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Publicidade nostálgica - Laca Yenka - Memórias da ida ao barbeiro

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Não é uma marca muito conhecida e provavelmente já nem se fabrica, mas ainda me recordo de levar com uma camada desta laca, pulverizada pela mão nervosa do barbeiro da aldeia na véspera da minha comunhão solene. Tão nervosa a mão que mutilou metade da minha franja à Beatles.

A ida ao barbeiro, ainda que sazonal (quase sempre no início do Verão) era um duro castigo para os rapazes, pois o barbeiro, o Ti  Tonico, era mais nervoso que a sua mão e, contraditoriamente, não suportava o nervoso dos seus jovens clientes. Ainda por cima, éramos obrigados a ficar sentados sobre três ou quatro almofadas para compensar a falta de altura e no cimo dessa poltrona oscilávamos mais do que um choupo em tarde de ventania. Com a História de Portugal na ponta da língua, não fora a imobilização forçada, sentir-me-ia como o Samorim de Calecute na sua poltrona de púrpura a receber o recém chegado Vasco da Gama.

Para forçar a posição, o Ti Tonico apertava-nos a cabeça com a sua grande e nervosa manápula, como quem prova a madurez de um melão na feira de Santa Eufémia. Outro calvário: Não havia uma única cabeça de rapaz de aldeia que não tivesse a sua criação de piolhos e lêndeas, pelo que o Ti Tonico teimava em exterminar a família esmagando cada gordo exemplar entre a sua unha suja do polegar contra o nosso couro cabeludo. Um autêntico piolhicida, o Ti Tonico.

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O castigo agravava-se pelo facto do Ti Tonico, neste processo, nos envolver numa branca mortalha a modos do que fazia com os seus mal-cheirosos cigarros Águia, que fumava durante a "ceifa", pelo que ficávamos apenas com a cabeça de fora, com jeito de maluco enfiado numa camisa de forças, sem poder usar as mãos para coçar as orelhas e o nariz coberto de cabelo de ano. Um autêntico suplício digno da Inquisição. Valha-nos que pelo menos podíamos coçar os co...testículos.

Como se fossem poucos estes castigos, a máquina manual de cortar cabelo rapáva-nos o cachaço com forte pressão num trec-trec arrepiante. Finalmente, era temível ver o Ti Tonico afiar a navalha para nos acertar as suissas. Não raras vezes, a navalha deixava marcas.

Era, pois, com um forte sentimento de alívio quando saltávamos abaixo da poltrona, não sem antes sermos encharcados do cachaço à boca e de uma a outra orelha pela colónia Patcholi servida pela concha da manápula do Ti Tonico. Durante semanas, até porque os banhos eram raros, fedíamos a colónia mas parece que as raparigas gostavam, pelo menos achávamos que se encostavam mais.

Bons tempos, estas idas ao barbeiro da aldeia, pelo menos recordados agora à distância e à segurança de uma catrefada de anos, mas, verdade verdadinha, recordo-me que aqueles eram momentos deveras penosos.

Quanto ao Yenka (que parece nome de ucraniana), nada mais sei sobre este produto. A empresa fabricante, a Marcelle Bouhon, L.da ainda existe, pelo menos aparece listada nos directórios de empresas, com sede na Rua Latino Coelho, Venda Nova, Amadora, sendo referenciada no sector de armazenistas e fabricantes de produtos de cosmética e perfumaria.

Alguém saberá dizer se ainda se fabrica e comercializa esta marca? Pelo menos o Ti Tonico, que Deus o tenha em descanso, e que continue como o seu passatempo das tardes de domingo, a ouvir o Tannhäuser no seu majestoso gira-discos enquanto fumava os Águia, não tem comprado. Bem, também porque agora e desde há anos,  valha a verdade, não tem tido clientes, até porque os anjos não têm pelos na venta e os apóstolos e os grandes santos doutores da igreja, continuam a ter orgulho nas suas milenares e imponentes barbas, pelo que se conste também não recorrem aos serviços do Ti Tonico. Valha-lhe a afinação do coro dos peregrinos.

- Fragrância, suavidade, frescura!

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