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9/10/2009

Tempo de vindimas

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Este delicioso texto referente às vindimas, bem como a magnífica ilustração, faz parte do inesquecível livro de leitura da terceira classe do meu tempo.
De facto, quem já teve oportunidade de viver e trabalhar nas vindimas, de norte a sul do país, sabe que assim é.

Hoje em dia as vindimas e a decorrente produção do vinho, têm uma forte componente de trabalho mecanizado, tanto na apanha da uva como no transporte, como em todo o restante processo, desde o esmagamento até à sua passagem para o armazenamento. Por conseguinte, a mão-de-obra humana e animal é cada vez menos preponderante.

Noutros tempos, porém, todo o processo era fundamentalmente manual pelo que o envolvimento de bandos de homens e mulheres resultava sempre em jornadas de alegria, tanto na apanha como na tradicional pisa.

Na minha aldeia produzia-se vinho verde, mas na variedade chamada "americano" ou "morangueiro". Outrora muito apreciado em tascas e tabernas, mesmo da zona do Porto e Gaia, mas, fora alguns nichos de mercado, era um vinho comercialmente pobre, pelo que era produzido principalmente para clientes mais ou menos locais e também para consumo do dia-a-dia. O tinto era agradável mas de baixo teor alcoólico pelo que não permitia engarrafamento longo. Já o branco, mais forte, permitia um engarrafamento mais longo, mas sempre arriscado. Para o fortalecimento do vinho, era habitual a sua mistura com uvas de castas características do vinho verde, bem mais encorpado.

Fora esta característica, todo o processo que englobava a vinha e a vindima, era em tudo semelhante às grandes regiões vinícolas, como o Alto Douro, Dão ou Alentejo ou até com a região do Vinho Verde, no Minho, tendo aqui muitas semelhanças.

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Ao contrário dos vinhos maduros, caracterizados por cepas ou vides de espécie baixa, o vinho verde, principalmente americano, era cultivado em altas latadas com estrutura de vigas de ferro e arame assente em esteios de granito ou mesmo em ramadas verticais. Contrariamente às vinhas tradicionais, estendidas por todo o terreno, o vinho verde na minha região era cultivado principalmente nas bordas e cômoros dos campos, sendo reservado o miolo a culturas de subsistências como o milho, batata, feijão e centeio. Por conseguinte, o cultivo e produção de vinho na minha aldeia, salvo raros exemplos, era uma actividade complementar de pequeno lavrador, proprietário ou caseiro (arrendatário).

As videiras cultivadas nas bordas dos campos, frequentemente eram estendidas pelas árvores, vulgarmente choupos, pelo que na hora de vindimar era necessário um escadote muito alto e exigia muita ginástica e, naturalmente, envolvia algum risco.

Em todo este contexto, os meus pais cultivavam bastante vinha, pelo que nesta altura do ano a vindima e preparação do vinho era um trabalho de canseiras, sacrifícios, de manhã bem cedo até altas horas da noite, mas sempre com alegria.

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- Característica latada de vinho "americano" da minha região

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- Ramada vertical com desenvolvimento através das árvores

Primeiramente a vindima propriamente dita, era realizada com as pessoas distribuídas ao longo das latadas e ramadas, com uma equipa apanhando as uvas mais baixas e outra equipa, munida de escadas e escadotes, apanhando nas partes altas. Usava-se uns cestos de verga ou vime, a que chamámos canistréis e depois de cheios eram vazados em jigas, também de verga, ou então, mais no tarde, em sacos plásticos, aproveitados das embalagens de adubos ou rações para o gado. Depois deste processo, porque os campos eram mais ou menos distantes dos povoados, era necessário fazer o transporte, quase sempre em carro de bois (o meu pai teve uma junta de bois amarelos durante vários anos) mas muitas vezes transportava-se as jigas à cabeça ou os sacos às costas. Trabalho muito duro, porque tinha que ser repetido várias vezes, por caminhos francos e quase sempre a subir, porque os campos, as leiras, as ribeiras e as várzeas, localizavam-se quase sempre nas zonas baixas da aldeia.

