1/18/2011

A insegurança dos nossos dias

 

Desde há vários meses que o programa da RTP1, "Praça da Alegria", no ar diariamente entre as 10:00 e as 13:00 horas, com apresentação de Jorge Gabriel e Sónia Araújo, dedica sensivelmente os últimos 40 minutos da emissão a analisar e a reflectir sobre vários casos vindos a público, com impacto social e frequentemente decorrentes de situações de criminalidade, quase sempre ligados à segurança, ou falta dela.


Ontem, por exemplo, abordou-se o caso recente de uma senhora idosa, que vivendo só, foi assaltada com alguma violência, atada, amordaçada e abandonada no chão frio da casa, tendo-lhe sido roubada uma elevada quantia, a maior parte pertencente a um filho da vítima.


Habitualmente estes casos são superiormente analisados por especialistas convidados, como o médico-legista Dr. Pinto da Costa, o advogado Dr. Paulo Santos, o Juiz Rui Rangel e o médico psicólogo e sexólogo Júlio Machado Vaz.
Uma grande parte das intervenções estão disponíveis no YouTube pelo que facilmente se pode apanhar os fios às meadas de muitas das situações dissecadas.


Tudo isto para se constatar que não raras vezes, principalmente pela análise experiente do Dr. Pinto da Costa, todos estes casos, nomeadamente ligados à criminalidade, revelam um forte desprezo pela vida e pessoa humana, nomeadamente os ocorridos contra pessoas idosas, fragilizadas na incapacidade física e na solidão, bem como a uma falta de valores e princípios cívicos que afecta o grosso da nossa actual sociedade.


Louva-se, evidentemente, a análise destes casos na televisão pública, mas não temos dúvidas que a insistência neste conceito de rubrica, que põe a nu a insegurança, a criminalidade e muitas vezes a ineficácia da autoridade e a lentidão e benevolência da Justiça, formatada legalmente num quadro favorável ao criminoso e pouco ou nada protector quanto à vítima, deve sobremaneira desagradar a muitos, incluindo a sectores do Governo e sobretudo a sectores de uma certa sociedade liberal e progressista que em nome de supostos critérios de defesa contra preconceitos, liberdades e garantias,  vêem na classe criminosa um grupo de coitadinhos a quem se deve relevar as suas acções e conceder-lhes todas as oportunidades de recuperação.

Todos esses sectores têm conduzido o país a um crescente clima de insegurança e criminalidade, cada vez mais organizada e violenta bem como a um código penal onde a morte premeditada e agressiva de alguém, independentemente da quantidade de vítimas, é, quando é, penalizada com pouco mais de uma dúzia de anos de prisão.


Quando viramos as atenções para o recente e mediatizado caso da morte do jornalista do jetset, Carlos Castro, e quando se constata que pela lei do Estado de Nova Iorque, o assassino confesso, no mínimo, salvo inimputabilidade do foro psiquiátrico, não se livrará de 25 anos de cadeia, correndo até o risco de apanhar perpétua, é que chegamos à conclusão que neste capítulo Portugal ainda é uma república das bananas onde compensa e vale a pena ser-se criminoso, porque o risco é reduzido e o castigo é lento e benévolo.


A este respeito, dizia há dias o Dr. Pinto da Costa, para a maior parte dos crimes, mesmo que apanhado em flagrante, o criminoso que actua em Portugal fica com a ridícula obrigatoriedade de se apresentar semanalmente às autoridades, por exemplo, à Quinta-Feira, ficando com o resto do tempo livre para se dedicar ao que melhor sabe fazer, ou seja, atentar contra os elementares direitos dos cidadãos, seja quanto ao património seja, o que é mais grave e frequente, contra a integridade física e a vida de treceiros, sejam crianças, jovens, adultos ou idosos. Não surpreende, pois, que recorrentemente cheguem notícias sobre indivíduos que num mesmo dia são apanhados diversas vezes na sua actividade ilícita, alguns dos quais em liberdade condicional ou já sujeitos à medida de coação de termo de identidade e residência. Banaliza-se assim o sentido de justiça e da sua aplicação.

