4/09/2009

Viagens pelos livros escolares - 4 - A vocação da cerejeira

 

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No meu pomar, no logradouro da minha habitação, tenho, entre outras espécies de árvores frutículas, duas cerejeiras, uma delas de médio porte, com pelo menos 6 metros de altura. Nesta altura do ano está completamente florida, como uma enorme nuvem branca, mas já com o verde das folhas a querer substituir as flores.
Se as condições do tempo não prejudicarem esta fase do desenvolvimento do fruto no seu estado inicial, creio que lá para meados de Junho devo ter boas cerejas. Isto é, a maior parte, como de costume, será para a passarada (pardais, pegas, gaios, melros, piscos e verdelhões) que habitualmente frequenta o quintal.

Neste sentido, recordo mais uma página do meu livro de leitura da terceira classe, do qual já aqui temos falado, intitulada "A vocação da cerejeira". A lição que dela se extrai é sobretudo a da abundância e da correspondente partilha. De facto, de que nos serve ser egoístas em muitas situações de vida? Esta lição do livro de leitura da terceira classe é assim um bom exemplo que pode ser compreendido à luz das nossas vivências e convivências.

Ainda quanto às cerejeiras, recordo-me dos meus tempos de criança, quando, na quinta de meus avôs paternos existiam três enormes cerejeiras, de boa qualidade, sempre generosas na sua abundante produção. Toda a gente da casa, incluindo a vizinhança, comia cerejas de borla e até fartar. Tantas vezes trepei àquelas cerejeiras para, encavalitado num qualquer ramo, me deliciar a colher e a comer, refrescando assim as saborosas tardes de Junho.
Bons tempos.

 

*****SN*****

4/08/2009

Os garotos da 47-A

os garotos do 47A

Na imagem, Nigel Greaves, no papel de Willy Gathercole, um apaixonado pelo futebol.

Hoje trago à memória uma série de TV, no original "The kids from 47-A", em Portugal exibida com o título de " Os garotos da 47-A".
A série, de origem inglesa, consta de um total de 42 episódios, com cerca de 30 minutos cada, produzida pela ATV Midlands entre 1973 e 1974.
O conjunto dos 42 episódios foram produzidos em três séries: A primeira com 15 episódios, a segunda com 13 e a terceira com 14, incluindo o chamado on-off, que serviu de desfecho à série.
A série foi exibida pela RTP, a preto-e-branco, com estreia em 2 de Março de 1974. Recordo-me que passava aos Sábados, depois da hora do almoço. Quase a seguir à abertura da emissão.

A história mostra-nos um grupo de quatro irmãos, duas raparigas e dois rapazes (com idades de 8, 12, 14 e 16 anos), os Gathercole, órfãos de pai e que viviam com a mãe na 47ª Avenida. Um dia a mãe teve que ser internada no hospital pelo que pediu a ajuda a uma familiar, tia das crianças, para delas tomar conta na sua ausência. Infelizmente, a tia teve um acidente e partiu uma perna pelo que os garotos inverteram os papéis e passaram eles a tomar conta da tia e de si próprios.

A partir da segunda série de episódios, a mãe das crianças morre, pelo que estes ficam entregues a si próprios, sendo Jess Gathercole, a irmã mais velha, já empregada num escritório, a assumir o papel de mãe.
Deste modo, os diversos episódios giram em torno de problemas domésticos e do dia-a-dia que as crianças têm que saber enfrentar e resolver.
No último episódio, exibido já em 1975, Jess casa-se, terminando assim a série.

A série não foi nada de extraordinário, daí serem poucos os que dela guardam memórias, mas não deixou de ser interessante. Era simultaneamente uma lição de vida de entreajuda entre os irmãos, no sentido de contornarem e resolverem os diversos problemas que se lhes deparavam.
Apesar de me recordar relativamente bem da série, assisti a um bom número de episódios, mas dada a distância do tempo não me lembro com rigor se foi exibida na sua totalidade e se de forma contínua.

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Na imagem, Christine McKenna, que obteve uma grande notoriedade poucos anos depois (1979) no papel de Christina (a que corresponde a foto), na também popular série Flambards.

Intérpretes e personagens:
Christine McKenna ...  Jess Gathercole 
Gaynor Hodgson ......  Binny Gathercole 
Russell Lewis ..........  George Gathercole 
Nigel Greaves ..........  Willy Gathercole

Páscoa - Tradições, usos e costumes

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Estamos já à porta da Páscoa, seguramente a maior celebração do calendário da liturgia da religião católica, embora o Natal, pela sua natureza e tradição, seja vivido de uma forma mais abrangente, talvez porque na primeira esteja envolvida a Paixão e morte de Cristo e na segunda, o Seu nascimento.