À noite, já com o lagar cheio, eu, o meu pai e os meus irmãos, despojados das calças, apenas em cuecas, saltávamos para o lagar para a pisa das uvas, tarefa que normalmente durava duas a quatro horas. O vinho tinto, exigia mais tempo. Com o avançar dos anos adquirimos uma esmagadeira manual, com um sistema de rodas dentadas accionadas por uma manivela e assim realizava-se um pré-esmagamento, pelo que a tarefa da pisa era facilitada.

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No final, depois de lavadas as pernas, estas eram esfregadas com álcool ou aguardente. Mas era certo que nos dias seguintes, a comichão nas pernas era desesperante.
De seguida, depois de fermentada a mistura, procedia-se ao vazamento do vinho para pipos de madeira de castanho ou carvalho. A parte sobrante, chamada bagaço, era transportada para a prensa, normalmente localizada ao lado do lagar. No caso dos meus pais, como a prensa era muito antiga e exigia muito esforço, pois era com um sistema de braço horizontal, com duas pontas, girando em torno de um eixo vertical roscado, o bagaço era transportado em carrinho de mão para a prensa do meu avõ, que já estava dotada com um mecanismo de cunhas ou linguetas, pelo que o movimento da alavanca era de vai-e-vem, exigindo menos esforço. Actualmente as prensas são quase todas hidráulicas, assegurando um trabalho eficaz quase sem esforço.

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- Uva "americana" tinto

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- Uva "americana" branco

A partir do bagaço era aproveitado muito vinho que era colocado nos pipos a decantar. O último vinho aproveitado, era designado de água-pé e que era servido no final das esfolhadas de milho ou nos magustos de S.Martinho.
Convém referir, que no processo de prensagem, o bagaço era revolvido várias vezes, para um aproveitamento máximo.
Quando o bagaço já estava quase seco, era arrancado às postas da presa e esfarelado em jigas, seguindo de seguida para os alambiques da região, para produzirem a famosa aguardente de bagaço americano. Esta aguardente é das mais apreciadas nas tascas da região. Recordo-me de ir várias vezes com o meu pai transportar o bagaço em carro de bois ao alambique da aldeia vizinha. A aguardente produzida, era guardada em garrafões de cinco litros, de vidro, empalhados, por sua vez acondicionados vários anos na fria e escura adega ou casa-do-vinho, como era designada na minha região. Para consumo da casa, vazava-se em garrafas de um litro.

A aguardente, para além do tradicional "mata-bicho", tanto em jejum como depois das refeições, tinha utilidade em diversas situações: Servia para esfregar o rosto depois de barbeado, para bochechar a boca quando doía os dentes, para temperos, especialmente de cabrito e coelho e servia também para vários remédios a aplicar no gado.
O bagaço, depois de extraída a aguardente, servia para estrumar os campos.
Depois de concluído todo este processo, lá mais para o final do ano, o ciclo do cultivo recomeçava com a época das podas e manutenção das latadas e ramadas. Mais tarde o tratamento com sulfato e monda dos rebentos chamados de "ladrões". Depois, pelo S. Tiago, quando já pinta o bago, já se adivinha nova vindima, lá para o final do Verão. É este o ciclo da vinha, da vindima e do vinho.

As vindimas, ainda hoje são transmitidas como uma imagem bucólica e alegre, mas na realidade, no meu tempo de criança, englobava tarefas muito duras e exigentes. Era um processo de várias etapas, todas elas comportando muito esforço. Mas, é claro, não havia trabalho do campo que não estivesse imbuído de uma sã alegria. Essa alegria era manifestada essencialmente no dia-a-dia quando de forma gratificante se usufruía desses esforços e canseiras, nomeadamente às refeições e em dias festivos. O vinho sempre omnipresente. Em cada trago valorizava-se o esforço antes despendido para o produzir a trazer até ali, à caneca, ao alcance do copo e da boca.

