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Serões da aldeia - Histórias à lareira

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Hoje em dia já não há serões à lareira nem o contar de histórias mágicas, lendas e narrativas dos mais velhos aos mais novos.
As casas modernas são avessas a fumo, as lareiras são demasiado pequenas, muito decorativas e pouco funcionais e defronte não há lugar para uma roda onde caibam avós, filhos e netos.
Os netos estão entretidos com a televisão, com o computador e consolas de jogos.
Os avós, raramente coabitam com os filhos e netos. Quando muito vivem sozinhos ou relegados num qualquer lar de idosos.
Noutros tempos, quando a electricidade ainda não chegava à maioria das aldeias, ou se chegava, não entrava em todas as habitações, as grandes lareiras eram frequentes nas casas, mesmo nas mais pobres e depois de acabados os trabalhos no campo, para ajudar a matar as longas noites de Inverno, aconteciam os serões, com os mais velhos, de modo especial os avós, a contarem aos netos coisas do seu tempo, histórias ligadas ao campo, aos animais, velhas narrativas e contos sobre outros tempos, pessoas e lugares.

Enquanto isso, à luz da fogueira ou do candeeiro a petróleo, as mulheres entretinham-se a fiar ou a remendar a roupa.
Pessoalmente recordo-me de alguns desses fantásticos serões. Os meus avôs paternos tinham uma enorme casa de lavrador (que passou para o meu pai), por sua vez com uma lareira enorme, daquelas abertas, com um balcão em granito ao fundo, chamado pial. Por cima, o grande saco da chaminé, onde dormiam presuntos e salpicões.

Assim, nas longas noites de Inverno, depois da ceia (jantar), por vezes com a chuva e o vento a fustigarem impiedosos a noite, toda a família reunia-se ao redor da fogueira, onde crepitavam grandes tocos (lenha proveniente das cepas das árvores, conseguidas com muita força na picareta e no machado). Assim, depois da habitual reza do Terço, onde os mais novos não resistiam à lengalenga e “passavam pelas brasas”, logo depois começava a parte melhor, com o avô a contar das suas. Umas vezes sobre coisas vulgares, outras, porém, histórias fantásticas, que até metiam bruxas e espíritos, vagueando por casas e caminhos assombrados. Nessas alturas, escusado será dizer que, para além do fascínio do enredo, “a mais grossa era como azeite”, isto é, ficávamos assustados e depois da entrada na cama, permanecíamos debaixo dos cobertores a arfar de calor e de medo.
Mas, apesar disso, quase sempre ficávamos (eu, os meus irmãos chegados e os meus primos) fascinados por tantas histórias. Muitas delas ficaram marcadas nas nossas cabecitas até aos dias de hoje.

Para além do mais, apesar de não ser presença nesses serões, recordo-me sobretudo da minha bisavó materna, a qual habitualmente, enquanto a minha mãe trabalhava na lida do campo, tomava conta de mim e de meus dois irmãos mais chegados. Essa fase ocorreu entre os meus cinco a oito anitos. Depois, com essa idade, o pouco tempo que sobrava da escola era investido a ajudar os pais na casa e no campo, incluindo o tomar conta dos irmãos mais novos.
Essa minha bisavó tinha de facto o condão de contar. Histórias, contos, lendas, etc. Para além do mais era um repositório vivo de sabedoria dos velhos usos e costumes. No tecto da sua sala, secavam solenes molhos de diversas plantas medicinais e milagrosas, que colhia no jardim, no campo, no pinhal e até nas bermas dos caminhos, desde o hipericão, a murta, a salva, as malvas, a erva-de-S.Roberto, barbas-de-milho, cidreira, limonete (erva-luisa), e muitas outras. Para todas as maleitas a minha bisavó tinha remédio. Era uma espécie de ervanária do lugar.

Como se isso não bastasse, era muito procurada na aldeia para “talhar” (reza que supostamente curava) alguns males, como o tesourelho, ou tresorelho (papeira), as bexigas, o sarampo, a gipela, as aftas, o bichoco (borbulhas) e outras maleitas incluindo o “mau-olhado”.
Tantas vezes assisti (e fui alvo) dessas rezas, desses “talhamentos”, mas era demasiado pequeno para me interessar pela sua recolha. Foi pena, pois apesar de morrer com quase 96 anos, não durou para sempre a minha saudosa bisavó.

Apesar de tudo, alguém na família conseguiu preservar algumas rezas. Por exemplo, contra o “mau-olhado”, que tanto se aplicava a pessoas como a animais, sobretudo gado.
Colocava-se a mão direita, empunhando um terço benzido, contra a testa da pessoa ou do animal e rezava-se:
Esse ar que te deu, quem to daria,
Que não fosse por maldade,
Que não fosse por vingança?
Talha-to por  Deus e pela Virgem Maria,
Em quem porás toda a esp´rança,
E p´las Três Pessoas da Santíssima Trindade.
Assim como elas querem e podem,
Ao toque do nosso sino (da igreja da aldeia),
Pelo Seu Poder Divino,
De onde este mal veio depressa lá retorne.
- Reza-se uma Ave-Maria.
Repete-se sete vezes, intervalando com o Sinal da Cruz sobre a fronte do “talhado”.
Esta reza deve ser feita durante sete dias consecutivos, de preferência antes do toque das Ave-Marias, entoado pelo sino da igreja da aldeia.
Voltarei a estas memórias.

Comentários

  1. Seroes na Provincia...
    ou...
    As minhas ferias de Natal passadas na casa patriarca,em plena Serra da Estrela, e as estorias contadas pela avo, ha muito falecida, nas noites gelidas ao som do crepitar na lareira aconchegante...

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