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Ontem fui à bola

 

Ontem fui ao futebol. Com uns amigos, como não podia deixar de ser.
Fomos a Aveiro assistir ao Beira-Mar - Benfica, a contar para mais uma jornada do Campeonato Nacional de Futebol da Primeira Divisão, que por acaso agora até tem um nome esquisito, tipo qualquer coisa como Super Liga Zon Sagres. Adiante, pois bem sabemos que estas coisas hoje em dia andam ao ritmo do dinheiro e a competição maior do nosso futebol terá sempre o nome de quem mais pagar, seja de canais de televisão, marcas de cerveja, de papel higiénico, pasta de dentes ou pastilhas para a azia, o que, diga-se, até viria a propósito pois muito do que vamos vendo no nosso futebol, no propriamente dito e no que à volta dele se diz ou faz, só nos desperta a vontade de ir à casa de banho, sujar a boca de asneirada e encher o estómago com  tanta acidez.


Seja como for, fui à bola, o que é raro. Todavia, não pude deixar de evocar as diferenças de uma ida ao futebol noutros tempos, quando em vez de roulotes a despachar cachorros, bifanas e coca-colas era  o bar do clube a fornecer de couratos e copos de tinto o apetite e sede da malta. Não havia seguranças nem stewards mas  meia-dúzia de ge-ene-erres a fazerem a companhia aos bandeirinhas como que a partilhar os mesmos impropérios e palavrões.

Não havia torniquetes nem revistas nem lugares marcados por portas, sectores e cadeiras. Não era necessário estar no estádio antes  duas horas e a malta chegava mesmo em cima da apitadela  inicial.

Nesses tempos os jogadores quase pagavam para jogar e tinham mesmo amor àquela camisola grossa e suada que vestiam e ao clube que representavam. Naquele tempo os jogadores eram mesmo homens; raçudos, de bigodaças e cabeleiras revoltas. Hoje têm todos caras de meninos, vaidosos, empertigados, no geral bem pagos e tratados como príncipes.
É claro que o futebol, há muito que mudou. Continua a despertar entusiasmo e a mover multidões, é certo, mas se calhar de forma mais irracional, ainda com paixão mas com menos amor; Ora bem sabemos que as paixões normalmente são cegas e mancas.

Por outro lado, não deixa de ser questão para reflectir como é que um clube sobrevive à paixão dos adeptos quando, veja-se o Benfica, dos 14 que jogaram no relvado de Aveiro apenas por lá andou um rapazito mesmo português, o Rúben Amorim, e isto porque o uruguaio do Maxi está a contas com uma lesão. Dá que pensar ou nem por isso, já que este mal de estrangeirismo é quase global? Pois é mesmo.

Por tudo isto, deixem-me que lhes diga, tenho verdadeira saudade da ida à bola à moda de outros tempos.

Outra coisita: Só mesmo o Benfica e a sua imensa massa adepta para tirar as teias de aranha das cadeiras deste elefante branco às cores do Estádio Municipal de Aveiro, como outros, edificado em plena bebedeira do Euro 2004.

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