7/19/2009

Produtos de higiene para bébé - Johnsons

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Num dos últimos artigos, falava aqui dos produtos de higiene de bébé da marca Ralay Baby. Hoje trago à memória um cartaz publicitário de outra marca, provavelmente uma das mais conhecidas neste sector de produtos, exactamente a Johnson´s.
Esta marca e os seus produtos são por demais conhecidos a nível mundial, fazendo parte do dia-a-dia da higiene diária dos bebés e não só.

O cartaz é de 1975 e refere-se às virtudes do óle de bebé Johnsons, apontado como o ideal para a protecção da pele delicada do bébé, tanto perante os rigores do tempo de Inverno, como o vento e o frio, como do Verão, com o calor e transpiração. Por conseguinte, creio que quase todos os portugueses tiveram nos seus primeiros meses de vida o seu rabinho e o corpo em geral hidratado com o óleo Johnsons. Já agora, não esquecer o pó-talco indispensável nas zonas íntimas.

Veja a história da Johnson&Johnson, neste excelente artigo.

3/20/2009

As quatro estações do ano - Primavera, Verão, Outono e Inverno


É já amanhã que principia a Primavera, uma das quatro estações do nosso clima. É uma das mais belas épocas do ano, principalmente com o maravilhoso tempo que temos tido, realçando as cores das árvores que florescem e as folhas que reverdescem.
No meu pomar, estão em flor as cerejeiras, as pereiras e algumas ameixoeiras, em tons de branco e ainda os pessegueiros em tons de rosa, para além das folhas que começam a cobrir outras árovores que se despem no Outono e Inverno, como a nogueira, o diospireiro e as figueiras. No meu jardim, a relva ganha nova cor e vigor. Aliás o ditado diz que "...em Março a erva cresce nem que lhe dês com um maço.".
É certo que hoje em dia as características das nossas quatro estações não estão tão marcadas como há quarenta ou cinquenta anos para atrás, devido, dizem, às alterações climáticas e ao aquecimento global. É um facto, pois tanto temos um Verão chuvoso e frio como um Inverno ameno e uma Primavera quente. Anda tudo desgovernado. Não tarde que as estações estejam descaracterizadas a ponto de fazer sentido apenas duas, como noutras regiões do planeta.
Serve este intróito para falar do fascínio que sempre tive para com as imagens ou fotografias que nos antigos livros da escola ilustravam as quatro diferentes estações, representando um mesmo quadro, como acontece na sequência de imagens abaixo, que se podem ampliar clicando nas mesmas. A diferenciação ocorre principalmente ao nível das árvores, os elementos que de facto mais se transformam ao longo das diferentes épocas.

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2/22/2009

Cera líquida Dabri - Para móveis e soalhos


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A cera líquida Dabri, a tal que dá para móveis, soalhos e mosaicos, etc, traz-me à memória os dias em que a minha mãe tratava da manutenção do soalho da casa, habitualmente em vésperas da festa da aldeia ou da Páscoa.
O processo começava com a preparação de uma calda, composta por uns pós amarelos que se vendiam na drogaria e que se misturavam num balde com água. Depois o líquido era aplicado com um pincel de trolha. Depois de seca a pintura, que era mais um tingimento, então era aplicada a cera, em pomada, também amarela, que se vendia numas embalagens plásticas, cilíndricas mas coladas termicamente nas extremidades. Essa cera era aplicada com um pano e depois, com um outro pano, macio e seco, era puxado o lustro, ou seja, o brilho. Resumindo, era uma tarefa árdua, porque obrigava a minha mãe, ou quem a fizesse, a estar de joelhos. Por isso esta aplicação ocorria uma a duas vezes ao ano. Não mais.
É claro, que com os soalhos tão macios e brilhantes, nos dias imediatos, o corredor, que era mais comprido, transformava-se numa espécie de pista de ski ou de patinagem artística. Para isso usava-se um tapete que deslizava muito bem sobre o soalho. Por conseguinte, não é de admirar saber-se que pelo meio havia várias quedas. Mas, como já dizia a cantiga, "à criança e ao borracho, põe Deus a mão por baixo", felizmente, para além de umas ligeiras pisaduras, essas brincadeiras nunca corrreram muito mal.
Com o decorrer do tempo, os soalhos rústicos em madeira de pinho, pela sua manutenção, foram sendo substituídos pelas alcatifas e tijoleira cerâmica. Actualmente, a aplicação de madeiras nos pavimentos está outra vez na moda, tanto com soalho clássico, embora com madeira melhor preparada, como as madeiras compostas, de que é exemplo o chamado parquet flutuante. Estes pavimentos derivados de madeira, são bem mais resistentes, pela sua estrutura contraplacada e acabamento em verniz resistente, pelo que requerem pouca manutenção, apenas uma aplicação periódica de líquido que lava e dá brilho.

