Ilustração de Maria Keil - Do "Livro de leitura da primeira classe"
É já este sábado, dia em que se celebraria o 100.º aniversário da pintora portuguesa, que o segundo canal do Estado exibe o documentário 'Memórias de Autores Portugueses - Maria Keil'
A conversa, conduzida por Ribeiro Cardoso e realizada por Helena Santos faz parte do último documentário filmado com a artista ainda viva.
Maria Keil foi uma das pintoras portuguesas mais conhecidas do século XX e rompeu com os cânones do seu tempo, integrando o grupo dos modernistas portugueses. Foi ainda ilustradora, fotógrafa e decoradora.
Memórias de Autores Portugueses - Maria Keil para ver este sábado, pelas 21.50 na RTP2.fonte: Diário de Notícias
Luís Filipe de Abreu:(…) A Maria Keil também teve uma intervenção bastante importante. Há muitos desenhos dela, muita ilustração, e já com um toque muito moderno que se distanciava muito do que era feito vulgarmente. A Maria Keil foi muito tocada pelo Fred Kradolfer e segue essa linha logo desde muito nova. A título de curiosidade, refiro um encontro que não deixa de ser curioso analisado a esta distância. A Maria Keil tem mais anos do que eu, fez no ano passado 90 anos, mas por altura dos anos 60 e a propósito dos livros didácticos, dos livros escolares, eu trabalhei com a Maria Keil.Entrevistadora: Mas o resultado é positivo. Eu, pelo menos, tenho uma memória muito agradável destes livros.
Luís Filipe de Abreu:Foi um trabalho feito a meias. Umas ilustrações de Maria Keil e outras minhas. (Mostrando um desenho): Este desenho é meu, aliás estão aqui já os meus filhos. Aparecem várias vezes no livro. A ideia do Ministério era lançar um livro único, ao alcance de todas as bolsas. Toda a gente dizia muito mal por ser um livro obrigatório mas, no fundo, era uma medida económica que permitia levar um livro de uma certa qualidade a todos os níveis: O da Segunda Classe custava 22$50 e o da Primeira Classe custava 16$00 ou coisa assim parecida.Entrevistadora: Lembra-se da editora?
Luís Filipe de Abreu:Várias. Entre elas esta, que não conheci, a Atlântida. Agora, fizeram reedições destes livros. Isto vinha a propósito dum encontro de gerações. Naquela altura o Ministério resolveu modificar e alterar os livros escolares porque os que havia estavam desactualizados. Fizeram concursos de textos para novos livros, concorreu gente muito boa como, por exemplo, esta equipa constituída por Judite Vieira, Manuel Ferreira Patrício e o Silva Graça (note-se que esta J. Vieira não era a conhecida escritora). Com o livro da Primeira Classe aconteceu também uma coisa semelhante: eram pedagogos muito activos, muito preocupados com coisas de ordem educacional e social. Fizeram um concurso para ilustração. Então o Lino António aconselhou a comissão com vistas à ilustração e apareceu o nome inevitável da Maria Keil, e o meu, que em 1968 era um rapaz novo mas que estava naqueles passos. Então resolveram esta coisa um bocado inesperada, de juntar os dois nomes num livro. Nós não achámos muito bem quando fomos abordados, porque considerámos um trabalho de difícil solução. Falei com a Maria Keil e concluímos: “Vamos experimentar” e resolvemos aventurar-nos. Se por um lado criou uma certa variedade, por outro lado criou certo embaraço aos dois. Eu acho que fizemos isto com a minha descontracção e com a boa vontade, o talento e a tolerância da Maria Keil.-Entrevistadora: Mas o resultado é positivo. Eu, pelo menos, tenho uma memória muito agradável destes livros.
Luís Filipe de Abreu:O resultado é bom em relação ao que se fazia e acho que foi positivo porque em 1968 mandámos imagens destas para os confins do nosso país. Acho que foi um grande sucesso. O que não deixa de ser curioso foi ser um livro feito a quatro mãos de duas gerações diferentes. O da Segunda Classe é mais bonito do que o da Primeira Classe. Tivemos imensas limitações técnicas porque nos foi dito que queriam uma edição muito barata. A Maria keil propôs o uso de cores directas, não utilizando a quadricromia, estava muito apostada nessa ideia das cores seleccionadas para a tipografia simples. Mas nessa altura os editores já entendiam que o offset era mais rentável. Tinham razão, mas resultou em desfavor dos originais no que se refere às cores. O segundo livro já foi feito para litografia mas as ilustrações também não correspondem aos originais.Entrevistadora: Uma nova tecnologia de impressão, um novo problema.
