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10/06/2016

A Sebenta do Tempo - Mário Augusto


Noticia fresquinha em antestreia... terminei um livro que vai divertir a malta. Partilhem se assim entenderem. Eu agradeço.
Memorizem esta capa de livro porque em Novembro, logo na primeira semana, quando chegar ás as livrarias, ele será para a malta que cresceu nos anos 60, 70 e 80 como que um divertido elixir da memória. Andei meses a pesquisar, a perguntar a amigos da minha geração, desempoeirar as recordações. Nem vos conto o prazer que deu....
A SEBENTA DO TEMPO é para os que viram “Os Pequenos Vagabundos” e desejava, ao crescer, ser como o Jean-Loup…
Os que na escola, sabiam toda a lengalenga dos caminhos-de-ferro de Angola ou por onde passava o rio Zambeze em Moçambique – com a mesma certeza e convicção com que aprendiam que o Mondego nascia na Serra da Estrela – e era tudo dito naquele sincopado musical com que cantarolávamos a tabuada, de cor e salteado…
Para quem levou umas reguadas da professora ou chorou com a Heidi na televisão...
Ou para os que se lembram que beijou ou foi beijado(a), agarradinho(a), ao som do “Hotel Califórnia” dos Eagles ou do “We’re all alone” da Rita Coolidge...
Talvez encontre utilidade nesta “Sebenta do Tempo –manual da memória para esquecidos”. Porque há um tempo na vida que nunca se pode deixar de evocar. E de recordar.
Alguém me explica por que será que, quando tínhamos 15 anos, o verão parecia mais azul? Os nossos verões eram mesmo mais azuis e quentes, as férias grandes eram mesmo grandes, até outubro, já depois da chegada do Outono.
O mundo da nossa infância era gigante e a nossa rua interminável para as brincadeiras.
Os heróis da BD custavam vinte e cinco tostões em desenhos a preto e branco.
A simplesmente Maria arrasava corações.
As laranjadas faziam piquinhos refrescantes na boca.
Os beijos dados na adolescência jamais foram repetidos com sabor a chiclete.
Como sempre aconteceu com todas as gerações, acelerávamos os dias a pensar na idade adulta e hoje travamos o tempo a recordar os nossos melhores anos.
Até ao lançamento deste livro de doces recordações de uma geração que ainda se lembra onde estava no 25 de abril...(talvez na escola ou a jogar á bola!), eu vou desvendado bocadinhos do seu conteúdo que vai apanhar distraída a memória de muita gente. Peço-lhes que partilhem a informação, vou dando pormenores de lançamento e aceito sugestões para essas sessões de lançamento.

Obrigado Mário Augusto

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O Blogue Santa Nostalgia fica obviamente satisfeito com esta notícia, expressa pelo conhecido jornalista da RTP, Mário Augusto, na sua página no Facebook. Desde logo porque neste livro são trazidas à memória muitas das recordações que ao longo de 10 anos temos aqui publicado. Neste sentido, o Santa Nostalgia é também uma sebenta do tempo, não em papel mas online.
Para além disso, foi com humildade e satisfação que a pedido do Mário Augusto fomos colaborando neste seu projecto, avivando uma ou outra memória ou facultando esta ou aquela imagem ou fotografia. Para nós foi um privilégio. Esperemos que esta Sebenta do Tempo seja um sucesso. Certamente que será porque tem todos os ingredientes para isso, desde logo a qualidade do autor.

11/30/2011

Telescola – Trabalhos Manuais

 

Já passaram uns bons anitos sobre o tempo em que cheguei a frequentar a Telescola, então já com o nome de Ciclo Preparatório TV.

Sobre a Telescola, esse interessante sistema de ensino, transcrevemos abaixo um excelente artigo da Infopédia.

São muitas as recordações relacionadas com esses dois belos anos, em que as aulas eram dadas pela televisão, RTP, a partir dos estúdios do Monte da Virgem, em Vila Nova de Gaia, e desenvolvidas na própria sala de aulas pelos professores. No meu caso, duas professoras.

De tudo quanto recordo, um especial destaque para as aulas de Desenho e Trabalhos Manuais Educativos, no 5º ano. E destas, a 5ª lição da componente de Trabalhos Manuais  que se referia à construção das figuras do presépio, em cartão e tecido.