Pode-se, pois, invocar mil motivos, pretextos e razões sociais ou culturais  para se defender ou relativizar o papel dos criminosos, mas não se pode ignorar que na maior parte dos casos, este tipo de gente só compreende a linguagem da violência gratuita pelo que, para boa compreensão, tem que se dialogar em consonância, com justiça implacável, dura e efectiva, mesmo que isso possa custar investimento em mais autoridade, meios de segurança e prisões. A liberdade e a sua garantia só deve fazer sentido se a ela na justa proporção corresponder o direito, o dever e a disciplina. A política dos paninhos quentes e do politicamente correcto tem conduzido aos resultados que se vêem e só não não se apercebe disso quem não lê, não vê e não ouve os seus ecos diários nos diferentes suportes da comunicação social, mesmo sabendo-se que esta só dá conta de uma ínfima parte.

Até quando?


1/17/2011

O direito à indignação

 

Estou revoltado! Indignado! E não é por ser segunda-feira.

O Estado e quem nele nos governa, os seus organismos e entidades tentaculares que corporizam a chamada administração pública, por regra quase nunca me merecem considerações positivas porque quase nunca cumprem os desígnios da sua génese de serviços públicos, de serviço ao cidadão enquanto pessoa, mas antes funcionam como uma enorme fábrica com linhas de montagem intrincadas, complexas e programadas para fazerem a vida negra, já não aos cidadãos porque não nos tem em tal conta, mas aos contribuintes, essa categoria de gente amorfa, com uma identidade de 9 algarismos onde a única relação admitida é a contabilidade, as contribuições, os impostos, as finanças.

Em suma, desta relação estritamente numérica, não sobra tempo nem espaço para o lado humano, para a razão ou a emoção. A um contributo ou dever financeiro, o Estado e toda a sua máquina retribui com indiferença, com frieza. Se nos tem que responder, elenca e fá-lo com regulamentos, portarias, leis e despachos. Ora isto é penoso porque quando temos que responder a alguém que nos diz que somos um merdas, sabemos como responder e que argumentos usar. Mas o Estado responde-nos com uma qualquer alínea c) do ponto 3 do art.º 56º da Portaria 345e catrapuz, barra dois mil e tal de tantos dos tantos. Ora uma linguagem assim deve ser descodificada porque o Estado fala-nos como se estivesse num constante período de guerra e tudo o que nos revela e transmite é codificado. Com esta forma de comunicação, não há relação que aguente e daí que o Estado viva num processo contínuo de divórcio com os seus cidadãos e vice-versa. Designações como Estado Social, proximidade ao cidadão, desburocratização, etç, são meros artifícios, capas ou camuflagens, fazendo-nos lembrar aquelas telas publicitárias que com cenários paradisíacos escondem fachadas de edifícios em ruínas em muitos dos nossos espaços urbanos.

Mas não me custa partilhar aqui o motivo deste estado de revolta, de indignação porque, estou certo,  é comum a centenas ou milhares de pessoas.

Direi que tenho uma filha no segundo ano de um curso superior, que como uma grande maioria dos estudantes portugueses, candidatou-se à atribuição de uma Bolsa de Estudo. De forma relativamente descomplicada e justa, obteve-a no ano transacto, até que o Estado, em nome dos cortes e poupanças, porque é exímio a poupar no farelo para esbanjar na farinha, decidiu ligar o complicador que é como quem diz, apertar a malha da peneira. Ou seja, ao processo de candidatura, aberto creio que em Maio de 2010, mandou-o dar uma volta e decidiu alterar a regulamentação como lhe é característico, uma espécie de árbitro que a meio de um jogo decide mudar as regras. Qualquer coisa justificada desta forma:

A entrada em vigor do Decreto-Lei nº70/2010, de 16 de Junho, impôs alterações ao nível do formuláriode candidatura a Bolsa de Estudo. O referido Decreto-Lei, determina, no Artigo 25º, a “reavaliação extraordinária da condição de recursos”.

Deste modo, em Setembro lá abriu um novo sistema e tudo teve que voltar ao princípio. As candidaturas a serem feitas numa plataforma online, com uma complexa rede de dados e informações e uma lista de documentos requeridos, desde logo um documento assinado pelos membros do agregado com vista à autorização de consulta de dados na Segurança Social, como se o Estado precisasse disso. Apesar desse “salvo-conduto”, foram solicitados documentos de prova de abonos e rendimentos que, como seria expectável, foram quase sempre recusados aos balcões das delegações da SS. O Estado e a sua Administração Pública no seu melhor, numa teia intricada de redundâncias, de recusas e acusas mútuas, numa calda de burocracia tão necessária à sobrevivência da sua massa de funcionários.