Luís Filipe de Abreu:Sim e aqueles originais que tinham sido feitos a pensar em cores directas, seleccionadas, que dariam um carácter que era muito usual nessa altura, sobretudo nos livros estrangeiros que apareciam, muito bonitos, transformaram-se num livro feito em offset com as cores mais imponderáveis, onde um tom tanto poderia ser verde, como castanho, como encarnado. Havia diferenças de impressor para impressor e os impressores preferidos foram, mesmo, os mais baratos embora tivéssemos feito recomendações para isto ser feito numa boa impressora. Uns foram em Coimbra, outros foram para o Porto, outros foram para Lisboa (…)
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Luis Filipe de Abreu Maria Keil Além das ilustrações respeitantes ao conteúdo de ambos os livros, também os arranjos das capas e os lay-outs de paginação geral fizeram parte da tarefa dos dois autores, Maria Keil e Luis Filipe de Abreu. Habitualmente fala-se só de ilustrações, o que não é tudo...
Estes autores apresentaram a composição dos textos de todas as páginas dos livros (incluindo os índices, no caso do livro da 2ª classe). Só assim se poderia concretizar o plano gráfico total e assegurar os espaços reservados a ilustração e texto, a inclusão de caracteres caligráficos, por vezes com cor vermelha, etc. Foram apresentadas laboriosas maquetas absolutamente completas da montagem dos referidos textos. As composições dos textos foram reproduzidas dessas maquetas feitas pelos ilustradores.
No caso do livro da segunda classe houve também que "desenhar" as cartas caligráficas simulando quatro diferentes estilos de letra de escrita manual. Este trabalho meticuloso e paciente foi feito pela Senhora Gracinda Ribeiro de Abreu, professora de Educação Visual.
Também neste livro as páginas de anotação musical foram produzidas por pessoa profissional desse domínio.
As capas foram desenhadas por Luís Filipe de Abreu com ilustrações de Maria Keil no da primeira classe, e de ambos no da segunda classe. As guardas deste foram criação de Maria Keil.
No geral e no que diz respeito ao design, paginação e montagens, grande parte das tarefas foram realizadas por Luís Filipe de Abreu, experiente nesse sector, sempre em acordo com Maria Keil. Daí resultou um equilíbrio na divisão do trabalho que não pode ser medido com rigor mas que esteve sempre no pressuposto da harmonia da relação amiga levando em conta as disponibilidades e apetências de cada artista. A colaboração com os autores dos textos considerada desejável, acabou por ficar reduzida a poucos contactos iniciais, dada a extensão, a complexidade do trabalho e o reduzido tempo estabelecido para a realização.
O convite do Ministério da Educação Nacional foi dirigido aos artistas através do Professor Pintor Lino António (então director da Escola António Arroio), membro da Comissão do Livro Único, presidida pelo Dr. Gomes Branco. Com ambos houve alguns contactos durante o trabalho mas sem qualquer interferência no desenvolvimento do plano artístico.(1) Informações prestadas pelo próprio Luís Filipe de Abreu
Ainda com a boca embriagada da doçura de uma barrigada de cerejas, senti por momentos um travo amargo, mas a doçura voltou porque as memórias ligadas à Maria Keil e às suas ilustrações só podem continuar a ser doces.
Obrigado, Maria Keill, e descansa em paz!
Hoje o dia começou cinzento, fechado, e com chuva. Não muito forte, mas daquela certinha e com um ligeiro vento. É o que eu chamo um típico dia de Inverno, se calhar em harmonia com a tão falada cimeira da NATO que quase fechou Lisboa e o país, controlando-se de forma apertada fronteiras, impedindo a entrada a eventuais manifestantes.
Por estes dias é assim; depois poderá entrar livremente toda a espécie de gente, incluindo aqueles que têm engrossado o número de emigrantes ilegais, com gente boa e bem-vinda, mas também com criminosos de toda a espécie, que de forma avulsa ou organizada nos vem assaltar as casas e as lojas e a aumentar a criminalidade e a insegurança. Mas estas são outras histórias se bem que igualmente cinzentas ou bem mais negras.
Para evocar este tipo de dia, o de Inverno, uma página do meu livro de leitura da segunda classe, com uma bela ilustração da Maria Keil que transmite na perfeição todo o clima de um dia como o de hoje.
