11/22/2011

Reflexão – Caça às bruxas

 

Do editorial do jornal semanário “A Ordem”:

 

Portugal está mais pobre do que nunca. Cofre vazio, exaurido de contribuintes, esgotado de forças, sem agricultura, nem pescas que o alimentem, comprando mais do que vende, coberto de dívidas que não sabe quando, (porque não sabe como) pagar. Todos sabemos isto. Todos sabemos que os sacrifícios são inevitáveis e inadiáveis; que vamos todos ter que viver mais pobremente como vivem os cidadãos de países pobres como o nosso; que já não há quem nos empreste dinheiro para, sendo pobres, continuarmos a viver como se ricos fôramos. Repito: todos sabemos isto. E os que dizem que não sabem ou são de uma ignorância que rompe as fronteiras da estupidez ou... são mentirosos.

Nesta emergência, são precisas poupanças duras, cortes e mais cortes, contenções rápidas (e, por isso, nem sempre justas) e - principalmente – supressão de regalias injustificadas, benesses principescas, reformas sem contribuições que as legitimem - enfim, todo um fausto remuneratório que, entre outras coisas, nos levou à situação em que estamos.

Esta austeridade - nas regalias, nas benesses, nas reformas sem rectaguarda contributiva - é das que mais consensos reúne numa matéria e num país onde eles tão dificeis são. E do consenso, rapidamente, se está a passar a uma onda de entusiasmo justicialista que se apresenta como moralizadora da coisa pública quando não passa de moralismo, de puritanismo e, em muitos casos, de oportunismo populista. Em suma: nesta matéria, estamos a assistir, em Portugal, a uma verdadeira ‹‹caça às bruxas››. De que poucos se aperceberam ainda e de que as multidões gostam - sejam de esquerda, sejam de direita ou não sejam de coisa nenhuma. Na popularice todos se encontram.

Pela moral contra o moralismo, pela justiça contra o justicialismo, pela tolerância contra o puritanismo, enfim pela democracia contra o populismo, esta «caça às bruxas››, apesar do seu colorido medieval, deve ser denunciada sem rebuço nem receio - por muito politicamente incorrecto que isso seja. E é. Primeiro porque estamos a assistir a um verdadeiro clamor contra «reformas acumuladas››. Ora, à boa maneira escolástica, é logicamente imperativo e moralmente conveniente fazer aqui um ‹‹distinguo››.

É que há «reformas acumuladas» perfeitamente legais e LEGÍTIMAS e «reformas acumuladas» que, embora também sejam legais, são claramente ILEGÍTIMAS. É da mais elementar honestidade separar umas das outras.

Estão no primeiro caso as reformas que resultam de dois empregos que se acumularam (obviamente trabalhando mais) e na vigência dos quais se fizeram integralmente os respectivos descontos, durante os anos necessários. A pessoa trabalhou a dobrar, descontou a dobrar, é justo que tenha uma reforma a dobrar. E se não trabalhou exactamente a dobrar, é igualmente justo que receba na proporção do que trabalhou a mais e descontou a mais. E não se julgue que estes casos são raros (mesmo que o fossem a justiça que lhes assiste deve ser acautelada). Por serem muito frequentes é que vale a pena esta chamada de atenção..

Apenas dois exemplos: Iniciei a minha carreira profissional numa antiga escola industrial. Como era natural (dadas as matérias que aí predominavam) muitos professores eram engenheiros. Poucos eram os que se dedicavam exclusivamente à docência. A maior parte trabalhava ou no Estado (Ministério das Obras Públicas, C. P., Câmara Municipal etc.), ou em empresas privadas, mormente industriais. Ao fim de um dia de trabalho, davam ainda mais quatro ou cinco horas de aulas aos cursos nocturnos. Era um segundo emprego (obviamente de grande sacrifício), com um segundo ordenado sobre o qual faziam os respectivos descontos para a reforma.

É evidente que ganhavam o direito a duas reformas (ou a uma reforma unificada a partir da soma das duas - mas isto já é uma questão técnica).

