2/07/2012

O livro dos calotes

Eu tenho um livro... não um livro  mais ou menos normal, como qualquer um das centenas que, entre velhos e novos, possuo na minha modesta estante, mas um livro que considero especial.

Este livro, grosso e estreito, marcado pelo tempo, não foi escrito por autor de nomeada nem composto por letra de forma. Não foi impresso em tinta indelével mas escrito à mão e a lápis e com o lápis que estava à mão.

Trata-se de um livro igual a muitos outros que nas mercearias e tabernas e mercearias (lojas) das nossas aldeia serviam para apontar as contas, os calotes, as dívidas, o fiado, ou o que queiram chamar ao que resultava de compras que se não pagavam na hora ou a pronto. Hoje em dia, tudo isso é mais fino e chama-se de débito ou passivo e é registado num qualquer programa informático. A um caloteiro já não se chama esse palavrão e diz-se sofisticadamente que está em falência técnica ou em insolvência.

Os portugueses estão atolados em dívidas e o incumprimento das obrigações financeiras é geral, desde pessoas e empresas até ao Estado e seu Governo, que nestas coisas de calotes são quem dá pior exemplo, sendo que no que toca a cobrar é com juros de mora que em poucos dias duplicam várias vezes. 

É claro que não há livro de calotes, como o meu livro, capaz de albergar todas as despesas e gastos do Estado, por mais miudinha que seja a letra com que se aponte, seja para despesas da Saúde e Educação, seja para compra de carros topo de gama para ministros, secretários e outros que tais, seja ainda para comprar colunas maçónicas ou tapeçarias para decorar a gosto um gabinete de um qualquer elemento da esfera do Estado.

Pois bem, este livro de calotes, apesar de relatar gastos com coisas mais ou menos necessárias ao dia a dia e à sobrevivência de uma qualquer família humilde de uma qualquer aldeia, como massa alimentícia, arroz, milho e batatas, entre uma ou outra lambarice, como bolachas e rebuçados, ou mais no registo do vício como o vinho e o tabaco,  também conta histórias e revela realidades.

Este livro, sobrou do que sobrou da mercearia que foi propriedade de meu avô e que depois transitou para um tio. Funcionou entre os anos 30 e 60, encerrando definitivamente por volta de 1970. Ainda vi homens encostados de barriga ao alto balcão, ao fim da tarde bebendo copos de vinho, fumando cigarros de enrolar, cantando, gemendo e chorando os sabores e dissabores do dia de trabalho, no campo ou no emprego. Ainda vi ser servido a granel, o acúcar, a massa, arroz, azeite e petróleo, ou à unidade, como bolachas, cigarros, etc. Muitas vezes em passo de corrida era mandado à quintanda comprar dois ou três cigarros "Porto".

Para além de nesse livro se poder ler histórias de dificuldades, em que ao fim de semana ou à quinzena era um sacrifício o chefe de família poder abater parte do calote, em que a norma era que parte da dívida  transitasse ad perpetuam, sempre assinalada com a clássica entrada de "transporte" ou um menos rodoviário "resta". O dinheiro, pouco, era todo fruto do trabalho, de uma jorna, de uma quinzena de leite, de um alqueire de milho ou feijão, de uma cabeça de gado que se vendeu pelo tempo de vender.

Por este livro, no caso dos anos 50, é também possível saber os preços da maior parte dos bens essenciais de uma normal família de aldeia,  em que, ao contrário da família típica portuguesa dos dias actuais, vivia naturalmente com muitas dificuldades, mas nunca ou raramente acima das suas possibilidades. Por conseguinte, a maior parte dos compromissos financeiros, eram os relacionados com a alimentação e vestuário.

 

Vejamos, a título de curiosidade, alguns preços em 1959:

1 Kg de feijão: 4,50 escudos (bastante caro, parece-me);

1 melão: 2,30 escudos;

1 quartilho de vinho maduro: 1,00 escudo;

10 rebuçados: 0,50 escudos;

1 Kg de açúcar: 6,50 escudos;

1 Kg de farinha de pau: 5,00 escudos;

1 quartilho de azeite: 3,50 escudos;

1 Kg de arroz: 5,30 escudos;

1 caixa de fósforos: 0,30 escudos;

1/4 de sabão: 1,60 escudos;

1 Kg de batatas: 1,40 escudos;

1/2 Kg de bacalhau: 12,00 escudos;

1/4 Kg de farinha de triga: 1,60 escudos.

livro de calotes

livro dos calotes

livro calotes

1/27/2012

Wolfgang Amadeus Mozart

 

 

Em 27 de Janeiro de 1756 (passam hoje 256 anos) nascia em Salzburgo – Áustria, o compositor  Johann Chrysostom Wolfgang Amadeus Mozart, considerado um dos expoentes da música clássica.