Reproduzo a capa do manual, que ainda conservo, e das páginas da respectiva lição, o que nos entreteve com agrado durante algumas boas horas. No final, um excelente presépio. O meu grupo tratou da construção dos animais (vaca, burro, camelo e ovelhas).

Numa altura em que nos aproximamos da quadra do Natal, não deixa de ser com uma forte saudade e nostalgia que recordo este belo período.

 

telescola trabalhos manuais educativos

telescola trabalhos manuais educativos natal 1

telescola trabalhos manuais educativos natal 2

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Sobre a Telescola:

 

A telescola, sistema de ensino via televisão, arrancou em Portugal a 6 de janeiro de 1965, com programação produzida nos estúdios da Radiotelevisão Portuguesa do Monte da Virgem, no Porto. Os alunos eram acompanhados nos postos de receção por monitores. A intenção era permitir o cumprimento aos alunos da escolaridade obrigatória, na altura constituída pelos quatro anos da Escola Primária e os dois Ciclo Preparatório. A nível geográfico a telescola pretendia servir as zonas rurais isoladas e zonas suburbanas com escolas superlotadas.
Nesta época, havia cerca de mil alunos matriculados, mas toda a população tinha acesso através da televisão às emissões que ocupavam parte da programação da tarde da RTP.
A telescola portuguesa foi uma das mais bem sucedidas na Europa.
No início da década de 70, a reforma do ensino ditou o alargamento da escolaridade obrigatória para oito anos. Nos casos em que não fosse possível proporcionar ensino direto aos alunos este podia ser substituído pela telescola.
Na década de 80, com a chegada e vulgarização dos videogravadores, a telescola deixou de ser transmitida pela televisão, libertando assim essas horas para outros programas. Os conteúdos apresentados nas videocassetes tinham um complemento de informação prestado por um tutor.
Já na década de 90, o recurso às novas tecnologias e ao multimédia levou a que o ensino à distância passasse a funcionar em simultâneo como forma complementar do ensino regular e como modalidade alternativa da educação escolar.
Nesta altura, já se dirigia principalmente a quem não se encontrasse na idade normal de frequência da escola.
Ao longo dos anos, a telescola foi mudando a sua designação do inicial Curso Unificado Telescola, para Ciclo Preparatório TV e Ensino Básico Mediatizado (EBM).
Em julho de 2003 foi anunciado que a partir do ano letivo 2003/2004 iriam começar a ser extintas as escolas do EBM, na altura cerca de 320, dedicadas ao ensino do 5.º e 6.º anos. Em 2001/2002 havia cerca de 5200 alunos inscritos em EBM, com uma taxa de sucesso na ordem dos 90 por cento.

 

Fonte: Infopédia

10/25/2010

Cores com sabores

cores_texturas

Hoje estive fora quase todo o dia, em serviço, e ao regressar, já por volta das 17:00 horas, parei numa pastelaria para tomar café. Na vitrine, a abarrotar de coisas doces e apetitosas, um belo pão-de-ló, fatiado. Essa imagem fez-me associar outra imagem e recuei no tempo, ao meu livro de leitura da primeira classe, nomeadamente à página 33, onde nunca mais esqueci as deliciosas ilustrações da Maria Keil, nomeadamente aquele belo pêssego, quase real e a convidar a uma fresca trincadela, ou mesmo a fatia de bolo, tão amarela como o pão-de-ló que minha mãe confeccionava por altura da Páscoa. Ficava sempre roído de inveja da menina Edite por receber aquela fatia de bolo, esperando, em vão, ser o próximo a ser servido.

Sempre que desfolhava o livro, essas imagens saltavam-me e com elas um doce apetite por coisas boas. Aliás esse livro estava recheado de coisas boas que apeteciam comer, nomeadamente as iguarias dispostas na mesa de Natal, na página 98. Hoje, ao reler, essas sensações são as mesmas, por isso intemporais.

8/04/2010

Broa de milho


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broa

forno pao santa nostalgia

masseira de pao
Hoje em dia o pão chega-nos fresco logo pela manhã, distribuído pelo padeiro da zona ou adquirido em qualquer estabelecimento de produtos alimentares.
Faz habitualmente parte das nossas refeições, mas é consumido de forma automática, sem sequer percebermos toda a lida que esteve por trás da sua confecção, ainda que em padarias modernas e automatizadas.
Mas nem sempre foi assim. Noutros tempos, principalmente em ambientes de aldeia, o pão para consumo durante a semana era confeccionado e cozido na própria casa.