Apesar das dificuldades iniciais, a candidatura e documentos foram devidamente submetidos. O processo entra em estado de análise, uma espécie de hibernação de um qualquer urso ou lagarto. A vigília à caverna foi quase diária na expectativa do despertar da besta.

Foi assim durante mais de 3 meses e meio, “sem xús nem mús”. De repente o urso acorda estremunhado, mesmo às portas do Natal (se calhar com o cheiro quente das rabanadas) já com os estudantes em férias, e apressado notifica os candidatos, anunciado-lhes a boa nova que há documentos em falta (não requeridos como necessários no processo de candidatura) e que têm 5 diazitos para os apresentar. Que se despachem! Que vão bater à porta das repartições, esses templos sagrados do bom atendimento, simpatia e disponibilidade, porque não há tempo a perder.

Por desmazelo ou falha do sistema, a verdade é que um grosso dessas notificações chega às caixas de email dos candidatos já passado o prazo, isto em plena véspera de natal.

Face à inesperada notificação de Indeferimento da candidatura, é feito o procedimento de Oposição, com a argumentação devida e submetidos os tais documentos. Passados mais uns dias, no início do ano, o urso, refeito do despertar atribulado, lá vem notificar que concede um prazo de 5 dias para apresentação dos documentos em falta, já que os submetidos (certidões de prédios) não estão conforme. Pretendem que seja apresentada certidão por parte do Serviço de Finanças, que esclareça devidamente o que cada elemento do agregado possui, mesmo os menores. Com a "atenciosidade" própria das nossas repartições públicas, travei uma dura batalha para conseguir tal documento, uma espécie de batalha de Aljubarrota, onde tive vontade de resolver a questão à maneira da famosa padeira Brites de Almeida.

Mesmo assim, com toda esta "franca colaboração" do serviço público, o tal documento lá foi submetido bem dentro do tal prazo de 5 dias.

Renascia assim a legítima esperança de que a coisa se ía resolver. Mas não: No dia 14 último, friamente, é feita a solene notificação que a candidatura foi liminarmente indeferida com base na instrução incompleta do processo. Ou seja, entre o dia 6/1/2011, data de submissão do documento em falta, dentro do tal prazo concedido, e a data da notificação final, a 14 de Janeiro, não houve qualquer contacto ou notificação quanto à falta ou inconformidade de documentos, legitimando um pressuposto de que tudo estava conforme. Puro engano.

Creio, assim, estar justificada esta revolta, esta indignação, até porque advém de outras constatações, especulativas, é certo, mas que encaixam: Todo o processo de candidatura foi concebido num pressuposto de dificuldades, levando uma grande percentagem de candidatos a desistirem, por impaciência ou incapacidade de responder e apresentar a documentação suplementar, não prevista no início. Basta fazer a leitura das listas finais de atribuições para se perceber o alcance dessa ratoeira.

Foram três meses e meio em espera, em stand by, para depois, às portas do Natal, em período de férias, notificaram de forma apressada requerendo documentos que têm que ser arrancados a ferros na mesma administração pública.

Por outro lado, face à importância do assunto, não se percebe de todo que a notificação seja feita apenas por email, sem qualquer outro meio complementar, como poderia ser uma carta registada ou até mesmo um corriqueiro SMS. Todo o processo montado remete-nos para aquelas típicas cenas de filmes de assaltos a um banco ou a um museu, com o alvo envolto em armadilhas e uma teia de raios ou feixes laser que logo que tocados inadvertidamente accionam um ruidoso ALARME, ALARME, ALARME, no caso substituídos por um não menos estridente INDEFERIDO, INDEFERIDO, INDEFERIDO.

Mesmo quando se consegue transpôr toda esta sofisticada tecnologia, não ao alcance de qualquer cidadão, o Estado recorre às clássicas mas eficazes cascas-de-banana, largadas no trajecto de quem a ele recorre. Em suma, um árbitro tendencioso, que para prejudicar uma equipa não hesita em inventar um penalti fora da área, nem que seja no último segundo do prolongamento.