Na realidade, numa perspectiva humana, a vida sempre esteve impregnada de festividade e de alegria. Pelo contrário, a morte, é em si própria uma fatalidade da génese humana, sempre associada a momentos de dor, de luto, de perca e tristeza, do desprendimento final e forçado das coisas terrenas. É certo que há culturas que encaram a morte de uma forma mais natural, em algumas situações até com alegria, mas mesmo na religião católica, onde se crê que a morte é apenas uma passagem para uma outra dimensão, espiritual, essa foi sempre uma realidade muito pouco compreendida e cultivada, mesmo à luz da Ressurreição de Jesus Cristo. 
 
Seja como for, a Páscoa é uma celebração que comporta em si mesma dois estádios de vivência antagónicos: A morte e o triunfo da vida sobre a mesma pelo que nela prevalece sobretudo a alegria.

Tal como o Natal, a celebração da Páscoa está repleta de tradições, desde as religiosas até às pagãs, bem como a inseparável culinária e gastronomia a ela associadas.
Na parte religiosa, toda a quadra é iniciada no Domingo de Ramos, uma semana antes da Páscoa, relembrando a entrada triunfal de Jesus na cidade santa de Jerusalém, entre aclamações num ambiente de júbilo e louvor, num simbolismo contraditório do que iria suceder nos dias precedentes. 

Quantos dos que O aplaudiram triunfalmente às portas de Jerusalém, nesse Domingo, dias depois O incriminaram e gritaram para ser crucificado, julgando-O ao nível de um reles salteador e criminoso?
Na Quinta-Feira Santa, comemora-se a celebração da Última Ceia, de Cristo com os seus discípulos e toda a sua carga simbólica como instituição da Eucaristia. Depois a retirada para o Jardim das Oliveiras, o abandono dos discípulos na sua dolorosa vigília e a traição de Judas. De seguida o aprisionamento, o interrogatório, a negação de Pedro, o flagelo e a condenação de Jesus, culminando toda a carga dramática  com a Sua morte por crucificação, ladeado por salteadores também condenados, depois de percorrido todo o doloroso caminho do Calvário.

Para além da celebração e vivência de todas estas etapas, muitas terras têm fortes tradições associadas, como seja a reza da Via Sacra, quer nas igrejas quer percorrendo os percursos chamados de calvários, ainda presentes em muitas freguesias.

Na minha aldeia o Calvário é constituído por 17 cruzeiros em granito, dispersos na berma da estrada num percurso de cerca de 1500 metros, desde a igreja matriz até a uma capela localizada numa parte alta da freguesia. Estes 17 cruzeiros (14 estações mais as três cruzes, simbolizando Cristo ladeado pelos salteadores), neste quadra são envoltos com um pano roxo, cor associada à Paixão. 
 
Há terras onde estas faixas são colocadas, durante a Semana Santa, numa das janelas ou porta de cada casa,  sendo, depois da Ressurreição, já no Domingo de Páscoa, substituídas por cruzes floridas.
São, de facto, muito diversas as tradições por este nosso país fora, variando de terra para terra.
Já no dia de Páscoa, ainda sobrevive a tradição da Visita Pascal, também conhecida por compasso.
Na minha aldeia, noutros tempos era apenas um compasso (uma cruz) a percorrer todos os lugares, mas na actualidade, ajustada à sua dimensão, são três os compassos saídos durante todo o dia. Claro que noutras terras mais populosas os compassos são em maior número.

Ainda quanto à minha aldeia, as entradas de casa, junto ao portão da rua, são pavimentadas com alecrim, verdura e flores, como sinal de que se pretende receber a vista da Cruz, grinaldada, simbolizando Cristo Ressuscitado.

Finalmente, há a tradição do Juiz da Cruz, no nosso caso, eleito quatro anos antes, durante a Missa de Dia de Reis. Para além de outras incumbências e encargos, o Juiz é o portador da Cruz e no dia seguinte, segunda-feira, organiza o chamado Jantar do Juiz da Cruz, que por acaso até é almoço. Os convidados são apenas homens casados. Noutros tempos, este banquete era oferecido na própria casa do Juiz, contribuindo os convidados com géneros alimentares, como arroz, açúcar, ovos, galinhas, etç, mas nos tempos actuais, para comodismo de todos, esse serviço é feito num restaurante da zona e a contribuição para ajuda das despesas é feita em dinheiro.