Reavivando as memórias do meu tempo de criança, recordo que em casa dos meus pais, a exemplo de muitas outras famílias, existia o tradicional forno onde semanalmente, todas as quartas-feiras, a minha mãe reservava a parte da manhã para cozer o pão.
Para isso existia um móvel em madeira, designado de masseira, onde a farinha misturada com a água era amassada à força de braços e mãos. 
  
Como era tradicional na minha região, era utilizada principalmente a farinha de milho, quase sempre pura mas por vezes misturada com farinha de centeio, emprestando ao pão uma cor mais escura e diferente sabor. A farinha de trigo era muito raramente utilizada e apenas em ocasiões especiais e mais para confecção de regueifa doce, nomeadamente pela Páscoa.
O processo principiava na véspera, com a moagem de um saco de farinha no moinho de água, propriedade da família. Depois a farinha deveria ser bem peneirada.
À mistura de farinha e água quente era acrescentado o fermento, chamado de crescente, que era um pouco de massa guardada da anterior amassadura. Este fermento era indispensável à levedura da massa. 
  
Recordo que quando a cozedura não era semanal, era necessário arranjar o crescente fresco pelo que era usual ir pedir a uma das vizinhas, pois era um risco usar fermento fora de prazo.
Depois de preparada a massa, esta era aconchegada num dos cantos da masseira. Era feita uma cruz em baixo relevo, com o topo inferior da mão e no meio da cruz era espetada uma cebola crua, que permitia acelerar a levedura.
Depois era feita a tradicional benção. A minha mão rezava assim:
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo:
S. Vicente te acrescente,
S. Mamede te levede e
S. João de te faça pão.
Amem.
Por vezes rezava-se uma Avé-Maria.
Esta reza, ou esta benção, tem alguns pontos comuns noutras regiões do país mas, naturalmente, apresenta-se de forma diferente, mais simples ou mais complexa. Eis alguns exemplos que colhi aleatoriamente em diversos sítios da internet.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo:
S. Vicente te acrescente e
S. João de te faça pão.
Deus de acrescente
Dento de forno,
E fora do forno
E a quem te comer.
São Vicente te acrescente
São Romão te faça pão
O Senhor te ponha a virtude
De mim fiz eu o que pude.
S. Vicente te acrescente,
S. Humberto te levede,
S. João te faça pão,
Para comer e p'ra dar.
Deus te queira acrescentar.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Reza-se então um Padre Nosso e Avé Maria.
S. Vicente te acrescente,
S. Mamede te levede,
S. João te faça pão,
E Deus Nosso Senhor te deite
Sua divina benção.
O Senhor te acrescente,
E te queira acrescentar,
Para comer e mais para dar.
Em nome do Pai, do Filho
E do Espírito Santo, Amén.
S. João levede o pão
S. Vicente te acrescente
Sta. Marinha levede a beijinha
Em honra de Deus e da Virgem Maria
Um Pai-Nosso com uma Avé Maria
S. Vicente te acrescente,
S. Sebastião te faça bom pão e
Deus te cubra de divina bênção.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
São Vicente te acrescente,
Sã Mamede te levede,
E todas as almas santas
Te ponham a sua virtude.
São João te faça pão,
Com a graça de Deus e da Virgem Maria.
Cresça ó pão no forno
E o bem pelo mundo todo.
Nós a comer e ele a crescer,
Que não possamos vencer,
P’rá minha alma quando for
O eterno descanso, Senhor.
Para a massa levedar
S. Vicente te acrescente
S. João te faça pão.
Em louvor da Virgem Maria
Um Padre-nosso e uma Avé Maria.
Quando a massa se mete no forno
(com a pá faz-se uma cruz)
Cresce o pão no forno.
Ele a crescer
Nós a comer
Nunca o poderemos vencer.
Deus que te levede
Deus que t’acrescente
Com a graça de Deus e da Virgem Maria
Um Pai-Nosso e uma Avé-Maria

S. Mamede te levede
S. Vicente t’acrescente,
S. João de ti faça bom pão,
Deus te ponha a virtude
Que da minha parte fiz tudo que pude.
Um Pai-Nosso e uma Avé-Maria.