É este o nosso Estado. Para além de tudo, indiferente a indignações.

Face a tudo isto, com a esposa em situação de desemprego de longa duração, há anos sem qualquer subsídio, com a implacável prestação de crédito à habitação a bater pontualmente à porta de casa, com um segundo filho menor no ensino  básico, com tudo o resto que caracteriza os gastos de uma normal família, urge fazer algumas opções e uma delas passará pela suspensão do curso e dos estudos. Se considerarmos que no ano transacto, a Bolsa rondou os 300 euros mensais, e mesmo admitindo uma expectável redução, estará assim em causa uma verba a rondar os 2500 euros, bastante significativa, diga-se, dentro do tal contexto e das próprias dificuldades que os portugueses em geral vão ter durante os próximos anos.

Para além do mais, os noventa e poucos euros que desde Outubro têm sido transferidos a título de “adiantamento” certamente que vão ser reclamados.

Desculpem o desabafo!


1/16/2011

O Mosquito

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No dia 14 de Janeiro de 2010, portanto na última sexta-feira, passaram 75 anos sobre a publicação do 1º número de O MOSQUITO, jornal de banda desenhada fundado  por António Cardoso Lopes e Raúl Correia, dirigido ao público infanto-juvenil. A publicação depressa se tornou um caso sério de popularidade e para isso em muito contribuiu o baixo preço praticado (50 centavos), comparativamente a publicações semelhantes existentes à época (Mickey - 1$50, Senhor Doutor - 1$50, Tic-Tac - 1$00 e O Papagaio - 1$00).

Arrancou assim em 14 de Janeiro de 1936, com uma tiragem de 5000 exemplares. O jornal, com o slogan “O semanário da rapaziada”, era distribuído pelo Diário de Notícias o que também explica a propagação. Devido ao sucesso imediato, ao 6º número a tiragem foi aumentada para o dobro (10000 ex.) e em pouco tempo (Dezembro de 1942) a periodicidade passou de semanal  para bi-semanal, atingindo tiragens de 30000 exemplares (60000 por semana). Das 8 páginas iniciais chegou às 16. No período de maior expansão, a publicação tinha muitas assinaturas as quais correspondiam a cerca de 15% das vendas.

O Mosquito publicava banda desenhada dos bons autores portugueses, mas sobretudo de origem inglesa já que esta era mais acessível em termos de custos e direitos do que a americana.

A publicação durou 17 anos a que corresponderam 1412 números, para além de suplementos como A Formiga, dirigida às raparigas, Almanaque e outras, tendo o seu desfecho a 24 de Fevereiro de 1953, numa altura em que vinha perdendo mercado para outras populares edições, nomeadamente O Cavaleiro Andante, iniciada em 1952, outro ícone da banda desenhada em Portugal.  Apesar disso, a quebra de rendimento já vinha a ocorrer desde o final dos anos 40, em grande parte devido à ampla introdução no mercado de revistas  de BD provenientes do Brasil. As tiragens começaram a caír e a publicação encerrou com números à volta de 7000 exemplares.

 
Depois disso, já nos anos 60 e 70, houve algumas tentativas, dando origem às 2ª, 3ª e 4ª séries, com poucos números publicados, mas os tempos e o mercado já não eram os mesmos e a coisa não teve continuidade.

Nos anos 70, ainda à volta do título e da popularidade, o jornal O Cuto editou uma série de compilações com a designação Enciclopédia O Mosquito, que deu lugar a 10 números. Nos anos 80, em jeito de homenagem a alguns dos emblemáticos desenhadores da publicação, como E.T. Coelho, Jesus Blasco e Jayme Cortez, surgiu o Almanaque O Mosquito, que teve várias edições anuais.


Finalmente, nos anos 80 (1º número em Abril de 1984) apareceu em formato revista, de propriedade de Carlos & Reis, L.da e dirigida por José Chaves Ferreira, designada de 5ª série, que deu lugar a 12 números.
Por tudo isso, O Mosquito é um dos nomes incontornáveis das publicações de banda desenhada em Portugal fazendo justamente parte da sua História e marcou de forma indelével várias gerações de portugueses.

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- Notícia relacionada: Link


1/14/2011

Bom dia! Como passou vossa excelência?