Hoje estive fora quase todo o dia, em serviço, e ao regressar, já por volta das 17:00 horas, parei numa pastelaria para tomar café. Na vitrine, a abarrotar de coisas doces e apetitosas, um belo pão-de-ló, fatiado. Essa imagem fez-me associar outra imagem e recuei no tempo, ao meu livro de leitura da primeira classe, nomeadamente à página 33, onde nunca mais esqueci as deliciosas ilustrações da Maria Keil, nomeadamente aquele belo pêssego, quase real e a convidar a uma fresca trincadela, ou mesmo a fatia de bolo, tão amarela como o pão-de-ló que minha mãe confeccionava por altura da Páscoa. Ficava sempre roído de inveja da menina Edite por receber aquela fatia de bolo, esperando, em vão, ser o próximo a ser servido.
Sempre que desfolhava o livro, essas imagens saltavam-me e com elas um doce apetite por coisas boas. Aliás esse livro estava recheado de coisas boas que apeteciam comer, nomeadamente as iguarias dispostas na mesa de Natal, na página 98. Hoje, ao reler, essas sensações são as mesmas, por isso intemporais.
Hoje quero falar de “O Palhaço Verde”, uma das belas histórias da Matilde Rosa Araújo, ilustrada pela Maria Keil, cujas ilustrações povoam para sempre o meu imaginário.
Este livro é uma das obras emblemáticas tanto da Matilde como da Maria Keil e libertei-o numa qualquer feira de velharias pelo módico resgate de 1 euro. O livro tem uma dedicatória manuscrita: “Para o António Carlos, com muito carinho da sua amiga Matilde. 4 – Abril 1981″.
Quem seria este António Carlos, tão displicente e ingrato a ponto de, em princípio, abandonar assim um livro dedicado carinhosamente por uma amiga, mesmo passados 28 anos? E quem seria esta Matilde? Será uma feliz coincidência a ponto de se tratar da própria autora, numa dedicatória manuscrita algures numa sessão de autógrafos? Alguém conhecedor(a) de Matilde Rosa Araújo, será capaz de reconhecer a sua caligrafia? A ser verdade, a confirmar-se essa coincidência, ficaria feliz e orgulhoso, mesmo não sendo eu o António Carlos. Ficaria feliz, digo, porque para além da magia e ternura da sua obra, bem como da Maria Keil, a ela pertence certamente os primeiros versos que ouvi na forma de poesia:
“Mãe, que verdade linda o nascer encerra: Eu nasci de ti como a flor da terra”.
Quando Matilde Rosa Araújo e Maria Keil se juntam, acontece magia.
Os brinquedos da praia, o balde, de plástico e até de chapa, e a sua inseparável companheira, a pá. Não era necessário mais nada para se construir um mundo, um castelo. Estes dois objectos estão profundamente ligados à memória de milhares de portugueses porque lhes passaram pelas mãos, numa qualquer praia da extensa costa deste nosso Portugal.
É pois, com saudade, que recordo aqui, em meu nome e em nome de muitos portugueses, esses simples mas inestimáveis brinquedos, o balde e a pá, sempre incansáveis a construir castelos de areia, com fosso, ameias, torres e torreões.
Claro que no meu tempo de criança, a ida à praia era mesmo mágica e especial, porque era rara; uma ou duas vezes em todo o ano, em todo o Verão. Vivendo a cerca de 20 Km da mesma, e com a família numerosa, e com parcos recursos, a oportunidade era quando o meu avõ materno, e padrinho, alugava a clássica carrinha "pão-de-forma" da Wokswagen e lá ía a família toda a banhos para Espinho (hoje muito diferente) ou para o Furadouro.
Momentos deliciosos, complementados com uma sande de compota caseira, feita de amoras, e gelados de gelo, com sabor a laranja, da Neveiros, da Rajá ou da Olá.
Momentos inolvidáveis, que se perderam no tempo, como se perderam dezenas e dezenas de metros do extenso areal onde então brincava, com os meus irmãos. Perderam-se também os rudimentares castelos de areia limpa e dourada, que resistiram às investidas inventadas dos sarracenos mas que foram abalroados pelas doces ondas de um final de tarde de um qualquer longínquo Verão. Tudo isso se perdeu, é certo, mas tudo isso continua vivo nas minhas e nossas memórias. E recordar é viver.
(imagem acima, de autoria de Maria Keil, extraída do meu livro de leitura da primeira classe; imagens seguintes, desenhadas por mim para ilustrar o post.)
















Casa do Pão-de-Ló de Arouca - A. Teixeira Pinto