O Senhor te levede
S. Pedro te acrescente
E o Senhor te faça pão
Com o poder da Virgem Maria
Um Pai-Nosso e uma Avé-Maria
IV
S. Vicente t’acrescente,
S. Mamede te faça pão,
Em louvor de Santiago
Não fiques nem insosso nem salgado

São João te faça pão,
S. Mamede te levede,
S. Vicente t’acrescente
Em louvor de Deus e da Virgem Maria
Um Pai-Nosso e uma Avé-Maria.

S. Crescente t’acrescente
S. Mamede t’alevede
S. João te faça pão
E Deus te cubra de benção
VII
S. João te levede
S. João t’acrescente
S. João te faça pão
Pelo poder de Deus e da Virgem Maria
Um Pai-Nosso e uma Avé-Maria.
Como se verifica, o S.Vicente está presente na quase totalidade dos exemplos. Apesar disso, S. Mamede, também muito participativo, é considerado o padroeiro do pão.
Depois de feita esta benção, a massa era coberta com um pano quente e era fechada a masseira. A levedura, dependendo da quantidade de massa, poderia durar mais ou menos uma hora.
Entretanto o forno já tinha sido acendido e nele laborava uma boa fogueira durante pelo menos duas horas para esquentar bem. No caso da cozedura da regueifa doce era usada preferencialmente lenha da poda da vinha e urze, queiró e carqueja do mato.

Quando a massa estivesse preparada, o forno era limpo dos resíduos da fogueira e varrida a cinza.
Depois, em cima de uma pá de madeira, era colocada uma camada de farinha fina e sobre ela era colocada uma porção de massa, entretanto preparada em forma de bola. Uma vez na pá era ligeiramente moldada de forma a ficar com uma base plana. Depois de assim preparada era introduzida no forno. Este processo era repetido de acordo com a quantidade de broas. Normalmente a minha mão cozia quatro a cinco broas.

Importa dizer que, antes da entrada no forno da broas, eram cozidos de forma rápida os bolos, um pão em forma circular, achatados, com uma espessura de cerca de 2 a 3 centímetros a que algumas vezes eram revestidos superiormente com sardinhas ou carne. Para mim e para os meus irmãos, a minha mão habitualmente preparava uns bolos de tamanho pequeno (os bolinhos), talvez com cerca de 10 centímetros de diâmetro e também os chamados picões, que eram redondos e pontiagudos nas pontas.

Depois destas cozeduras rápidas, então eram colocadas as broas, cobertas com uma camada de farinha, para melhor formar a côdea (parte dura da superfície superior da broa) e fechado o forno. A maior parte dos fornos não tinham porta com sistema de fecho pelo que era necessário vedar a porta, sendo para isso utilizado o resto da massa. Isto em minha casa, pelo que em tempos de maior crise, para não se desperdiçar a massa, era utilizado barro. Havia até quem utilizasse uma mistura de terra com bosta de vaca que pela quantidade de fibras era adequada à consistência da massa de vedar.

Uma vez fechada e vedada a porta do forno, esta era benzida com o Sinal da Cruz, feito com a pá. Estava terminada a tarefa pelo que restava aguardar uma a duas horas, conforme o tamanho do forno, a sua capacidade de aquecimento e da quantidade de broas.
Um dos momentos mais apetecidos era o da abertura do forno, pelo qual saía uma bafarada quente com aroma a pão quente. Só isso confortava a alma pelo que a barriga só depois de arrancado um naco de broa. Era conveniente, contudo, deixar arrefecer um pouco pois o ditado popular dizia que "Pão quente, diabo no ventre", o que significa que é perigoso comer pão muito quente.

As broas já cozidas eram retiradas com uma outra pá, esta em chapa de ferro, própria para se introduzir debaixo da broa para facilitar a sua remoção.
O pão então era colocado numa caixa de madeira e coberto e assim serviria para a companhar as refeições durante toda a semana. Claro que também servia de petisco fora das refeições, acompanhando uma mão-cheia de azeitonas, também da casa ou um pouco de salpicão de lavrador.

Com o avançar dos anos, estas práticas deixaram de ter lugar na maioria das famílias e já mesmo na aldeia são raros os exemplos deste tipo de confecção caseira. Claro que ainda subsistem, principalmente em aldeias do interior, ainda muito dependentes de uma agricultura de subsistência, mas são uma espécie em vias de extinção. Na minha aldeia ainda há pelo menos duas casas que produzem semanalmente a broa de milho caseira, seguindo praticamente os métodos artesanais de tempos antigos, mas já com uma vertente comercial. Mesmo assim, fazem com que ainda se coma broa de milho à moda dos nossos avós, dando um melhor acompanhamento a certas comidas, nomeadamente uma sardinha assada ou uns bons rojões caseiros.