Pelo meio, há a salientar todo o leque de doçaria caseira, desde a regueifa doce, até ao pão-de-ló, doces de coco, doce de amêndoa, biscoitos, etc. Não podem faltar as amêndoas revestidas a açúcar e, claro, o bom espumante português.
Na minha família subsiste ainda a tradição de, logo após a passagem do compasso, o que no caso sucede a meio da manhã, comer-se carne de porco caseira (orelheira e queixada), fumada e acompanhada de pão-de-ló e regada com espumante.

Recordo que, nos meus tempos de criança, os dias que antecediam a Páscoa eram dedicados quase exclusivamente à limpeza anual da casa e a cozinha transformava-se literalmente numa pastelaria, sendo, entre outras doçarias, confeccionada de modo artesanal a saborosa regueifa. Era uma delícia quando a mesma saía do forno a fumegar. Na minha tarefa de ajudante de minha mãe e minha tia, barrava com manteiga derretida as belas regueifas e polvilhava ligeiramente com açúcar granulado. 

Estas regueifas eram depois armazenadas em caixas de madeira, envoltas em brancos lençóis de linho, pelo que passado mais de um mês ainda se consumia regueifa com sabor a fresco.

A quem não desperta vivas memórias e nostalgias este tempo festivo da Páscoa?

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4/07/2009

Viagens pelos livros escolares - 3 - O alcaide do castelo de Faria

 

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(clicar para ampliar)

 

O Alcaide do Castelo de Faria, é uma das inesquecíveis histórias que muitos portugueses aprenderam das páginas do livro de leitura da terceira classe, ao longo de mais de um década, entre finais dos anos 50 e até meados dos anos 70.
Simultaneamente, este é um episódio da nossa história, imortalizado pela pena de Alexandre Herculano, na sua obra "Lendas e Narrativas". Será, pois, uma lenda, como muitas que povoam a História de Portugal, mas certamente não andará longe da verdade.


O episódio demonstra o valor da fidelidade e da coragem, mesmo numa situação dramática e que, no caso, custou a vida a Nuno Gonçalves.

Hoje em dia, todos sabemos que alguns dos valores aprendidos e incutidos pelos antigos livros escolares, pelos nossos professores e em casa pelos nossos pais, são meros fantasmas de um tempo que já lá vai. Valores ou princípios de fidelidade, respeito e disciplina, entre outros, andam pelas ruas da amargura e nalguns casos até são considerados retrógados e conservadores.

A fidelidade vale o que vale, isto é, pouco ou nada, e nem sequer apenas num plano do casamento, mas em muitas outras situações. O respeito perdeu-se completamente, não só pelos outros, a começar pelos mais próximos, crianças e idosos, como por nós próprios. A disciplina, essa há muito que lhe fizeram o funeral e nem é bem vinda em qualquer sector da sociedade, incluindo a escola. Para o fomento da disciplina é necessária autoridade e esta sabemos que pouco importância já tem, sendo mesmo escassa a quem supostamente a deveria usar em benefício comum, ou seja, as forças de segurança.

Face a isto, este episódio do alcaide do castelo de Faria, como muitos outros que realçam velhos valores, morais e cívicos, soa-nos já a uma velharia, que ainda pode ser vista e apreciada mas inadequada ao uso para que foi concebida.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades!

 

*****SN*****

4/06/2009

Espelho meu.... - Correntes na blogosfera

 

Santa Nostalgia

O Santa Nostalgia teve o privilégio de ser indicado como um dos 9 blogues supostamente capazes de divertir, encantar, inspirar e impressionar alguém. Neste caso, o Manuel do excelente blogue "Coisas do Arco da Velha", que nos integrou numa boa companhia.
Modestamente, o Santa Nostalgia não pretende tanto. Quando muito divertir e encantar, porque pretendemos que as nossas memórias, partilhadas por cada um maior número de visitantes, de pessoas, sejam uma espécie de encantamento divertido, ainda que nostálgico. Já quanto a inspirar e impressionar alguém, certamente que não. O Santa Nostalgia é demasiado simples e modesto para almejar a ser fonte de inspiração para quem quer que seja. Pretendemos ser nós próprios. Podemos ser mais um, mas que o sejamos na diferença e na simplicidade. Só neste contexto podemos comprender o aumento diário no número de pessoas que nos visitam.