Um caso parecido, mas, ao contrário do anterior, muito badalado na comunicação social é o do Presidente da República, Doutor Cavaco Silva. Foi, durante muitos anos, funcionário do Banco de Portugal. Ao mesmo tempo era professor da Universidade Nova de Lisboa. Claro que ganhava dois ordenados e sobre dois ordenados fazia descontos para a respectiva reforma. Também aqui é evidente que ganhou o direito a duas reformas - ele ou qualquer outro colega nas mesmas circunstâncias. São casos perfeitamente legais e legítimos. Ilegítima seria a lei que os obrigasse a fazer descontos para duas reformas e, no fim, só lhes pagasse uma. Mais do que ilegítima, seria uma lei injusta, iníqua mesmo, um verdadeiro latrocínio. Estes casos de reformas acumuladas (mesmo que o seu beneficiário queira continuar a trabalhar depois de reformado) não tem nada que Ver com as reformas e subvenções Vitalícias que se ganham ao fim de quatro ou cinco ou mesmo doze anos de descontos em funções políticas ou, pior ainda, em empresas públicas onde essas reformas são muito mais chorudas.

A imoralidade e a ilegitimidade (ainda que legal) está nestes casos em que os que descontam durante quatro anos recebem tanto de reforma quanto os que descontaram durante quarenta. Aí estamos perante um caso de assalto oficial à carteira do contribuinte. Mesmo no caso de reformas simples (haverá alguns casos, poucos, excepcionais e particulares que não vou agora abordar). Quanto mais no caso de reformas acumuladas!

O princípio geral deverá ser este: reformas sempre proporcionais aos descontos feitos; reformas completas só para quem tiver tempo de descontos completo. Nestes casos, o trabalhador-contribuinte terá direito a tantas reformas quantas as carreiras para que descontou. O mais que isto é imoral e devia ser ilegal.

Esta distinção é importante e urgente. A inveja que caracteriza o português _ nomeadamente o português preguiçoso que nunca quis trabalho suplementar ou duplo _ faz com que ande para aí uma pouco esclarecida onda persecutória às reformas acumuladas, que assume, pela raiva e pela obtusidade, os contornos e o colorido de «caça às bruxas››.

 

M. Moura-Pacheco - Professor Universitário Aposentado

11/15/2011

Já mexem os postais de Natal

 Estamos a meio deste mês de Novembro, o meu natalício, por isso ainda a cerca de mês e meio da grande data do mundo cristão que é o Natal, a 25 de Dezembro. No entanto, as grandes montras do consumismo, como a televisão, massacram-nos desde há algumas semanas, já com a data como motivo. Temos assim uma Popota, ainda gorducha, não a cantar canções suaves ao som de sininhos mas em ritmos alucinantes de lambada.

Esta já é uma velha discussão, a da antecipação do Natal, sempre na perspectiva consumista, desvanecendo-lhe o sentido, a cor e sabor tão característicos.
O certo é que a coisa tornou-se irreversível e já não há volta a dar. Esperemos pelo menos que esse pré-natal se fique pelos alvores de Novembro pois seria bem pior que recuasse para Outubro ou até Setembro.

Para além de tudo, para além da propaganda, que até se pode compreender, ainda temos que assistir às habituais guerrinhas publicitárias entre as principais marcas concorrentes nos diferentes sectores, tanto na distribuição, como nas comunicações, nas bebidas, etç, numa espécie de disputa do género "a minha pila é maior que a tua".
Neste particular, o sector das telecomunicações móveis é onde há mais estardalhaço, porque os consumidores, tão dados a estas coisas, ajudam a financiar essas batalhas.

Seja como for, já formatados por esta calendarização comercial, já é vulgar principiarmos os preparativos bem cedo, seja na compra dos presentes, cada vez mais difícil porque os tempos são de dura crise, seja em coisas mais simples mas porventura mas significativas, como é o caso dos postais de natal a enviar para as pessoas mais queridas, seja na forma clássica, em cartão e remetido em envelope pelo Correio, seja pela forma virtual pela Web.
Neste contexto, por esta altura, noutros anos temos editado e publicado os nossos proprios cartões. Assim, já o recomeçamos a fazer, publicando algumas simples produções próprias no sítio complementar, o "Santa Nostalgia Docs".

