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Casa, descasa

 

No último Domingo, como habitualmente, segui mais um episódio da série documental "Universo", transmitido pelo canal História, na grelha da ZON.
Não quero aqui abordar qualquer questão relacionada com os mistérios e belezas do universo, muito menos sobre pulsares e quasares - tema do episódio - mas sobre algo que retive num dos spots publicitários no intervalo (já agora, aqui está uma coisa que nunca compreendi, a existência de publicidade em canais pagos).
Apesar do espanhol, retive um trocadilho, que grosso modo fazia-nos ver que num passado mais ou menos recente um casamento era uma coisa que se procurava para a vida, enquanto que na actualidade o conceito é passar a vida a procurar o casamento. Creio que todos compreendemos isto e sobretudo a mudança.


Sem alinhar pelo exagero de ambas as situações, a verdade é que hoje em dia a segunda ideia é a que melhor retrata a situação.
Pessoalmente conheço alguém próximo que já vai no terceiro divórcio e no quarto casamento e tem filhos das três mulheres e a procissão ainda irá no adro. Convenhamos que, para todos os intervenientes não será uma situação que seja lá muito exemplar sob um ponto de vista da estabilidade, daí não surpreender que a pessoa em questão passe mais tempo em tribunal do que com os filhos.
Decorre ainda que, face à incapacidade e, já agora, irresponsabilidade, em manter os compromissos de paternidade determinados pelo tribunal, uma parte substancial desses encargos estão a ser suportados pelos pais deste profissional do divórcio.


Chegamos assim a um ponto da sociedade em que se preza e exalta a liberdade de cada um em decidir o seu destino em cada momento, e muito bem, pelo que não surpreende que os divórcios sejam cada vez em maior número, e consequentemente o tão novelístico casa-descasa, mesmo que as razões subjacentes na maior parte dos casos decorram de uma incapacidade de diálogo e de compreensão, a ponto de à mínima tempestade, ao ínfimo obstáculo da vida conjunta, o barco, já por si de débil construção, afundar-se inapelavelmente.


De um modo geral, respeitando as devidas diferenças, distâncias e excepções, a actual sociedade mostra-se prática e objectiva no uso dos seus direitos, liberdades e garantias. Somos neste campo uns artistas da bola, uns chicos-espertalhões; Mas no que toca ao outro lado da moeda, aquele em que se reflectem as responsabilidades e os deveres, aí a coisa já descarrila e descamba para o torto. Aliás, se há matriz que define a sociedade actual, de novo com as ressalvas da praxe, é precisamente a aversão ao cumprimento desta componente, a das responsabilidades e dos deveres, seja para com o Estado seja para com as pessoas. Aí já somos uns molengões, uns arrastados, uns deixa-andar, em que mesmo na pior das hipóteses não tememos sequer as multas, coimas, juros ou mesmo decisões de tribunal, no que decorre de um Estado sem sentido de rigor e justiça, até porque os maus exemplos chegam quase sempre de cima.

Depois, se por um crime de homicídio, bárbaro e premeditado, se pode apanhar apenas 10 ou 15 anos, e destes cumprindo-se metade da pena, pervalecendo para os demais crimes um sistema penal quase incentivador à criminalidade, pela ineficácia das medidas e da brandura das penas, porque é que alguém haveria de temer ser responsabilizado por coisas menores, como ter que cumprir as suas obrigações sociais, compromissos, manter os filhos, pagar dívidas aos bancos, empresas, particulares ou indemnizações?


É o que temos e não falta quem se congratule por isso, porque, acima de tudo, nada de beliscar as nossas liberdadezinhas custosamente conquistadas.

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