Quanto à Dabri, é uma das várias marcas da Marouço, uma empresa iniciada em 1960 por Manuel Caetano Gouxo Marouço. Em  1972 o produto evolui e passa a oferecer ceras específicas para diferentes tipos de madeira.
A Marouço, detém o licenciamento de fabrico e comercialização da popular marca de pomada para calçado Búfalo, mercê de um contrato realizado em 1984 com a proprietária espanhola Produtos Búfalo S.A..
Para além da Dabri, a Marouço detém outras marcas populares como a cola Pica-Pau, desde 1963. Esta cola  foi para mim uma preciosa ajuda nos trabalhos manuais na escola primária e ciclo preparatório TV, no final dos anos 60 e princípios de 70. É assim uma das marcas que faz parte do meu imaginário infanto-juvenil e certamente que de muitos portugueses.

12/03/2008

Sardinhas salgadas

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Quem não gosta de sardinhas? Assadas, cozidas, fritas ou de conserva em óleo ou tomatada, creio que quase toda a gente gosta.
Hoje em dia a sardinha é quase um alimento de luxo, pelo alto preço a que é vendida. Então em época das festas populares, nomeadamente pelo S. João, o preço é deveras exorbitante, mesmo com o abastecimento da sardinha espanhola (que dizem de inferior qualidade relativamente à pescada na nossa costa).

Neste contexto, guardo algumas memórias e recordações à volta das sardinhas e da sua importância na alimentação das pessoas.

Noutros tempos, noutras épocas, a sardinha era o bife dos pobres, principalmente do povo da aldeia, dos lavradores.
Duas batatas cozidas, um monte de couves e uma sardinha assada ou cozida, era um prato muito generalizado, mas mesmo assim com algum requinte, pois mesmo a um preço acessível, nessa altura (anos 60 e 70), a sua compra frequente não estava ao alcance da maioria do povo. Recordo-me perfeitamente do tempo em que uma sardinha era dividida por dois ou três irmãos.

Lembro-me da visita do peixeiro à aldeia, duas ou três vezes por semana, numa camioneta de caixa aberta. Logo que o tempo se aprontava frio, portanto no final do Outono e Inverno, algumas famílias com mais bocas para alimentar, compravam uma caixa completa de sardinhas, que depois salgavam. Com este tipo de conservação tradicional, herdada já dos tempos dos romanos, a caixa, bem administrada, durava umas valentes semanas do Inverno, pois nessa altura do ano era muito difícil a venda da sardinha, devido ao estado do mar mas também por não ser tão gostosa. A este respeito, o povo diz que a sardinha é boa nos meses sem R (portanto Maio, Junho, Julho e Agosto). Depois perde qualidades. Nesta, como noutras coisas, é certa a sabedoria popular.

Hoje em dia a sardinha é consumida habitualmente fresca e quando importa conservar é congelada. Já ninguém salga sardinhas e mesmo que o fizessem as mesmas ficariam intragáveis e rançosas. No entanto, nessa altura as sardinhas conservavam-se com boa qualidade e sempre deliciosas, mesmo depois de salgadas por várias semanas. Para além do mais, não havia outra alternativa à sua conservação pois arcas congeladoras era equipamento que ninguém tinha.
Agora que o frio tem apertado, soube bem recordar as sardinhas salgadas no meu tempo de criança. Ainda lhes sinto o sabor e adivinho-as a fumegar num prato de batatas com couves.