Aqui fica um dos exemplares que ali publicamos:

postais posta de natal sn_v2_1

- Clicar para ampliar.

11/14/2011

Estranhos tempos

 

 

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Vão estranhos os tempos e o tempo. Ainda ontem, na visita regular à casa paterna, aos domingos de manhã, vi que a velha ameixoeira estava toda florida, certamente enganada no seu calendário biológio por um Outubro estival. Claro está que dali não se espera fruto e aquela beleza efémera tem os dias contados e prazo marcado com o primeiro frio a sério.


Este quadro, anormal, diga-se, serve de reflexão para outras considerações ou pensamentos: Remete-nos para a realidade dos novos tempos, em que as pessoas florescem demasiado cedo, fora de estação , e passada a beleza efémera da floração, perante os primeiros rigores da vida, desfazem-se numa existência sem estrutura.


No global, somos uma sociedade de florzinhas, vistosas, perfumadas, atraindo a si toda a espécie de insectos, mas, terminado esse período do antes parecer do que ser, poucos são os frutos e destes ainda menos os saudáveis pois o grosso será sempre uma fruta bichada, doente, mesmo que com uma aparência exterior colorida e envernizada.

11/08/2011

Coisas da chuva

 

 

andar a chuva sn

Hoje, como habitualmente sempre que os trabalhos em part-time  o permitem, após o jantar fui fazer uma caminhada, cerca de 30, 40 minutos em passo apressado. Mas hoje acompanhou-me a chuva, a tal miudinha do tipo “molha-tolos”,  com algum vento à mistura. Ora como “quem anda à chuva molha-se”, é ditado velho e sempre actual, acabei por chegar a casa já um pouco molhado, sobretudo na zona das pernas.

Longe de isso ser um incómodo, num certo sentido até propicia um leve prazer pois afinal é o contacto com os elementos da natureza e, não sendo regra, sabe bem.

Esta simples ocorrência, contudo fez-me recordar tempos de criança em que chegado a casa da escola ou do trabalho do campo, molhado e a escorrer como um pintaínho, minha mãe mandava despir a um canto a roupa molhada e entregava-me um molho de roupa seca e aquecida ao lume para a muda. Meu Deus, como sabia bem aquele aconchego terno de roupa lavada e morna. Quase que apetecia apanhar uma molha todos os dias de Inverno.

Esta memória, não sendo fábula ou parábola, pode deixar-nos uma lição que é aquela que nos ensina que sabe bem qualquer recompensa depois de passarmos por algumas dificuldades e privações. Seria bom que, no que ao país económico toca, esta perspectiva se venha a concertizar daqui a alguns anos, mas, se calhar, a molha vai ser demasiado longa e daquelas que penetram até ao tutano dos ossos pelo que mesmo que daqui a uns tempos já possamos vestir uma roupa lavada e morninha, que é como quem diz, aspirar a uma vida menos apertada e com crescimento económico e social, já não sejamos capazes de sentir o aconchego da recompensa porque pelo caminho ficamos doentes e com reumático.

Coisas da chuva.

11/07/2011

Robinson Crusoé

 

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"Robinson Crusoé" é um livro por demais conhecido, de fama, leitura e tradução universais, de autoria de Daniel Defoe, que conta as aventuras de um náufrago inglês numa ilha perdida algures no Pacífico.
A figura e as aventuras de Robinson Crusoé têm sido motivo de diversas versões e adaptações, tanto em livro, como na banda desenhada, cinema e televisão.


Em Portugal, em 1966, a então jovem RTP passava a série juvenil de televisão "Robinson Crusoé", do original "The Adventures of Robinson Crusoé",  produzida em 1965, com um total de 13 episódios de cerca de 30 minutos cada, realizada por Jean Sacha e produzida pela Franco London Film.
Robinson foi interpretado por Robert Hoffmann, com narração de Lee Payant.

