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Velhos caminhos

 

Ontem, Sábado, já ao declinar da longa tarde mas ainda com o sol teimoso na descida, fui dar uma caminhada por velhos lugares e sítios percorridos em criança. Nessa altura, eram um palco misto de brincadeira e trabalho. Nas canseiras das lides do campo, ajudando os pais, havia sempre tarefas a cumprir, desde o tempo da preparação das leiras para receber as sementeiras até às colheitas, já por meados de Outubro, passando pelas mondas e regas, não faltavam motivos de cuidados e mil canseiras. A plantação da batata, do milho, feijão, centeio, aveia, até às podas e vindimas, ou mesmo no cuidado e guarda de algumas cabeças de gado, era sempre um pão-nosso-de-cada-dia, trabalhado, suado mas abençoado. Mas é claro que havia também tempo e lugar às brincadeiras, vestidas de aventuras de índios e cow-boys, Robin dos Bosques, Tarzan ou Pequenos Vagabundos.

Passados todos estes anos, quase tudo mudou: Essas generosas leiras, de onde se arrancava parte da subsistência diária, estão agora transformadas em extensões de pinhais bravios onde apesar da beleza das amoras silvestres, que já começam a engordar e a pintar, os silvados são reis e senhores. Os carreiros, ainda vincados de outros tempos, são mais estreitos e submersos pela vegetação que cresce a seu belo prazer. Os regos sinuosos por onde passavam ligeiras as águas cantantes a caminho das regas, como veias caudalosas levando vida aos grossos e verdes milheirais, estão quase impraticáveis porque já ninguém os usa. As represas, esses regaços límpidos de águas de nascentes e minas, são uma pálida imagem de outros tempos e outras necessidades mas nelas ainda moram as rãs e sapos e à sombras da densa vegetação que as adornam, ainda namoram piscos, rouxinóis, pintassilgos, melros, gaios e pegas. Os moinhos, tocados pela força dessas abundantes águas, estão já em ruínas, sem telhados e esventrados na sua inutilidade e dá pena ver os rodízios podres pelo tempo, evocando outros dias e  noites em que incansáveis giravam afogados no infinito corropio da moagem dos consortes.

Mesmo assim, mesmo com toda esta dor de alma e de coração, faz-nos bem este regresso aos palcos da nossa meninice porque apesar desse entorpecimento e abandono das coisas e lugares, ainda é possível absorver muitas marcas de coisas imutáveis, como um velho muro, um velho carvalho, um aqueduto de água, a represa, o moinho, etç. Não é difícil adivinhar as mulheres a cantar pelos campos, alegres e distraídas; Ainda é possível sentir o cheiro morno da leiva da terra rasgada pela charrua puxada a bois nas frescas manhãs da Primavera na companhia das irrequietas alvéolas; Quase que sentimos o cheiro maduro das uvas e um mosto doce como banquete de abelhas e pássaros ou, mais cedo, uma aguarela de flores que hão-de brotar frutos.

Num desses sítios, um autêntico paraíso na terra, palco verde e fresco de uma sinfonia matinal de chilreios e de águas cantantes, estão já a decorrer obras de mais uma auto estrada, a A32 e tudo está já de pantanas e mesmo ao lado do velho moinho, onde tanta farinha vi nevar, mas agora em tristes ruínas, estão já a nascer pilares para um longo viaduto. É verdade que já não tem as frescas vides e sombras dos frondosos carvalhos e castanheiros como companhia, mas parace que vai descansar o resto dos dias á sombra do viaduto. Felizmente, mesmo à passagem do pogresso e dos caminhos de betão e asfalto, ainda há umas résteas de alguma sensibilidade e, sempre que se pode, preservam-se essas marcas de um tempo, de um povo e de um viver.

Já com o sol a brincar às escondidas por detrás dos pinhais do monte, volto costas e subo de regresso a casa, não muito longe, o que permite outros e constantes regressos, mas não deixo de pensar: – Meu Deus, o que te fizeram, vellhos sítios, o tempo e os homens!

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(clicar nas imagens para ampliar)

Comentários

  1. João Nunes joaolcn@sapo.pt19:39

    parabéns por saberes colocar tudo isto em palavras.
    sei perfeitamente o que estas palavras dizem e apesar de viver onde nasci tenho saudades desses velhos tempos, também sei que não se poderia viver do mesmo modo que se vivia nesses tempos, mas sinto-me impotente quando penso como,ou se, serei capas de transmitir esses doces tempos aos meus filhos

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  2. Já há alguns meses que acompanho este blogue, no entanto ainda não me tinha manifestado, talvez por inibição ou por achar que ainda não tinha chegado o momento certo ou, talvez, porque nunca concordei com o anonimato do autor num blogue desta natureza e qualidade.
    Mas hoje, perante este texto e a carga nostálgica que contém, com a qual me identifico totalmente, pois esses lugares do passado são também os meus, em locais diferentes mas semelhantes na vivência do passado e na saudade do presente, não posso deixar de lhe endereçar os meus parabéns pelo excelente trabalho.
    José Alexandre

    ResponderEliminar
  3. João Nunes e Joalex, obrigado pelas palavras e por se reverem nestes sentimentos e memórias nostálgicas. É um dos objectivos do blog, a partilha de coisas mas também de sentimentos e estados de alma, sobretudo os que nos acorrentam a esse belo tempo infanto-juvenil.

    Joalex, é verdade que por regra o autor do blogue não fala muito de si próprio e prefere partilhar simples e pequenos pedaços de memórias e nostalgias que certamente serão comuns a muito dos habituais visitantes e basta ver pela sondagem que por aqui decorre, que o grosso de quem passa por cá é malta que já tem muita escola de vida, como diz muito bem no seu blog.
    Aliás, passando pelo seu espaço e lendo a sua apresentação, posso dizer que temos muitas coisas em comum, até mesmo a passagem pela Marinha, embora em diferente tempo.
    Seja como for, quem segue com alguma atenção este espaço, e não serão tantos como os que desejaria, digamos que certamente já reuniram elementos para o retrato do autor, o que de resto é irrelevante.

    Voltem sempre!

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