10/27/2008

Sabonete Rexina - Há sempre lugar para mais um...

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Hoje trago à memória um sabonete que sempre foi muito popular entre nós, os portugueses, o Rexina. Já aqui havia falado de um outro sabonete, talvez ainda mais popular, o sabonete LUX.

Curiosamente, o Rexina, sabonete desodorizante,  em muitos outros países, nomeadamente no Brasil, era conhecido como Rexona. Vá lá entender-se estas coisas do marketing. Em jeito de brincadeira, só pode ser, há quem diga que a alteração do nome teve a ver com o facto de Rexona se prestar entre nós a "bocas foleiras" com rima inconveniente e brejeira. Adivinhem...

Confesso que apesar de tudo apenas usei o Rexina uma ou outra vez. Em rigor, até nunca fui muito de usar sabonetes, e preferia mesmo o sabão, tanto nas conhecidas variedades azul e branco (muito bom contra a caspa) bem como o sabão macaco e o sabão rosa. Recordo-me a este propósito dos sabões, que os mesmos eram vendidos  em barras entre 40 a 50 cm de comprimento, embrulhadas em papel de jornal. Havia também quem comprasse ao peso pelo que o merceeiro usava uma grande facalhona para fraccionar a barra.

Por sua vez, em casa, esse bocado de barra ainda era mais fraccionado, mais ou menos no tamanho dos sabonetes, de forma a tornarem-se manuseáveis. Claro que nos primeiros dias de uso, era algo inconveniente, com as arestas demasiado vincadas. Depois, com o uso, o bocado de sabão tornava-se num autêntico sabonete, macio e arredondado, apenas, por norma, menos bem cheiroso. Neste aspecto, o Clarim, era dos mais perfumados.

Recordo-me que, por vezes, ao usar o sabão num tanque, ele lá escapava fugidio por entre os dedos e ía parar ao fundo. A solução era arregaçar a manga até ao sovaco e mergulhar o braço na água fria à procura do raio do sabão.
Dos sabonetes, o que mais usei, ainda em rapazola adolescente, já perto dos 18 anos, era o Feno de Portugal, que em próxima ocasião falarei mais detalhadamente. Ainda agora parece que estou a sentir o agradável aroma do Feno de Portugal debaixo de uma camisa lavada. A namorada adorava....

Ao Rexina, ficou popularizada a publicidade cujo slogan era, "Há sempre lugar para mais um.". Entendia eu que esse "mais um" teria que ser alguém, jovem, bonito(a) e a cheirar bem, a Rexina, claro.
O Rexina, ou o homónimo Rexona, é um produto da multinacional Unilever, e foi lançado no final dos anos 60.

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Cartaz publicitário com a versão Rexona.


Velho anúncio da promoção dos sabonetes Rexina, que ofereciam suportes para sabonetes, daqueles tipo ventosa, em borracha, e que ainda hoje se veem à venda.

9/20/2008

Coisas do antigamente - Sacos, sacas e cestas




Hoje em dia, uma rotineira ida às compras, seja ao mini-mercado da aldeia, seja ao supermercado, seja ao que se convencionou chamar de "grande-superfície", implica trazer para casa uma boa quantidade de sacos de plástico. Para além dos estritamente necessários, é frequente a regra de se pedir à menina da caixa uma molhada adicional de sacos, "para utilizar em casa".