7/20/2010

A Comunhão Solene ou Profissão de Fé

 A Comunhão Solene, ou Profissão de Fé, é uma rito ou celebração do percurso da Catequese dos fiéis da Igreja Católica e que ocorre sensivelmente por volta dos 10 ou 11 anos das crianças, pré-adolescentes. Actualmente creio que essa etapa está relacionada com o 6º ano de catequese.
A Profissão de Fé, em traços gerais, pretende ser uma confirmação ou o consentimento próprio, livre e individual de cada cristão face aos compromissos antes assumidos pelos pais e pelos padrinhos aquando do sacramento do Baptismo. Será assim o renovar do compromisso, o professar da sua própria fé perante Deus, perante si próprio e perante a comunidade. Por isso, um rito fundamental da celebração é o Credo, em que todos juntos, mas em nome individual, cada participante compromete-se a renunciar ao mal simbolizado por Satanás e depois profere e exclama a sua crença na fé em Deus e na Sua Igreja.

Esta celebração nos dias de hoje continua a ser importante e regra geral é motivo de festa na comunidade paroquial e nas famílias e para além da componente cerimonial, dá lugar a um lauto banquete.
Verdade se diga, apesar dessa mesma importância, muita coisa mudou e, no caso, para pior. Por regra realiza-se nos meses de Verão (Junho, Julho e Agosto).
Recordo-me perfeitamente do ano de 1973, quando num Junho muito quente, a 21, Dia de Corpo de Deus, juntamente com cerca de três dezenas de crianças entre rapazes e raparigas, vivi a minha Comunhão Solene. De facto foi um dia inesquecível, o culminar de uma longa preparação, com os 4 anos de catequese, a aprendizagem da doutrina que dava lugar a um exame escrito e oral realizado pelo pároco e os exigentes ensaios preparativos da cerimónia que incluiam cânticos, desfile em procissão e alguns discursos de ocasião. Recordo-me que ao lado de uma colega, e alternadamente, li a chamada Oração Universal ou Oração dos Fiéis, para além de ter cantado a solo um refrão de um cântico.

O dia da Comunhão Solene na minha aldeia, e até recentemente, por ser pequena, realizava-se apenas de 2 em 2 anos juntando em média cerca de 30 crianças. Por essa época e durante mais alguns anos, era de facto um dia de festa vivido de forma especial e que envolvia não só as crianças e famílias mas toda a comunidade.
Uma das etapas da cerimónia, logo pela manhã, consistia no ponto de encontro junto a uma capela existente num dos lugares altos da aldeia e depois um desfile encabeçado pelos “anjinhos” (crianças pequenas vestidas de anjinhos com tule colorido e com asas nas costas e aura de flores na cabeça) até à igreja matriz . Já na parte da tarde, depois do almoço, era rezado o terço cerimonial na igreja matriz e de novo uma procissão, tradicionalmente organizada, acompanhada por Banda de Música, rumando até à capela  onde perante a figura de Nossa senhora, uma menina fazia um discurso de agradecimento. Depois a procissão, com a mesma pompa e circunstância, mas já com alguns “anjinhos” de asa caída, regressava de novo à igreja matriz onde terminava a cerimónia com o bonito rito da oferta dos ramos de flores a Nossa Senhora. Diga-se que a capela está afastada da igreja matriz cerca de 1,5 Km. Era assim um dia em cheio e cansativo.

Mas dizia que toda a comunidade se envolvia e com a devida antecedência, as mulheres organizadas por lugares, preparavam os enfeites, que consistia em fabricar flores de papel colorido e adornar com papel recortado centenas de metros de corda que depois serviriam para adornar o trajecto da procissão entre a capela e a igreja matriz. Os homens, na véspera da festa, tratavam de instalar os mastros com bandeiras nas bermas da rua do percurso, sendo a estes afixadas as decorações feitas pelas mulheres e nas bases dos mastros eram também afixadas folhas de palmeira às quais eram penduradas as flores de papel. O chão era enfeitado com plantas verdes, alecrim e rosmaninho.

