejo, seguindo, depois de concluída a instrução básica, até ao Alfeite, mais concretamente para a Escola de Comunicações, no complexo da Marinha, frequentando o respectivo curso na especialidade de Operador Táctico.
Durante todo este percurso de dois anos passei pelos postos de segundo grumete recruta, segundo grumete, primeiro grumete e segundo marinheiro. Tenho ideia de que o posto de primeiro marinheiro era para quem decidisse permanecer no quadros depois do serviço militar obrigatório, podendo depois concorrer ao posto de cabo e por aí fora.
Durante o último ano, já com o curso, estive de serviço no Centro de Telecomunicações, no Comando Naval do Continente, na Base Naval de Lisboa, sediada no Alfeite, onde fazia parte de uma das três divisões que asseguravam um serviço permanente 24 horas por dia.
Foi assim um tempo que hoje recordo, com uma mistura de sentimentos, desde lembranças de bons momentos, que foram muitos, mas também de dificuldades, responsabilidades e até coisas negativas, desde logo pela suspensão da vida activa que a tropa representava.
Pelo meio recordo todos os episódios durante a recruta, durante o curso e mesmo durante o serviço final, nomeadamente os vários turnos durante a madrugada. Também lembro as intermináveis viagens de combóio, pela madrugada fora, com paragens em todas as estações e apeadeiros, em jornadas que demoravam seis e sete horas.
Recordo os episódios na caserna, com a cama feita à espanhola, açúcar nos lenções e as peripécias no refeitório e nas saídas e escapadelas às meninas do Intendente, em Lisboa. Também me lembro de ter que decorar os postos, as bandeiras do Código Internacional de Sinais, e aprender os nós-de-marinheiro.
Também não esqueço, porque foi uma das bases do meu curso, a aprendizagem do código morse na especialidade de luzes. Cheguei mesmo a ganhar medalhas, tanto na categoria de transmissão como recepção.
Inesquecível as inúmeras vezes que subia as dezenas de degraus de acesso à torre central na Base Naval, ao nascer e ao pôr-do-sol para içar a bandeira (tenho ideia de que se chamava preparativa), pondo em sentido todas as guarnições ali acostadas. Pelo meio recusei a oportunidade de embarcar no emblemático Navio Escola Sagres, por troca com um colega. Não há nada como ter os pés firmes em terra.
Não posso também esquecer os vários amigos que fiz, provenientes de vários locais do nosso país, desde o Algarve até ao Minho.
Como vêem, até a tropa pode ser sinónimo de recordações e nostalgias. Quem as não tem?
- Vista aérea da Escola de Alunos Marinheiros, em Vila Franca de Xira, onde realizei a recruta. Lá está, junto à parada, o edifício da minha caserna.
- Vista aérea do complexo de escolas da Marinha de Guerra Portuguesa, no Alfeite. Lá está a Escola de Comunicações, a parada, as casernas e o refeitório. Ah, e o Tejo.