É certo, que numa onda de preocupações relacionadas com o ambiente, há já locais de venda que cobram por cada saco utilizado, "obrigando" assim  a um aproveitamento racional de sacos de compras anteriores. Outros locais, usam sacos de papel, com nítidos benefícios ambientais. Ambas as situações, infelizmente, são ainda muito raras.
Pessoalmente estou em crer que neste aspecto algumas coisas tendem a mudar, mas nunca mais será como noutros tempos. Senão vejamos: Actualmente as pessoas vão às compras de mãos a abanar, isto é, sem recipientes onde acondicionar as compras. Estas entrem no carrinho, saem do carrinho e passam pela caixa, depois entrem em sacas de plástico, de novo para o carrinho e deste para o carrão, isto é, o automóvel. Em casa saem directamente para a despensa.

Como contraponto, noutros tempos, as mulheres da aldeia, onde quer que fossem às compras (e estas nem eram frequentes nem abundantes) levavam consigo um saco, de pano, quase sempre, de nylon, ou mesmo uma cesta ou cabaz de vime ou verga. Havia mesmo quem levasse à cabeça uma giga, daquelas tradicionais, muito utilizadas nas aldeias.
Por outro lado, hoje em dia todos os produtos são vendidos devidamente embalados. Mesmo os que tradicionalmente o não são, como a fruta e os legumes, uma vez seleccionados e pesados são logo acondicionados em sacas de plástico. Por cada produto uma embalagem que há-de ir para o lixo.
Pelo contrário, também noutros tempos, eram poucas as coisas que se compravam embaladas. Quase tudo se adquiria a granel, fosse na mercearia, fosse na drogaria, peixaria, talho ou até mesmo na farmácia.
Recordo que durante muito tempo, ainda em criança, a ida semanal às compras à mercearia da aldeia, era executada por mim e por um irmão mais velho. Recordo, pois, muito bem, que tudo o que comprava era vendido a granel, pesado e acondicionado em sacos de papel, em vários tamanhos de acordo com o que se pretendia. Era assim com o arrroz, com a massa, o feijão, o açúcar, a farinha, as bolachas, a manteiga, o queijo, a marmelada, as azeitonas, o café, etç, etç. Até mesmo os produtos líquidos, como o vinho, o azeite e o petróleo eram vendidos de forma avulsa, pelo que tinha que se ir prevenido com garrafas ou garrafões. Mesmo o chouriço, conservado em grandes latas com azeite, era vendido a granel e embrulhado em papel vegetal. Os papeleiros eram assim grandes fornecedores das mercearias, com papel, sacos (chamávamos de cartuchos) e saquetas. Havia cartuchos para quantidades de 1/4 de quilo, meio-quilo, um quilo, dois, cinco, etç. Para coisas pequenas, principalmente para azeitonas e amendoins, era tradicional elaborar-se com uma quadrado de papel uma saqueta em cone, tipo o actual corneto, o gelado da Olá.

Como se vê, outros tempos, outras condições. Tudo funcionava bem. Hoje em dia estes procedimentos e estas formas de vender são impensáveis. É certo que hoje em dia há uma melhor conservação dos alimentos, mais cuidados de higiene e um apertado controlo de qualidade. O que é certo, é que a forma de fabricar, produzir, armazenar e vender os produtos, implica o frequente recurso a produtos adicionais como conservantes, anti-oxidantes e outras mixórdias terminadas em "antes". Claro está, com nítido prejuízo da saúde das pessoas.

É fácil concluir que noutros tempos as coisas produziam-se para consumo imediato, principalmente os produtos perecíveis. Hoje, os mesmos produtos são feitos para duraram mais tempo, nos armazéns e nas prateleiras e poderem ser manuseados por milhares de mãos nos locais de exposição e venda. Até neste aspecto as coisas mudaram, pois hoje toda a gente pega, mexe, volta a pousar, volta a pegar e por aí fora. No antigamente não: Havia uma coisa chamada balcão, que limitava o espaço entre quem vendia e quem comprava. As coisas eram pedidas pelo nome e pelas quantidades desejáveis. Só depois é que eram aviadas. Com este processo, comprava-se o que se queria ou, quase sempre, o que se podia. Hoje, pelo contrário, as pessoas compram o que precisam, é certo,  mas muitas vezes o que não precisam e o que não podem comprar. É o consumismo, o apelo da imagem e do marketing no seu melhor.

