7/15/2009

Água da fonte – Viagens pelos livros escolares - 14

 

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Actualmente, mesmo em muitas aldeias do interior, a água canalizada já chega com todo o comodismo às torneiras das casas. Mas nem sempre foi assim: Noutros tempos, o abastecimento público de água era um privilégio das cidades e vilas e nem todas. Por conseguinte, as fontes e poços tinham uma importância extrema no fornecimento de água às populações, tanto para consumo como para rega.


No tempo do Estado Novo, a construção de um lavadouro público, quase sempre ao lado de um fontenário, era uma obra deveras importante para as populações locais. Neste contexto, na minha aldeia, que até é pequena, existem pelo menos 6 desses equipamentos, quase todos construídos no início dos anos 60.
Com o tempo foram perdendo importância pelo que a utilização do lavadouro é já muito esporádica. As fontes continuam a funcionar, é certo, mas pouco aproveitadas, até porque a água que brota nalgumas delas estão consideradas impróprias para consumo. Dizem que estas análises oficiais têm uma estratégia  de obrigar as pessoas a solicitarem o abastecimento de água pela rede pública, que no caso já serve toda a freguesia. Será?


Actualmente, na minha freguesia e nas vizinhas, e isto deve ser uma tendência generalizada, é frequente as pessoas virem com uma carrada de garrafões abastecerem-se de água junto das fontes mais populares. É uma forma de pouparem no consumo da companhia mas também porque a água natural é de facto melhor.


Na casa de meus pais sempre existiu uma fonte de água permanente, entubada a partir de um monte próximo, percorrendo cerca de mil metros desde a mina de origem. Ainda hoje é dessa fonte que se abastece a casa.
Acresce dizer que essa água a partir da origem é distribuída em partes semelhantes por mais quatro proprietários ou consortes, como se diz por aqui. A divisão é realizada numa caixa central.


Por conseguinte, em criança nunca tive muito trabalho a água mas a minha mãe narra-me histórias em que ela, quando criança, tinha como uma das tarefas deslocar-se a uma fonte distante, várias vezes ao dia, transportando água num caneco de madeira. Tempos difíceis.

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Apesar, de como se disse no início do texto, a água canalizada já chegar a muitas aldeias, mesmo interiores, também é verdade que em muitas outras, o acesso e utilização da água é igual ao de outros tempos, com recurso a fontes e a nascentes, sendo necessário o transporte quase diário.


Os povos antigos tinham uma notável capacidade de aproveitamento da água. Na minha aldeia existem inúmeras represas (presas como por aqui se diz), minas, charcos e poços, para além das fontes naturais. Era notável o sistema de transporte por gravidade, usando-se os canais chamados regos, que em muitos casos percorrem enormes distâncias, desde a origem até aos campos.

O uso dessas águas e desses sistemas, era quase sempre comunitário ou de grupos de consortes. Nalgumas zonas existem mesmo associações de utilizadores de água para o uso de regas. Nesses antigos sistemas, a sua manutenção competia a todos, normalmente uma vez por ano antes do Verão, previamente ao tempo das regas. A distribuição obedecia a “giros” transmitidos de geração em geração e muitas vezes eram anotados nas escrituras testamentárias. Uns tinham água de manhã, outros só de tarde, outros todo o dia, uns apenas uma vez por semana ou de quinze-em-quinze dias e outros várias vezes por semana, etc.

Estes giros e estas distribuições nem sempre estavam relacionadas com a quantidade e área das propriedades mas principalmente com a importância dos proprietários na origem. Ou seja, se um rico proprietário investiu mais dinheiro na obra, naturalmente o usufruto ficou determinado pela importância dessa participação. Os proprietários com fracos recursos, resignavam-se a uma pequena parte no uso do sistema e da partilha da água, quase as sobras.

