Ilustração: Maria Keil
Ilustração: Donald Zolan
Ilustração: Donald Zolan
Ilustração: Donald Zolan
Ilustração: Donald Zolan
Ilustração: Donald Zolan
Hoje é o Dia Mundial da Criança. A data estabelecida não é uniforme, mas em Portugal, como em muitos outros países, o dia 1 de Junho foi o escolhido.
Hoje, mais do que nunca, é importante o dia e todas as evocações e reflexões que se possam fazer e estabelecer sobre a criança e todo o seu contexto, desde a sua concepção, nascimento, crescimento e formação. Afinal, ainda faz sentido a velha máxima de que as crianças são o futuro. Se queremos, pois, um futuro melhor para todos e em todos, torna-se então necessário que o seu presente seja devidamente equacionado e preparado.
Como é natural, este é um tema que merece e despoleta sempre novas reflexões e discussões e por mais que nelas nos debrucemos, fica sempre muito por falar e fazer.
Questões fulcrais, nomeadamente quanto à educação, ocupam um dos primeiros lugares das preocupações. Numa época em que as famílias perdem cada vez mais os alicerces convencionais, com uniões de facto, sem factos ou sem afectos, separações, divórcios consecutivos, famílias monoparentais e até com adopção por parte de uniões homossexuais a entrar na ordem do dia, realmente é caso para dizer que as crianças estão mais desprotegidas do que nunca, isto num sentido dos equilíbrios emocionais, dos afectos e referências. Pode não ser uma perspectiva politicamente correcta mas é o que é.
Mas pronto...isto é pano para mangas e já foge do objectivo do post, que é o de apenas lembrar a data.
Nascido em meados de 60, eu também fui criança, e este simples blogue vive muito das recordações e memórias desses tempos. Hoje, mesmo comparando com os padrões da vida das nossas crianças, em todos os seus aspectos, desde a escola às brincadeiras e aos brinquedos, não tenho dúvidas de que, como os meus 7 irmãos, fui uma criança feliz, mesmo que entre as minhas brincadeiras também houvesse lugar aos trabalhos, especialmente na ajuda aos pais, quer em casa, quer no campo.
Tive uma infância repartida entre a escola, os estudos, as lições, as brincadeiras e os jogos no recreio, as brincadeiras nos fins de semana e nas férias, sobretudo as do Verão, entre caminhos, campos e pinhais. Nessa altura as crianças eram livres como pássaros e não havia motivos para preocupações excessivas como hoje, a serem quase prisioneiras, enjauladas em casa, sem ordens para saír à rua, recostadas nos sofás de um mundo fofo, tecnológico mas quase autista.
Os brinquedos desses tempos eram feitos por nós próprios e o contacto era directo com as coisas, com os lugares, a terra, as plantas, os animais. Conhecíamos cada insecto, cada pássaro ou cada bicho. Cada dia era uma nova aventura, uma viagem pelo imaginário infantil, adoçado pelo que se via na televisão e lia nos livros. Íamos em bando a pé para a escola e cada uma dessas viagens era por si só um palco e motivo de brincadeiras, mesmo que acabassem em zaragatas e pancadaria.
Tudo mudou, para o mal e para o bem, mas uma certeza fica: As crianças são sempre crianças, mas sem dúvida que os diferentes tempos e diferentes mentalidades tiveram sempre uma importância vital na formação das suas personalidades, nomeadamente pela transmissão dos bons valores, no respeito próprio, pelos pais, irmãos, familiares, vizinhos e pessoas idosas, na disciplina e responsabilidade. Nem de outra forma poderia ser, mas pelo que vejo, e pelo que consigo abarcar nas gerações que testemunhei e nas suas enormes diferenças, conclui-se que nem toda a mudança resultou num caminho de valor acrescentado.
Felizmente muita coisa mudou para melhor, nomeadamente na questão da saúde e protecção relativamente ao trabalho infantil forçado e castrador da génese e tempo da infância, mas muitos outros valores se perderam.
O tempo tem destas coisas e se é verdade que a natureza nos ensina que há um irrevogável caminho de evolução e adaptação, também é verdade que frequentemente nos lembra que há sempre algo que se perde, que se extingue, que fica pelo caminho, quantas vezes por desmazelo, incúria e desprezo pelas regras básicas dessa própria natureza, mesmo que na versão humana. Ainda hoje, mera coincidência, soube pela minha esposa que uma nossa vizinha de 14 anitos mal feitos, grávida de alguns meses foi abortar. Por toda uma série de situações, espera-se mais do mesmo. Banalizou-se a sexualidade e o seu usufruto e agora a sociedade colhe os frutos. É esta a colheita esperada e desejável? É este o cimento dos alicerces do futuro próximo?
Aproveitemos a data para reflectir no que de bom e menos bom tem orbitado no universo da criança.