 

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Hoje em dia vivemos numa sociedade chamada global e para isso têm contribuído sobremaneira as tecnologias de informação e comunicação, como a internet e suas ferramentas. Agimos e interagimos e a blogosfera e as redes sociais, pelas suas características, têm neste particular uma importância relevante. Resumindo, aparentemente nunca estivemos tão próximos, tão em contacto uns com os outros, e todavia, para lá do biombo, do monitor ou ecrã que nos divide desse mundo global mas virtual, nunca estivemos tão afastados, tão solitários e simultaneamente expostos e vulneráveis.

Neste mundo de relações sociais mas virtuais, alguns conceitos e valores estão completamente subvertidos. Veja-se, no caso da rede social do momento, o Facebook, onde o conceito de amigo ou amizade anda pelas ruas da amargura. Ali os amigos contam-se aos milhares e os pedidos chegam como a sardinha na canastra, compacta e uniforme, descaracterizada e sabe-se lá por que motivos. Ali os gestos de amizade medem-se pelas banalidades e trivialidades e poucos são os que realmente cultivam a verdadeira amizade ou interagem com algo que se aproveite. O Facebook é assim uma espécie de laranja mecânica, de casca grossa e sem qualquer sumo por mais que se esprema.

Para justificar e compreender a banalidade a que hoje chegou o valor da amizade, temos que olhar ao nosso redor, na nossa casa, na nossa família, aldeia, bairro ou cidade. Mesmo considerando as escassas excepções que sempre hão-de existir para confirmar a regra, hoje em dia não nos conhecemos. Podemos até ver com regularidade o nosso vizinho da frente, do lado, de cima ou de baixo, mas muitas vezes não passa disso. Saímos à rua, cruzámo-nos com pessoas, conhecidas ou desconhecidas, mas não os olhamos de frente, olhos nos olhos, não lhes fazemos um simples gesto de saudação, não lhes sorrimos nem balbuciamos um simples olá, ou um viva. Quando muito, olhamos para o lado ou para o chão ou até atalhamos caminho ou fingimo-nos distraídos a olhar para o infinito ou com o nariz na montra. Esta indiferença vale tanto para crianças como para adultos ou idosos. Pelo contrário, e relativamente aos idosos, a nossa tendência será até num sentido de repulsa e escárnio, principalmente se para além dos aspectos de decadência física, revelarem um aspecto de desmazelo e abandono.

Frequentemente, mesmo na minha pequena aldeia, reparo que durante a celebração de uma Missa, as crianças ocupam os lugares, sozinhas ou ao lado dos pais, mas mesmo tendo uma pessoa idosa ao lado e em pé, não têm a cultura e a educação para lhes oferecer e ceder o lugar. É claro que a culpa não é das crianças, mas dos pais e da educação e valores que lhes transmitiram.

Não deixo, pois, de evocar os meus tempos de criança, em que na mesma situação, sabíamos oferecer e ceder o lugar aos mais velhos, mesmo que não fossem propriamente doentes. E quando o fazíamos, ficava no peito e no coração um sentimento de dever cumprido.

Diariamente, ao levantar e ao deitar, havendo oportunidade, pedia-se a bênção dos pais. - Dê-me a sua bênção, meu pai! - Deus te abençoe!

Este procedimento aplicava-se para com os padrinhos de baptismo ou para com os avós.

Sempre que se passava por alguém na rua, havia lugar para um "Bom dia", "Boa tarde" ou Boa noite". Também um "Até amanhã, se Deus quiser", ou "Vá com Deus". Já nem falo noutros procedimentos mais formais ou sociais, como o subalterno tirar o chapéu na presença de alguém com estatuto social ou profissional mais elevado. Nesses tempos havia essa distinção, é verdade que por alguma cultura de subalternidade mas também por educação e reconhecimento próprio para quem de facto exercia cargos e profissões importantes.