Tudo isto teve os seus dias, nos tempos dos nossos avós e dos pais destes. Na actualidade, por questões práticas e de funcionalidade, os novos proprietários modernizaram-se, realizando poços e furos equipados com bombas eléctricas, abastecendo modernos sistemas de rega,  pelo que o sistema antigo já quase desapareceu. Subsistem alguns poucos exemplos, em aldeias do interior ainda com forte predominância agrícola, mas até esses têm os dias contados. Quando muito, podem ser conservados como exemplos de património rural que algumas autarquias começam a valorizar como componente turística.


Também no vale da ribeira que atravessa a minha aldeia, existe todo um sistema de levadas e regos que possibilitava a rega  a quase todos os campos localizados nas margens. Hoje também quase não são utilizados.


Muito mais há a dizer sobre a água e sua importância económica, social e cultural, de modo especial nas aldeias, no contexto de consumo doméstico e da agricultura.


Prometemos voltar a este assunto.

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7/14/2009

As Casas do Povo

 

As casas do Povo, desde a sua criação no início dos anos 30, foram cumprindo a missão e os objectivos inerentes à sua actividade, nomeadamente a cooperação social e melhoria das condições sociais, principalmente vocacionadas para as classes baixas, profundamente ligadas a actividades de subsistência como a agricultura. Outros objectivos eram marcadamente doutrinários como alguns aspectos ligados à defesa das terras e valores morais ligados ao espírito do mundo rural, que sempre foram uma marca do Estado Novo.


Com o 25 de Abril de 1974, registaram-se profundas mudanças mas no essencial mantiveram-se os pressupostos de cooperação social.
Actualmente, com as consecutivas alterações legais e com a Segurança Social implementada e generalizada, as Casas do Povo perderam muita da sua importância mas mesmo assim continuam a ser entidades que nalgumas terras desenvolvem notáveis actividades nas áreas social, cultural e desportiva. Ainda hoje, ao fim-de-semana, costumo praticar futebol de salão num pavilhão gimnodesportivo pertencente a uma Casa do Povo.


Na minha aldeia recordo-me de muitas pessoas que trabalhavam na terra fazerem os descontos mensais para a casa do Povo. Hoje usufruem de pensões de reforma com base nessas contribuições. Também tinham alguma assistência médica, nomeadamente ao nível de consultas de clínica geral.

Nas imagens abaixo, extraídas de um livro escolar de educação de adultos, sensivelmente da época do arranque desses organismos, percebe-se muito bem as ideias chave subjacentes à instituição das Casas do Povo.

 

(entretanto, saiba a história das Casas do Povo, num excelente artigo de Amorim da Cruz Carvalho)

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7/13/2009

Jorge Jesus, o futebolista

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Depois de toda a novela à volta da contratação ao S.C. Braga do treinador Jorge Jesus, pelo Benfica, afinal mais uma de muitas do futebol português, Jorge Jesus, o designado "mestre da táctica" já está a trabalhar ao serviço do Glorioso.
Esta carismática figura do futebol português tem-se distinguido como treinador de um já vasto leque de equipas. Jorge Jesus, teve, no entanto, uma relativa larga carreira e experiência como jogador de futebol, no lugar de médio, predominantemente na posição direita. Curiosamente, num dos cromos abaixo representados ao serviço do Riopele, é indicado como avançado. Quem o viu nos relvados, diz ter sido um jogador como centenas de outros, mediano quanto baste, mas a ter em conta alguns dos clubes por onde passou, nomeadamente o Sporting, o Belenenses, o Vitória de Setúbal e U. de Leiria, deduz-se que não terá sido assim tão vulgar, correspondendo a outras apreciações que o consideravam um jogador discreto, é certo, mas com boa qualidade técnica.


