Avançar para o conteúdo principal

Páscoa - Tradições, usos e costumes

 pascoa 01
Estamos já à porta da Páscoa, seguramente a maior celebração do calendário da liturgia da religião católica, embora o Natal, pela sua natureza e tradição, seja vivido de uma forma mais abrangente, talvez porque na primeira esteja envolvida a Paixão e morte de Cristo e na segunda, o Seu nascimento.

Na realidade, numa perspectiva humana, a vida sempre esteve impregnada de festividade e de alegria. Pelo contrário, a morte, é em si própria uma fatalidade da génese humana, sempre associada a momentos de dor, de luto, de perca e tristeza, do desprendimento final e forçado das coisas terrenas. É certo que há culturas que encaram a morte de uma forma mais natural, em algumas situações até com alegria, mas mesmo na religião católica, onde se crê que a morte é apenas uma passagem para uma outra dimensão, espiritual, essa foi sempre uma realidade muito pouco compreendida e cultivada, mesmo à luz da Ressurreição de Jesus Cristo. 
 
Seja como for, a Páscoa é uma celebração que comporta em si mesma dois estádios de vivência antagónicos: A morte e o triunfo da vida sobre a mesma pelo que nela prevalece sobretudo a alegria.

Tal como o Natal, a celebração da Páscoa está repleta de tradições, desde as religiosas até às pagãs, bem como a inseparável culinária e gastronomia a ela associadas.
Na parte religiosa, toda a quadra é iniciada no Domingo de Ramos, uma semana antes da Páscoa, relembrando a entrada triunfal de Jesus na cidade santa de Jerusalém, entre aclamações num ambiente de júbilo e louvor, num simbolismo contraditório do que iria suceder nos dias precedentes. 

Quantos dos que O aplaudiram triunfalmente às portas de Jerusalém, nesse Domingo, dias depois O incriminaram e gritaram para ser crucificado, julgando-O ao nível de um reles salteador e criminoso?
Na Quinta-Feira Santa, comemora-se a celebração da Última Ceia, de Cristo com os seus discípulos e toda a sua carga simbólica como instituição da Eucaristia. Depois a retirada para o Jardim das Oliveiras, o abandono dos discípulos na sua dolorosa vigília e a traição de Judas. De seguida o aprisionamento, o interrogatório, a negação de Pedro, o flagelo e a condenação de Jesus, culminando toda a carga dramática  com a Sua morte por crucificação, ladeado por salteadores também condenados, depois de percorrido todo o doloroso caminho do Calvário.

Para além da celebração e vivência de todas estas etapas, muitas terras têm fortes tradições associadas, como seja a reza da Via Sacra, quer nas igrejas quer percorrendo os percursos chamados de calvários, ainda presentes em muitas freguesias.

Na minha aldeia o Calvário é constituído por 17 cruzeiros em granito, dispersos na berma da estrada num percurso de cerca de 1500 metros, desde a igreja matriz até a uma capela localizada numa parte alta da freguesia. Estes 17 cruzeiros (14 estações mais as três cruzes, simbolizando Cristo ladeado pelos salteadores), neste quadra são envoltos com um pano roxo, cor associada à Paixão. 
 
Há terras onde estas faixas são colocadas, durante a Semana Santa, numa das janelas ou porta de cada casa,  sendo, depois da Ressurreição, já no Domingo de Páscoa, substituídas por cruzes floridas.
São, de facto, muito diversas as tradições por este nosso país fora, variando de terra para terra.
Já no dia de Páscoa, ainda sobrevive a tradição da Visita Pascal, também conhecida por compasso.
Na minha aldeia, noutros tempos era apenas um compasso (uma cruz) a percorrer todos os lugares, mas na actualidade, ajustada à sua dimensão, são três os compassos saídos durante todo o dia. Claro que noutras terras mais populosas os compassos são em maior número.

Ainda quanto à minha aldeia, as entradas de casa, junto ao portão da rua, são pavimentadas com alecrim, verdura e flores, como sinal de que se pretende receber a vista da Cruz, grinaldada, simbolizando Cristo Ressuscitado.

Finalmente, há a tradição do Juiz da Cruz, no nosso caso, eleito quatro anos antes, durante a Missa de Dia de Reis. Para além de outras incumbências e encargos, o Juiz é o portador da Cruz e no dia seguinte, segunda-feira, organiza o chamado Jantar do Juiz da Cruz, que por acaso até é almoço. Os convidados são apenas homens casados. Noutros tempos, este banquete era oferecido na própria casa do Juiz, contribuindo os convidados com géneros alimentares, como arroz, açúcar, ovos, galinhas, etç, mas nos tempos actuais, para comodismo de todos, esse serviço é feito num restaurante da zona e a contribuição para ajuda das despesas é feita em dinheiro.