É claro que se pode relacionar estes hábitos com uma certa cultura religiosa ou cívica, ou mesmo cultural, mas mais do que isso revelavam quase sempre uma base de respeito pelos pais, pelos mais velhos e por todos em geral, mesmo desconhecidos. Actualmente, porém, tudo isso foi abandonado e hoje pautamo-nos pela indiferença de tratamento, respeitamo-nos muito pouco e tratámo-nos como estranhos, como desconhecidos. Por isso, a forma de nos dirigirmos a um simples mas digno operário é exactamente a mesma do tratamento dado a um professor, um médico, um sacerdote, um ministro ou um magistrado. A pretexto de princípios de suposta igualdade e contra supostos preconceitos, nivelamos tudo, mas por baixo. Como costumo dizer, de algum exagero do 8, passamos para o exagero do 80.

Com toda essa igualdade, essa indiferenciação de estatuto e condição, perdemos o respeito pelos outros e até por nós próprios. Ao ensinamento velhinho de que devemos saber ocupar o nosso lugar, não deixamos de classificar essa máxima como desajustada e fora de prazo porque considerámo-nos todos ao mesmo nível, não porque o não sejamos na essência humana, mas porque perdemos os valores e os parâmetros que balizavam alguma diferenciação de tratamento. Exemplificando com o caso da escola, dos alunos e professores, estes, outrora considerados mestres e por quem se nutria respeito mas também admiração tanto pela pessoa como pela dignidada da função,  hoje tornaram-se vulgares funcionários, desprezados e desconsiderados, impedidos de exercer a autoridade e disciplina e por conseguinte expostos à má educação e desaforo do sistema, dos pais e alunos de toda a espécie, pepinos crescidos sem quaisquer torcimentos.

Chegamos assim a um ponto onde qualquer laivo de boa educação cívica e moral, mesmo a que bem herdada de nossos pais e avós, tornou-se obsoleto, desnecessário e até motivo de risada, de escárnio ou de espanto.

Tenha, pois, cuidado, ao passar na rua e saudar alguém com um jovial "Bom dia!" pois, mesmo que o conheça, poderá olhar para si de forma espantada e intrigada.

Para o bem e para o mal, as coisas chegaram a este ponto de caramelo e em grande parte justificam a fonte de muita da actual violência gratuita e o desprezo pela vida e condição humanas.


1/13/2011

O Justiceiro - Knight Rider

 

Está a passar na RTP Memória uma das típicas séries de televisão produzidas nos Estados Unidos, uma das muitas que caracterizaram os anos 80. Trata-se da série "O Justiceiro", no original "Knight Rider", com o conhecido actor David Hasselhoff, que mais tarde reforçou a sua popularidade com o papel do nadador-salvador Mitch Buchannon, numa outra série de culto, o "Marés Vivas", também conhecido pela participação da bombástica Pamela Anderson.


Michael Knight, interpretado por David Hasselhoff, é um agente ou detective especial cuja personalidade e identidade lhe foram atribuídas depois de ter sido dado como morto num combate na guerra do Vietnam, onde era soldado. Secretamente foi salvo e transfigurado num bonitão (quem diria), pronto a combater o crime e os criminosos na “sela” do seu “cavalo”.

Na série, Michael Knight, está profundamente ligado ao seu fabuloso automóvel, o KITT (um Pontiac Banshee IV – General Motors), preto, todo especial, repleto de sofisticadas tecnologias, incluindo um computador de bordo que falava e interagia como se de uma pessoa se tratasse. O KITT (Knight Industries Two Thousand) era o resultado do desenvolvimento de inteligência artificial da FLAG - Foundation for Law and Government, cujo representante, e cooordenador das missões, era o Devon Miles, interpretado por Edward Mulhare. Para além destes personagens, existia também a Dr. Bonnie Barstow (Patricia McPherson), a mecânica chefe que tratava da "saúde" do KITT. Este papel foi ainda repartido na 2 temporada por April Curtis (Rebecca Holden). Aliás a série está polvilhada de mulheres bonitas, o que não deixa de ser natural.


A série teve a sua produção de 1982 a 1986, com 84 episódios correspondentes a 4 temporadas.
Confesso que nunca me entusiasmou sobremaneira, pois toda aquela tecnologia (demasiado avançado mesmo nos padrões actuais) afigurava-se-me como quase patética, nomeadamente quando o botão do "super turbo" era solução para tudo, tanto para ultrapassar como para sobrevoar os adversários boquiabertos. Parecia-me tudo demasiado inverosímel, ligeiro, previsível, mas, apesar disso, bem à americana, ou seja, com bom efeito.
Mas, pronto, reconheço que a série foi muito popular, sobretudo junto do público feminino que não deixava de suspirar pelo, dizem, bonitão do Michael Knight.