Jesus teve a sua formação no Sporting e depois, já como sénior, na época 73/74, foi cedido ao Peniche, a militar então na 2ª Divisão Nacional, e na época seguinte, 74/75, foi emprestado ao Olhanense (agora de regresso ao escalão maior do futebol lusitano). Regressa a Alvalade na época seguinte, não se conseguindo impor ( realizou 12 jogos, dos quais apenas 1 como titular), pelo que de seguida foi dispensado, rumando ao vizinho Belenenses, onde jogou em 76/77. O clube do Restelo tinha nessa altura um excelente plantel pelo que Jesus também não conseguiu singrar; Seguiu-se uma passagem pelo carismático clube fabril, o  Riopele, acabado de subir ao escalão principal, onde esteve na época 77/78. O Riopele não se aguentou e desceu à 2ª Divisão e na época seguinte Jesus acabou por ir para o Alentejo ao serviço da Juventude de Évora, na 2ª Divisão. Na época posterior, em 79/80 já estava na cidade do Lis ao serviço da U. de Leiria (que subiu de divisão nessa época) e em 80/81 fazia parte do plantel do V. de Setúbal, onde se manteve por 3 épocas, situação inédita, contrariando as anteriores e curtas ligações de apenas uma época. Seguiu-se um regresso ao Algarve, concretamente ao S.C. Farense que serviu na época 83/84.

Já numa fase descendente da sua carreira, como é normal no futebol, alinhou ainda ao serviço do clube da Tapadinha, o Atlético Clube de Portugal, na época 84/85.
Finda a época, um novo salto para Jesus que entrou ao serviço do Estrela da Amadora (clube da sua terra, então na 2ª Divisão),  e por ali se aguentou durante duas épocas. Segue-se uma passagem pelo Benfica de Castelo Branco (então na 3ª Divisão Nacional) e põe fim à carreira na época posterior ao serviço do Almancilense, novamente no Algarve.

A sua paixão pelo futebol não termina com o pendurar das chuteiras, enveredando de seguida pela carreira de treinador, cujo percurso é iniciado ao serviço do Amora F.C., seguindo-se o Felgueiras, Estrela da Amadora, Vitória de Setúbal, Vitória de Guimarães, Moreirense, U. Leiria, Belenenses, Braga e, actualmente, Benfica).

Não deixa de ser curiosa a sua ligação como treinador a alguns clubes onde foi jogador, como o Estrela da Amadora, Vitória de Setúbal, U. de Leiria e Belenenses. Quem se seguirá?

Para ilustrar parte dessa carreira como futebolista, ficam aqui alguns cromos soltos dedicados ao Jesus, hoje uma incontornável figura do nosso futebol.

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jorge jesus farense santa nostalgia

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7/09/2009

José Galvão – Comentador de peso

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Nos anos 70 e creio que ainda pelos 80s, recordo-me de José Galvão, um carismático apresentador/comentador da RTP em eventos desportivos ligados ao atletismo.

José Galvão tinha sido atleta do S.L. Benfica, especialista na modalidade de lançamento de peso. 
Recordo-o, sobretudo, pelo seu porte atlético, encorpado, pelo seu ar de bonacheirão, careca e de óculos de aros grossos, figura típica do bom-gigante.

Recordo-o desde os Jogos Olímpicos de Montreal - Canadá, em 1976, na tal edição em que o nosso Carlos Lopes perdeu a medalha na prova dos 10.000 metros para o finlandês-voador, Lass Viren ( que de resto havia vencido as provas dos 5 e 10 mil metros na edição de 1972, em Munique - Alemanha, repetindo a dose em 1976).

Infelizmente, as informações na Web sobre o José Galvão são quase inexistentes pelo que à falta de alguns dados biográficos e da sua carreira desportiva, fico-me por esta memória e por este cromo retirado da caderneta "Ases do Desporto", uma edição da Palirex.

É certo que o José Galvão por vezes metia-se em especialidades que nitidamente não dominava, mas o seu estilo irradiava simpatia pelo que tudo se lhe perdoava. Pelo contrário, hoje em dia, quem acompanha na televisão os comentários de eventos desportivos, nomeadamente na cobertura de jogos de futebol, são frequentes as “araras” que botam faladura a torto e a direito e por vezes as calinadas, agora chamadas “gafes” sucedem-se a um bom ritmo ”. Quando não, é debitar conversa de “encher chouriços”.