Como já dissemos, em resposta ao Manuel, não somos muito de alinhar nestas chamadas correntes da blogosfera, em que alguém premeia um grupo de blogues e por sua vez estes devem publicar o logo identificativo do prémio e dar continuidade à corrente, multiplicando-se assim as referências ao referido prémio. É conhecido que este tipo de expediente interessa sobretudo a alguém espertalhaço, isto é, a quem introduz ou despoleta o suposto prémio, angariando dessa forma uma carrada de links que por vezes servem objectivos pouco claros ou interesseiros, como publicidade e outros. Não sei se será o caso.


Seja como for, neste episódio particular, o prémio (Splash Award) o prémio vale pela qualidade de quem nos elegeu, o "Coisas do Arco da Velha".
Sem a preocupação de dar resposta em concreto à corrente, não nos custa deixar aqui alguns bons blogues que, para além de já constarem da nossa lista de lugares, são pontos de visitas regulares. A saber:

Coisas do arco da velha

BIC Laranja

Rua dos dias que voam

Ilustração Portuguesa

Blasfémias 

Aspirina B

 

Poderia indicar aqui dezenas de bons blogues, que habitualmente acompanhamos, das mais diversas áreas, desde a política ao desporto, passando pelas artes e humor, mas, para o caso, o combóio afrouxou neste apeadeiro e aqui nos apeámos.

 

*****SN*****

Tenente Columbo

 

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Depois de ter falado aqui sobre o detective Hercule Poirot, essa fantástica personagem das novelas policiais de Agatha Christie, hoje trago à memória outra série televisiva que pessoalmente me agradou e porque de certa forma marcou uma época e inovou o conceito clássico dos filmes policiais, de crime e mistério.


Trata-se de Columbo; Tenente Columbo, da Divisão de Homicídios da Polícia de Los Angeles, interpretado pelo inesquecível Peter Falk.
A série é composta por duas longas metragens, consideradas piloto, em 1968 e 1971 e 43 episódios distribuidos por 7 temporadas. Os episódios de um modo geral era longos, entre 70 a 90 minutos, ou até mais.
Posteriormente foi ainda desenvolvida uma série especial composta por 8 episódios, de 1991 a 2003, mas já sem o êxito da série anterior. Notava-se uma perda geral do fulgor inicial, mesmo por parte de Peter Falk.


A série foi exibida na NBC americana de 1971 a 1978. Em Portugal passou, creio que, no final dos anos 70, claro que a preto-e-branco. Em 2005 foi reposta na RTP Memória. Espero que volte a ser exibida pois na ocasião não tinha assinatura da TV Cabo.


O Tenente Columbo apresentava-se como uma figura carismática mas de aspecto vulgar e desmazelado. Com a sua postura ligeiramente curvada, sempre de gabardine encardida e a fumar ou a mascar  um longo charuto, Columbo esmiuçava de forma insistente e persistente, num soberbo jogo de nervos, tipo gato-e-rato, todos os contextos da investigação de forma aparentemente inócua. Esse ar de insignificante e até um pouco cabeça-no-ar, acabava por ser uma arma. Ficou conhecida a sua última questão nos interrogatórios, já quando voltava as costas: Ah, só mais uma coisa... (Just one more thing...) Esta última pergunta, por um motivo ou outro, quase sempre se revelava fatal para os interrogados e crucial para o desfecho da história.


A estrutura de cada episódio fugia às habituais regras deste tipo de filmes. De facto, cada caso começava com a preparação e concretização do crime, incluindo o fundamental alibi do criminoso, pelo que desde logo o espectador ficava a par da autoria e da forma como tudo aconteceu.
Seguidamente a esta fase, entrava em cena o Tenente Columbo e o interesse da história transmitia-se à forma como o espectador acompanhava a evolução da investigação, os avanços e os recuos bem como o raciocínio do inteligente polícia até ao culminar da trama, com Columbo a solucionar o crime. No fundo, era como se o filme fosse visto ao contrário. Seja como for, a fórmula resultou em pleno e a série foi um êxito a nível mundial.


Os casos eram tratados com muita densidade. Cada crime era executado de forma imaginativa e quase perfeita, habitualmente por pessoas bem colocadas na sociedade, inteligentes, frias e calculistas, pelo que era grande o desafio do Tenente Columbo.

Columbo não tinha qualquer parceiro, como acontece em Sherlock Holmes ou Poirot.
Uma das curiosidades da série é que nunca foi mencionado o primeiro nome de Columbo, embora em alguns episódios, são mostrados alguns close-ups à sua cartera de identificação de polícia, pelo que no respectivo cartão é possível ler-se Frank. Será por isso, Frank Columbo.

 

*****SN*****

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