Pelo meio, há a salientar todo o leque de doçaria caseira, desde a regueifa doce, até ao pão-de-ló, doces de coco, doce de amêndoa, biscoitos, etc. Não podem faltar as amêndoas revestidas a açúcar e, claro, o bom espumante português.
Na minha família subsiste ainda a tradição de, logo após a passagem do compasso, o que no caso sucede a meio da manhã, comer-se carne de porco caseira (orelheira e queixada), fumada e acompanhada de pão-de-ló e regada com espumante.

Recordo que, nos meus tempos de criança, os dias que antecediam a Páscoa eram dedicados quase exclusivamente à limpeza anual da casa e a cozinha transformava-se literalmente numa pastelaria, sendo, entre outras doçarias, confeccionada de modo artesanal a saborosa regueifa. Era uma delícia quando a mesma saía do forno a fumegar. Na minha tarefa de ajudante de minha mãe e minha tia, barrava com manteiga derretida as belas regueifas e polvilhava ligeiramente com açúcar granulado. 

Estas regueifas eram depois armazenadas em caixas de madeira, envoltas em brancos lençóis de linho, pelo que passado mais de um mês ainda se consumia regueifa com sabor a fresco.

A quem não desperta vivas memórias e nostalgias este tempo festivo da Páscoa?

pascoa 02

 pascoa 03

pascoa 04

pascoa 05

Comentários

Enviar um comentário

Os comentários estão sujeitos à prévia aprovação por parte do autor do blog.Comente em contexto e de forma respeitosa.

Mensagens Populares

Livrinho da Tabuada

Já aqui tinha falado da Tabuada , que tão diligentemente aprendíamos na escola primária. Pois bem, hoje dou a conhecer mais um dos livrinhos onde se aprendia a mesma Tabuada. Para além das tabuadas propriamente ditas (somar, diminuir, multiplicar e dividir), este livrinho incluía a numeração, números cardinais, numeração romana e ainda trazia noções sobre as diversas operações aritméticas, incluindo os números decimais, números fraccionários, noções de moeda, sistema métrico, medidas de comprimento, de capacidade, massa ou peso, superfície, agrárias, volumes e ainda equivalências.  Até mesmo medidas de lenha, como a Decaster, a Ester e Decister. Um pequeno grande livro onde estava toda a base de um bom aluno em aritmética. No meu tempo da escola primária, estas eram coisas que tinham que estar sempre na "ponta-da-língua". Será ainda assim actualmente?

Memórias revisitadas - Séries TV

Séries TV - Memórias por aqui publicadas: A abelha Maia AFamília Bellamy A família Boussardel - Les Boussardel A Flecha Negra - La Freccia Nera A hora de Alfred Hithcock A ilha da fantasia A Pedra Branca - Série TV A rapariga que sabia de mais Abbott and Costello Adeus Meus Quinze Anos – Série TV ALF – Uma coisa do outro mundo Allo! Allo! A Morgadinha dos Canaviais Ana e o Rei – Série TV Arthur and the Square Knights of the Round As aventuras de Flash Gordon As aventuras de Robin Hood As fábulas da floresta verde As Solteironas – Série TV As Trapalhadas de Robin dos Bosques – Série TV Automan – O Homem Automático Bana e Flapi Banacek Baretta Barbapapa – Uma família colorida e maleável Blackadder Bonanza Bozo, o palhaço mais famoso do mundo Calimero - É uma injustiça, não é? Candy Candy – Um vale de lágrimas Charlie's Angels - Os Anjos de Charlie Chefe, mas Pouco - Who´s the Boss Colditz Crime, disse ela...

Mapa administrativo de Portugal

Quem não se recorda dos antigos mapas de parede que existiam nas nossas escolas primárias, tanto o de Portugal como o dos arquipélagos da Madeira e Açores e ainda de todas as províncias ultramarinas, como Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Ango, Moçambique, Índia Portuguesa (Goa, Damão e Diu) e finalmente o longínquo Timor? Quanto de nós nessa altura não fomos chamados ao quadro para indicar cidades, capitais, províncias, rios, serras e caminhos de ferro? É certo que à conta de tanta disciplina e método, nessa altura aprendia-se mesmo, pelo que a História e Geografia tinham que estar na ponta da língua, ou seja, de cor-e-salteado, mas por vezes lá surgia a confusão: O rio Limpopo seria de Angola ou Moçambique? E o rio Cunene ? E o Kuanza ? Com esta santa nostalgia, hoje publico um desses mapas, o do Portugal Administrativo, retirado de um dos meus antigos livros escolares, com a indicação das províncias, as capitais de distrito, os rios, as serras e os caminhos d...