7/08/2009

Vestuário - roupas dos anos 60 - 11

 Agora que já estamos em pleno Verão, onde as idas à praia tornam-se deveras apetecíveis, sabe bem recordar algum vestuário de criança dos anos 60, adequado a este tempo estival.

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7/06/2009

Gervásio – O Senhor Académica

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O ex-vice-presidente e ex-jogador da Académica, Vasco Gervásio, faleceu sexta-feira aos 65 anos de idade, devido a doença prolongada.
Vasco Gervásio fez 430 jogos pela "Briosa", sendo um dos jogadores com mais jogos disputados pela "Briosa".
Para além de ter estado nas duas finais das Taças de Portugal, em 1967 e 1969, foi vice-presidente durante a presidência de João Moreno e presidente-adjunto da anterior direcção academista, liderada também pelo actual presidente José Eduardo Simões.
 
fonte: RTP

Vasco Gervásio era natural da Malveira, onde nasceu a 05 de Dezembro de 1943. Foi médio e capitão da Académica nos anos 60 e 70, tendo disputado 430 jogos ao serviço da “Briosa”, sendo um dos jogadores com mais jogos pelos “estudantes”. Foi 284 vezes capitão da equipa, suplantando a marca de Mário Wilson, que capitaneou 207 vezes.
Estreou-se a 30 de Setembro de 1962, num jogo com o Académico de Viseu e terminou a carreira a 17 de Junho de 1979 (com 35 anos), contra o Vitória de Guimarães, quando João Moreno era, na altura, presidente academista. Disputou, em 1967, a final da Taça de Portugal, com uma derrota da “Briosa” por 3-2 com o Vitória de Setúbal, após três prolongamentos, e, a final de 1969, derrota por 2-1 com o Benfica, também após prolongamento. Nesta temporada de 1968/69, a Académica alcançou o segundo lugar no campeonato nacional.
Ultimamente, foi vice-presidente da Académica entre 2002 e 2008, primeiro na era de João Moreno como presidente, e, a partir de 2003, com José Eduardo Simões como timoneiro.
O corpo vai estar hoje em câmara ardente a partir das 16h, no Pavilhão Jorge Anjinho. Domingo será realizada, pela manhã, uma missa de corpo presente. Após a cerimónia religiosa, o corpo seguirá para a Figueira da Foz, onde será cremado, segundo vontade expressa por Vasco Gervásio.

fonte: Jornal Público

Soube da notícia no próprio dia e desde logo fiquei com a obrigação de publicar um simples artigo de memória e homenagem ao Gervásio. Por imperativos de tempo, acabei por o não fazer no próprio dia mas, como mais vale tarde do que nunca, faço-o agora.
Para mim, o Gervásio é o Senhor Académica, pela sua qualidade de homem e de futebolista, pelo seu exemplo e postura e pela sua dedicação de corpo e alma à briosa. É claro que nunca o conheci pessoalmente nem com ele privei, mas todos esses atributos sempre foram unanimemente reconhecidos por todos, do futebol e não só, não apenas agora na hora do seu prematuro desaparecimento, como é habitual, mas durante todo o seu percurso. Conheço-o sobretudo pelos jogos e contexto do futebol bem como pelo facto de ser presença frequente nas minhas colecções de cromos de futebol dos anos 70. Gervásio é daqueles futebolistas que não deve ser omitido sempre que se traga à memória um bom leque de futebolistas que marcaram essa década, podendo e devendo ser recordado ao lado de outras figuras ímpares como Eusébio, Manuel Fernandes, Fernando Gomes, Chalana, Nené, Humberto Coelho, Jordão, Oliveira, Octávio, Jacinto João, Artur e muitos outros, incluindo alguns dos seus colegas, como Rui Rodrigues, Artur Jorge, Gregório Freixo, Camegim, Costa, José Freixo, etc, etc.
Como forma de homenagem, e sendo também uma das minhas paixões, publico aqui alguns dos muitos cromos que retrataram o Gervásio em inúmeras colecções dos anos 60 e 70, sempre equipado com as cores da sua Académica, quase sempre de negro mas, esporadicamente, de branco.
Que descanse em paz, Senhor Académica!