Com tudo isto, é fácil perceber que hoje em dia há situações que se valorizaram para bem do consumo e do consumidor, nem poderia ser o contrário, mas muitos dos hábitos e procedimentos do antigamente perderam-se de forma irremediável e com eles muitos aspectos e valores positivos. O caso das embalagens é apenas um deles. Os restantes, as pessoas que, como eu, viveram esse período e o actual, facilmente aquilatarão.
Como remate final, posso afiançar que nessa altura da minha meninice, as famílias quase não produziam lixo. O plástico estava a aparecer mas era muito raro. As roupas eram remendadas e aproveitadas até à exaustão, pelo menos as de criança. Eram frequentes os remendos com grandes pedaços de pano de outra cor, nomeadamente as quadras na zona do traseiro e também na zona dos joelhos e cotovelos, onde se verificava maior desgaste. O mesmo acontecia com o calçado. As roupas, o calçado, os livros e muitas outras coisas transmitiam-se dos mais velhos para os mais novos. Mesmo o papel de jornal era aproveitado para diversas situações. As ferramentas, utensílios de uso diário e equipamentos eram reparados vezes sem conta. A comida, quase sempre escassa, era aproveitada ao máximo. Os restos, poucos, eram consumidos pelos animais, cães, gatos, galinhas, porcos ou vacas. Na aldeia quase toda a gente tinha este leque zoológico.
Nada era supérfluo pelo que tudo era aproveitado. Hoje em dia, algumas estatísticas apontam para uma produção de 150 quilos por mês por família. É muito lixo, como se compreenderá. É certo que se fala em reciclar, nos eco-pontos e outras coisas interessantes mas são apenas uma tentativa de minimizar o problema da sociedade actual que é a produção excessiva e desregulada de lixo.
Outros tempos, outros usos e costumes. Uns para melhor, outros para pior. É sempre assim.

8/05/2008

Publicidade nostálgica - Sabão Clarim

 

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Sabão Clarim. Com Clarim, toca a lavar! Este slogan ainda hoje está presente na memória de muita gente. De facto este produto foi sempre muito popular e ainda hoje é muito usado apesar de já quase ninguém lavar à mão. Mas há sempre aquela peça de roupa que não justifica ir à máquina.

Recordo o Clarim e o seu inconfundível perfume a fresco e recordo sobretudo as longas horas que a minha mãe e todas as mulheres da aldeia dedicavam à lavagem manual da roupa, que era uma tarefa bastante dura e ingrata, especialmente em dias de inverno. Para além de repetitiva, exigia grandes esforços, desde o transportar a roupa à ida e à volta (ainda mais pesada), até ao ensaboar, esfregar na pedra áspera de granito e ao torcer. Depois de todo o processo era ainda necessário estender a roupa num sítio adequado para ficar a corar. O aparecimento e a generalização das máquinas de lavar veio desafogar as mulheres domésticas de um trabalho deveras penoso.

Para facilitar essa tarefa comum e quase quotidina, e porque era na altura uma importante infra-estrutura comunitária, quase todas as aldeias tinham um ou mais  lavadouros públicos, dispersos por vários lugares, onde se juntavam várias mulheres ou raparigas, sempre em ambiente de amena conversa, com boatos e mexericos na ordem-do-dia e até mesmo a cantar. Assim transformava-se uma tarefa ingrata num momento de alegria. Havia ainda quem lavasse a roupa na borda de um regato ou em qualquer outro sítio com água corrente, proporcionando assim quadros pitorescos do diário da aldeia.

Por isso, quando se passava por um destes locais, para além do tagarelar do mulherio sentia-se esse perfume a sabão Clarim, que assim lavava a roupa e até a água. Depois, como diz a cantiga da Aldeia da Roupa Branca, na voz da inconfundível Beatriz Costa, "...ai rio não te queixes, ai que o sabão não mata, ai até lava os peixes, ai põem-nos como prata..."

Outros tempos, outros usos e costumes.

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