Adoro a música de Mozart, pelo que à passagem desta data, fica aqui uma simples homenagem com mais um rabisco.

 

wolfgang amadeus mozart

1/20/2012

Trindade Coelho – Quando a esperança não se cumpre

 

 

marcha futuro

De um dos belos livros de leitura da quarta classe, datado de 1973, uma das leituras, intitulada “Marcha para o futuro”, incluía um curto mas belo texto de Trindade Coelho, onde de forma esperançosa antevia uma marcha vitoriosa dos jovens de então rumo a um futuro de uma Pátria renovada, assente na herança dos pais e antepassados.

Lembrava, também, “…indignos sereis da liberdade sem as virtudes dum bom cidadão: amar a Pátria; tornar próspero o País e fazê-lo respeitar.”.

José Francisco Trindade Coelho, um notável cidadão transmontano, de Mogadouro, homem da política e da literatura, viveu entre 18 de Junho de 1861 e 18 de Agosto de 1908, um republicano que partiu às portas da implantação da república (1910) embora ainda vivesse no tempo do cobarde regicídio que conduziu ao fim da monarquia (1 de Fevereiro de 1908).

Olhando agora para o actual estado da nação, não deixa de ser irónico ou quase profético que Trindade Coelho, a mais de um século de distância temporal, apesar de esperançoso nos tempos futuros, como os republicanos de então, alertava já para a indignidade de uma raça de cidadãos com liberdades mas sem as suas virtudes. As gerações que se lhe seguiram até aos nossos dias, tanto em período de ditadura como de democracia, com raras excepcções, não mais fizeram do que arrastar o país para este lodaçal onde falta a prosperidade, no seu sentido lato, bem como o respeito. Temos sido consecutivamente governados por gente incapaz, corrupta, oportunista, indiferente à realidade do país, fazendo-o viver acima das possibilidades, “à Lagardér”, desgovernando alguns raros períodos em que tivemos condições para nos cimentarmos na igualdade e justiça.

Chegamos a este ponto, triste e lamentável da nossa História e Trindade Coelho de algum modo, apesar de incitar à esperança as futuras gerações, não viu de todo concretizado o lado optimista do seu pensamento mas precisamente o mais pessimista.

 

livro leitura 4 classe

trindade coelho

1/18/2012

Miguel Torga - Evocação


Miguel Torga, um nome incontornável da literatura portuguesa, é dos nossos preferidos. Temos, por isso, já evocado aqui a sua memória.
Ontem passaram 17 anos sobre a sua morte (17 de Janeiro de 1995 - Coimbra). De forma singela, e com um novo rabisco, fica aqui a evocação.

A um negrilho

Na terra onde nasci há um só poeta
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.
Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!


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Miguel Torga - 12 de Agosto de 1907
Um palmo de sonho

1/17/2012

Novo regresso ao santanostalgia.com

 

 

O Santa Nostalgia está de regresso à sua versão com domínio próprio, no www.santanostalgia.com.

Como se recordam os nossos habituais seguidores, o projecto tinha sido parado porque o servidor onde se encontrava alojado não estava a dar garantias de qualidade e fluidez.

Face a essa situação, mudamos já para um novo servidor, que à partida nos oferece melhores garantias de bom desempenho, pelo que assim retomamos ali o projecto.

Quanto à situação da gestão dos dois espaços, ainda é uma decisão que não está tomada. Temos a opção de parar o blog neste espaço do Blogger e dar continuidade no domínio próprio ou mesmo manter os dois espaços em simultâneo embora com artigos diferentes e eventualmente segmentados nas categorias e características dos artigos.

É uma decisão que temos que pensar e equacionar vários interesses em jogo. Para os visitantes e seguidores habituais, a diferença será pouca pois a distância de um ou outro espaço estará sempre ao alcance d eum clique, sendo que quer um ou outro espaço manterão canais de interligação.

De todo o modo, este projecto em domínio próprio é para retomar já que temos muito mais opções de gestão e de ferramentas.

SANTA NOSTALGIA.COM

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