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7/03/2009

Os bois teimosos – Viagens pelos livros escolares - 13

 

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(clicar nas imagens para ampliar)

 

Esta história do Manel Jeirinhas e os seus bois teimosos, como muitas outras que fazem parte do meu livro de leitura da terceira classe, remete-me frequentemente para os meus tempos de criança e para algumas situações então vividas.


Os meus avõs paternos eram grandes lavradores da aldeia e por conseguinte o meu pai, mesmo depois de casar, seguiu no início a vida da agricultura, ou da lavoura como se dizia, dedicando-se a amanhar uma meia-dúzia de ribeiras e alguns pinhais, que lhe couberam em herança, tirando daí o parco sustento para a família. É claro que a lavoura nunca enriqueceu ninguém, tanto mais nessa época sem subsídios nem apoios estatais, pelo que quando os filhos começaram a aparecer e a crescer teve que arranjar um emprego fixo numa oficina, onde mesmo assim obtinha um magro salário, ficando a lavoura a cargo de minha mãe. No entanto, toda a família ajudava em todos os momentos que podia, quer nos tempos livres da escola quer aos sábados, um dia que se dedicava totalmente aos trabalhos nos campos.


Nessa vida muito ligada à lavoura, para além de algumas vacas leiteiras, o meu pai possuía uma junta de bois, daqueles amarelos, de raça arouquesa. Neste sentido, muitas vezes, eu, com 10 anitos e o meu irmão chegado, com 12 anos, frequentemente ía-mos levar os bois a pastar nuns pinhais da família. Enquanto os bois pastavam livremente, nós brincávamos. Quando chegava a hora de voltar a casa, porque o sino da igreja repicara o toque de meio-dia, aplicávamos uma valente varada no lombo dos bois e estes, de forma desenfreada, corriam até a casa. Quando lá chegávamos, uns largos minutos depois, os bois já estavam no curral, ou no aido como era vulgar dizer-se. Estes bois eram de facto trabalhadores, inteligentes e nada teimosos, como os do Manuel Jeirinhas. É claro, que muitas e muitas vezes cheguei a fazer o papel do Jeirinhas, conduzindo os nossos bois desde desde as ribeiras e várzeas até a casa, carreando por caminhos difíceis o pasto, milho, feijão, batatas, uvas, lenha, tojo, etc, afinal de contas os produtos que eram a razão de ser do dia-a-dia de uma família ligada à lavoura. Foram tempos de canseiras e trabalhos mas que dava tudo para voltar a reviver.


Hoje em dia, seria impensável enviar duas crianças para um pinhal afastado com a responsabilidade de cuidar de uma junta de bois. Mas nós gostávamos e o trabalho era sempre aliado à brincadeira. Éramos assim uma espécie de crianças-homens. Hoje, à custa de tanta mudança, à custa de tanta protecção, à custa de tanta dependência,  predominam os homens-criança e assim há-de continuar.

Estando agora de férias da escola, olho para o meu filho de 11 anitos, acomodado no sofá, com o portátil em cima das pernas ou a consola de jogos nas mãos, entretido horas e horas a fio com os jogos e os filmes. Imagino-me, então, com aquela idade a conduzir pela soga uma junta de enormes bois, por caminhos e quelhos à procura de viçoso pasto dos pinhais e cômoros. Meu Deus, como as coisas mudaram…


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. As coisas são como são. É a marcha imparável do Tempo.

 

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- Vaca de raça arouquesa, fotografada num destes dias na Serra da Freita - (clicar na imagem para ampliar)

 

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