Vai longe o tempo das cartas de amor.
Com o desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação, hoje consignadas nos computadores, no generalizado uso do correio electrónico e mensagens instantâneas, bem como o vulgarizado telemóvel, os pombinhos namorados estão em permanente contacto, quase 24 sobre 24 horas.
Conversas, mensagens, e toques, por tudo e por nada, por algo importante, poucas vezes, e por banalidades, quase sempre, fazem parte do dia-a-dia dos namorados de agora.
De há vinte anos para trás, porém, tudo era substancialmente diferente: Ninguém tinha telemóvel, nem computador nem internet. Havia o telefone fixo, mesmo assim em poucas casas e telefonar para casa do pombinho ou da pombinha era quase sempre um tiro de sorte, pois a quem se ligava podia não estar e por conseguinte a chamada ser recebida pelos pais ou irmãos, o que, convenhámos, na maior parte dos casos era um inconveniente.
Neste contexto, escrever cartas de amor era um dos recursos muito utilizados. A carta servia assim para falar do dia-a-dia mas também expressar sentimentos de saudade e de paixão, muitas vezes com a coragem que fugia nos encontros pessoais. Servia também para marcar o encontro do próximo fim-de-semana.
Claro que escrever boas cartas de amor, não era para qualquer um. Muitas vezes à falta de inspiração, juntava-se a dificuldade na escrita e no português. Uma carta carregada de erros podia em alguns casos abafar como erva daninha a pureza dos sentimentos a transmitir. Deste modo, as cartas poderiam ser resumidas, telegráficas ou longas e expressivas.
Depois havia quem usasse uma simples folha arrancada a um ordinário caderno da escola mas também quem utilizasse papel próprio, daqueles com desenhos suaves como marca-de-água e com envelopes a condizer. Muitas vezes perfumados. A caneta ou a esferográfica também era importante. Pessoalmente, mesmo para a minha namorada, minha actual esposa, escrevi dezenas de cartas, especialmente no tempo de tropa e gostava de escrever com caneta de tinta permanente. No final de cada carta arranjava sempre tempo para um breve poema ou um desenho.
Finalmente, após a carta ser entregue no correio, num qualquer marco postal ou entregue em mão ao próprio carteiro da zona, era a expectativa e a ansiedade quanto ao momento em que a carta seria recebida pelo(a) destinatário(a). Por sua vez, quando se recebia carta da outra parte, o coração saltava de expectativa. Muitas vezes era a rotina, a continuidade do namoro. Outras, porém, era uma carta inesperada, como o rompimento do namoro. Pela forma mais fácil de tratar este assunto, os rompimentos geralmente eram comunicados por carta.
Para além deste aspecto, quanto ao modo de comunicação dos namorados, recordo-me que estava mais ou menos instituído o tempo e a forma de namorar. O Domingo era de facto o dia reservado aos namorados, mas por norma só da parte da tarde e só até ao jantar. Durante a semana a Quinta-Feira era o clássico dia para o desougo, pelo que era permitido um bocadinho de namoro depois da hora do jantar.
Finalmente, pelo menos em ambientes de aldeia, onde estes usos e costumes sociais sempre foram mais vincados e conservadores, o que se compreende, de um modo geral não era permitido às raparigas saírem nos carros dos rapazes. Quando muito, acompanhadas por alguém da casa. Depois de algum avanço no namoro, poderia ser permitido namorar dentro do carro, mas junto à casa dos pais da moça.
É claro que se recuarmos ainda mais no tempo, não muito, na primeira fase a rapariga namorava mas quase sempre acompanhada por um irmão mais pequeno, uma espécie de vigia. Junto à porta ou à janela, quando o namoro se prolongava já depois do sol-posto, a mãe da moça, mandava alguém da casa colocar junto dos namorados uma vela acesa, em sinal de que já era tarde e urgia recolher. Muitas vezes, depois de entrada em casa, a rapariga ouvia o sermão e eventualmente, dependendo da gravidade do atraso, um bofetão.
Um ponto assente no sistema de namoro, mesmo na fase da sua procura, eram sempre os rapazes que se deslocavam, pela terra ou terras vizinhas, de lugar em lugar, pelas romarias, bailaricos e desfolhas. Noutros tempos a pé, de bicicleta e mais recentemente de motorizada ou de carro.
À luz da situação actual, tudo é diferente, não só nos meios (toda a gente tem carro, computador e telemóvel) mas sobretudo nos comportamentos. Hoje são elas a assumir a conquista, os engates e vão mesmo apanhá-los a casa. Já não se namora ao pé da casa dos pais. Vão para o mais longe possível, frequentam bares, discotecas e logo a partir do primeiro dia já dormem juntos. Tudo isto não só na fase de maioridade mas sobretudo na adolescência e até quase em criança.
É claro que muitas destas mudanças são positivas, mas, pelo meio, ao nível comportamental, sobra todo um conjunto de situações complexas, quer ao nível da instabilidade das relações quer ainda no aspecto de saúde, porque aumentaram as gravidezes indesejadas, os consequentes abortos, transmissão de doenças, mães solteiras, mães adolescentes, divórcios, uniões de facto, etc.
Como costumo dizer, são tudo situações inerentes à mudança dos tempos. Certamente que sim, mas é fácil admitir que no meio de tanto progresso e avanço das sociedades, nem tudo se salda por um mar-de-rosas.
Pelo menos, para trás ficaram as cartas de amor. Serão apenas um fetiche ou uma excentricidade. Já não faz sentido a cantiga: "Cartas de amor, quem as não tem..." Hoje será: "Cartas de amor, poucos as tem..."
Cartas de amor,
Quem as não tem?
Cartas de amor,
Pedaços de dor
Sentidas de alguém.
Cartas de amor, andorinhas
Que num vai e vem, levam bem
Saudades minhas.
Cartas de amor, quem as não tem?