Para além de tudo, e ao contrário do que hoje em dia acontece, havia muita simplicidade e autenticidade em tudo o que se fazia. As crianças regra geral íam vestidas de cerimónia mas de forma modesta. Os vestidos das meninas, quase sempre alugados,  eram sempre brancos mas muito simples e homogéneos. Os rapazes levavam um simples fato mas com o casaco coberto por uma alva ou opa branca. Hoje em dia é o que se sabe, com autênticos desfiles de vaidades onde cada criança, sobretudo as raparigas, procuram exibir a importância social dos pais, com autênticos vestidos de noivas, complexos e demasiado caros, penteados elaborados e adornos desnecessários como colares, pulseiras, relógios e anéis. É verdade que ainda há paróquias que lutam contra estas “feiras de vaidades” e todas as crianças vão vestidas com hábitos todos iguais, mas no geral a cerimónia da Comunhão Solene está transformada num acto de exibicionismo num desfile de modelos, mais virada para o exterior, para a imagem e menos para o essencial à luz da vertente religiosa e espiritual.

Por outro lado, nessa altura o almoço de festa era realizado em casa, juntando-se à família os padrinhos e alguns familiares mais próximos e a melhoria do repasto poderia passar pela matança de um galo e pela compra de 2 Kg de carne de vaca num dos raros talhos das redondezas. A dona de casa também confeccionava um doce e uma ou outra lambarice. Hoje em dia organizam-se aparatosos banquetes, tanto em restaurantes como (seguindo a moda e a tendência) em quintas e espaços de eventos onde se servem caríssimos e pomposos copos de água, à laia do que é norma em casamentos.
Como prenda, e seguindo-se a tradição, recebi de meu padrinho/avô, um belo relógio Cauny Prima e 25 tostões de um ou outro familiar que poucas semanas depois gastava em lambarices na festa anual da aldeia. Quanto às raparigas recebiam por norma dos padrinhos uma volta ou pulseira de ouro ou mesmo uns brincos. Relógio para as meninas era mais raro.
A pretexto de toda esta recordação, publico uma ilustração do final dos anos 60 com vários modelos de vestido de menina para a cerimónia da Comunhão Solene e alguns dos tradicionais “santinhos” alusivos à cerimónia.

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Os tradicionais santinhos oferecidos na Comunhão Solene.

7/11/2010

Velhos caminhos

 

Ontem, Sábado, já ao declinar da longa tarde mas ainda com o sol teimoso na descida, fui dar uma caminhada por velhos lugares e sítios percorridos em criança. Nessa altura, eram um palco misto de brincadeira e trabalho. Nas canseiras das lides do campo, ajudando os pais, havia sempre tarefas a cumprir, desde o tempo da preparação das leiras para receber as sementeiras até às colheitas, já por meados de Outubro, passando pelas mondas e regas, não faltavam motivos de cuidados e mil canseiras. A plantação da batata, do milho, feijão, centeio, aveia, até às podas e vindimas, ou mesmo no cuidado e guarda de algumas cabeças de gado, era sempre um pão-nosso-de-cada-dia, trabalhado, suado mas abençoado. Mas é claro que havia também tempo e lugar às brincadeiras, vestidas de aventuras de índios e cow-boys, Robin dos Bosques, Tarzan ou Pequenos Vagabundos.

Passados todos estes anos, quase tudo mudou: Essas generosas leiras, de onde se arrancava parte da subsistência diária, estão agora transformadas em extensões de pinhais bravios onde apesar da beleza das amoras silvestres, que já começam a engordar e a pintar, os silvados são reis e senhores. Os carreiros, ainda vincados de outros tempos, são mais estreitos e submersos pela vegetação que cresce a seu belo prazer. Os regos sinuosos por onde passavam ligeiras as águas cantantes a caminho das regas, como veias caudalosas levando vida aos grossos e verdes milheirais, estão quase impraticáveis porque já ninguém os usa. As represas, esses regaços límpidos de águas de nascentes e minas, são uma pálida imagem de outros tempos e outras necessidades mas nelas ainda moram as rãs e sapos e à sombras da densa vegetação que as adornam, ainda namoram piscos, rouxinóis, pintassilgos, melros, gaios e pegas. Os moinhos, tocados pela força dessas abundantes águas, estão já em ruínas, sem telhados e esventrados na sua inutilidade e dá pena ver os rodízios podres pelo tempo, evocando outros dias e  noites em que incansáveis giravam afogados no infinito corropio da moagem dos consortes.