A série exerceu um fascínio nos espectadores infanto-juvenis de então e certamente aguçou o espírito da brincadeira e aventura, tão fértil nessas viçosas idades.

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11/04/2011

Agarre a sorte totobolando


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Novamente o Totobola nas nossas memórias. Desta vez um dos típicos cartazes, datado de Agosto de 1977, no arranque da 17º época do popular concurso de apostas da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Anteriores artigos:
Vamos jogar no Totobola
Totobola

11/01/2011

Plateia – Revista semanal de espectáculos

 

 

Hoje trago à memória a  “Plateia”, designada como a “Revista Semanal de Espectáculos”.

Foi lançada no ano de 1951, em 1 de Abril, então com Luis Miranda como director, a quem sucedeu Baptista Rosa.  Era propriedade da Aguiar & Dias de Mário de Aguiar e António Joaquim Dias.

Traduzia-se numa revista semanal (no início com periodicidade quinzenal), com um formato generoso, com muitas fotografias, a preto-branco, e diversos artigos relacionados com o mundo do espectáculo nacional e estangeiro. Na sua fase inicial tinha normalmente  32 páginas e mais tarde passou para as 70. Na época e durante muito tempo, era uma das janelas onde era permitido contemplar, subtraídas das suas roupinhas exteriores, as mais belas mulheres do mundo do entretenimento, da música, cinema e televisão. Eram frequentes as capas ou posters centrais (separatas) com estrelas de Hollywood.

A “Plateia” teve um percurso de grande sucesso, sobretudo nas primeiras duas décadas da sua publicação, mas terminou oficialmente em 1986, já com mais de um milhar de edições, certamente pelos problemas decorrentes das grandes alterações do mercado editorial do género. Desconheço em absoluto se depois dessa data a revista teve algum ressurgimento, mas não me recordo de a ver à tona do imenso mar de revistas cor-de-rosa da actualidade.

Embora semelhante em muitos aspectos na matriz editorial, a “Plateia”, mais elitista, até porque mais cara, fez um percurso de sucesso lado a lado com outra estrela da companhia, a revista “Crónica Feminina”, lançada uns anitos mais tarde (1956). Todavia, também esta acabou por morrer pelos anos 80.

 

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revista plateia nr 1

-A capa da edição Nº 1 – 1 de Abril de 1951

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- Um dos habituais posters centrais com belas mulheres do panorama do espectáculo português, e, sobretudo, estrangeiro.

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10/31/2011

Primeiros Passos – Leituras para a Primeira Classe

 

Hoje trago à memória um belo livro escolar que certamente ajudou na aprendizagem das primeiras letras a muitos dos portugueses que frequentaram a primeira classe da escola primária em meados dos anos 30, por isso, a alunos que hoje têm a bonita idade dos oitenta.

Trata-se do manual “Primeiros Passos – Leituras para a Primeira Classe”, adoptado oficialmente para o ano escolar de 1936-1937, de autoria de Joaquim Tomaz, Chagas Franco e Ricardo Rosa Y Alberty.

A edição que reproduzo é a 7ª, da Livraria Popular de Francisco Franco, da Rua Barros Queiroz – Lisboa.

Tem um formato de 155 x 200 mm e um total de 102 páginas, a maior parte delas com belas  e coloridas ilustrações de autoria de Alfredo Moraes, que de resto ilustrou muitos outros manuais escolares da época.

Este livro é o primeiro de uma série dos mesmos autores. Os outros “irmãos”: “Pouco a Pouco” – Livro de leitura para a 2ª classe, “Mais Adiante” – Livro de leitura para a 3ª classe e “Finalmente” – Livro de leitura para a 4ª classe. Deste conjunto falta na minha estante o exemplar relativo à 2ª classe. Com tempo, conto conseguir encontrá-lo e reunir a família.

 

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