Como seria de esperar, a série teve várias sequelas já nos anos 90 bem como de vez em quando é reposta em alguns canais de televisão, como aconteceu já na TVI, em 2009, com o remake “O Novo Justiceiro”, com 17 episódios, com várias alterações ao nível do elenco.

Não há amor como o primeiro.

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O vídeo com o tema de abertura: Link


1/12/2011

Barbapapa – Uma família colorida e maleável

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Quem não se recorda da série de animação, "Barbapapa"?
Tratava-se de uma família muito especial, uma espécie de bonecos de borracha ou de massa cujos corpos se moldavam em certos objectos ou características. Não tinham pés, sendo assim uma espécie de bonecos" sempre-em-pé".

Apesar dessa característica estranha, a série tornou-se muito popular e querida entre nós, quando passou na RTP na primeira metade dos anos 70.
Dentro desse sucesso, a antiga Agência Portuguesa de Revistas editou em 1975 uma caderneta composta por 210 cromos.

A série voltou a passar já nos anos 80, então a cores, pelo que se ressaltava o colorido característico dos diversos personagens, já que os havia para todas as cores.
O personagem principal era o pai, o Barbapapa, em cor-de-rosa. A sua esposa, a Barbamama, paradoxalmente, era de cor preta. Os filhos do casal tinham nomes adequados às suas aptidões físicas ou intelectuais e tinham várias cores, como o verde,o azul, o amarelo, vermelho, laranja, cor-de-rosa e preto.

Estes curiosos bonecos saíram da imaginação e arte da aqruitecta e ilustradora francesa, Annete Tison e do pofressora norte-americano, Talkus Taylor, isto no início da década de 70. Antes da televisão, o personagem nasceu na forma de livro infantil.

A série de televisão foi co-produzida pela Holanda e Japão, com realização de Kôichi Sasaki, Katsuhisa Yamada, Atsushi Takagi e produção de Tôru Hara. Foram realizados 93 episódios de 5 minutos cada, 45 na primeira temporada e 48 na segunda temporada.
 
Uns anos mais tarde, já na década de 1990, foi produzida uma nova versão.
É claro que a série estava dirigida ao público infantil pelo que a criançada regalava-se com as peripécias e habilidades dos bonecos simpáticos e coloridos.

Personagens e características:

Barbapapa: É o pai da família. Tem a cor rosa.
Barbamama: A mãe da família. Tem a cor preta e sempre ostenta flores na cabeça, como todas as "garotas" da família.
Barbabela:  A mais vaidosa, sempre preocupada com a aparência. Tem a cor lilás.
Barbaclic:  Extremamente curioso, gosta de ciências. É azul.
Barbacuca: É estudiosa e gosta de livro. Tem a cor laranja.
Barbalala: Gosta de música. Tem a cor verde.
Barbaploc: É o desportista da família e gosta de bancar o detetive. Tem a cor vermelha.
Barbatinta: Gosta de pintura. É preto e o único barbapapa com pêlos.
Barbazoo: É o amigo dos animais e plantas. Tem a cor amarela.

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1/11/2011

A velha e a nova Inglaterra

 

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Cartaz publicitário do princípio dos anos 70, num incentivo às viagens a Londres.  O texto que acompanha o cartaz faz referência a alguns dos símbolos ou ex-líbris da capital inglesa, nomeadamente o Palácio de Buckingham, a Torre de Londres e outros locais. Para além disso, na imagem estão representados alguns dos aspectos sociais e quotidianos que marcavam a cultura e a moda de então. Os jovens, vestidos num registo hippye, com cabelos compridos e soltos, as mini-saias, em contraponto à imagem conservadora da “velha Albion”. O aspecto do rapaz, com calças de ganga, cabelo, bigode e óculos à epoca, remete-nos para um forte símbolo da Inglaterra desses anos, exactamente John Lennon, figura carismática da banda (de Liverpool) The Beatles.

Por tudo isso, o cartaz é todo ele uma evocação fiel e nostálgica de um período caracterizado por uma revolução cultural e de costumes, desde o sexo à moda, iniciada já na década de 60.


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