Mesmo assim, mesmo com toda esta dor de alma e de coração, faz-nos bem este regresso aos palcos da nossa meninice porque apesar desse entorpecimento e abandono das coisas e lugares, ainda é possível absorver muitas marcas de coisas imutáveis, como um velho muro, um velho carvalho, um aqueduto de água, a represa, o moinho, etç. Não é difícil adivinhar as mulheres a cantar pelos campos, alegres e distraídas; Ainda é possível sentir o cheiro morno da leiva da terra rasgada pela charrua puxada a bois nas frescas manhãs da Primavera na companhia das irrequietas alvéolas; Quase que sentimos o cheiro maduro das uvas e um mosto doce como banquete de abelhas e pássaros ou, mais cedo, uma aguarela de flores que hão-de brotar frutos.

Num desses sítios, um autêntico paraíso na terra, palco verde e fresco de uma sinfonia matinal de chilreios e de águas cantantes, estão já a decorrer obras de mais uma auto estrada, a A32 e tudo está já de pantanas e mesmo ao lado do velho moinho, onde tanta farinha vi nevar, mas agora em tristes ruínas, estão já a nascer pilares para um longo viaduto. É verdade que já não tem as frescas vides e sombras dos frondosos carvalhos e castanheiros como companhia, mas parace que vai descansar o resto dos dias á sombra do viaduto. Felizmente, mesmo à passagem do pogresso e dos caminhos de betão e asfalto, ainda há umas résteas de alguma sensibilidade e, sempre que se pode, preservam-se essas marcas de um tempo, de um povo e de um viver.

Já com o sol a brincar às escondidas por detrás dos pinhais do monte, volto costas e subo de regresso a casa, não muito longe, o que permite outros e constantes regressos, mas não deixo de pensar: – Meu Deus, o que te fizeram, vellhos sítios, o tempo e os homens!

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(clicar nas imagens para ampliar)

11/17/2009

A nossa casa – A casa do lavrador

 

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Hoje em dia , de um modo geral, as casas modernas são grandes, funcionais e confortáveis, mesmo que de apartamentos se fale. As novas técnicas de construção aliadas aos modernos materiais de construção e equipamentos tecnologicamente avançados, permitem de facto soluções de habitabilidade muito boas.

É claro que, infelizmente, ainda há muita gente a viver em velhas habitações, degradadas e nada funcionais e até mesmo em barracas, mas essa é uma realidade difícil de ser erradicada. Mas, apesar de tudo, muito se tem feito para a requalificação urbana e dignificação de quem habita nesses míseros espaços chamados habitações..

Seja como for, o que se pretende dizer, a propósito das páginas acima publicadas de dois antigos livros escolares, é o sentimento de carinho que de um modo geral temos para com as nossas casas, nomeadamente as casas de nossos pais e avós, as casas paternas, aquelas onde nascemos e crescemos.

Desde as mais simples e humildes às mais imponentes e magestosas, desde as da aldeia até às das vilas e cidades, todos nós temos ligações emocionais às nossas casas. No meu caso, nasci e cresci na casa de meus avôs paternos, herdada em parte pelo meu pai. É uma típica casa de lavrador (quase descrita nas páginas acima), com rés-do-chão e sobrado, como se chamava ao Andar e com cobertura com beiral de telha de canudo e com cornija. Na parte inferior existem compartimentos de arrumos, como a adega, a casa do lagar e no sobrado, a cozinha, sala e quartos e um amplo corredor, a que chamamos de varanda, com um renque de janelas viradas a nascente, a partir da qual se acede às restantes divisões. Paradoxalmente, sendo uma casa grande, não tinha casa de banho, mas sim uma simples retrete no logradouro da casa. Mais tarde, construímos de forma adjacente esse indispensável compartimento.

No logradouro, dispostas ao redor do chamado quinteiro, existem várias construções em pedra destinadas a currais do gado, galinheiros e ainda um tanque com água de nascente a cair dia e noite que abastece a casa e rega parte da quinta, coberto por ramada de videiras. Ao lado, o velho espigueiro onde descansa o resultado da colheita de milho. E claro, nas traves do alpendre, os ninhos de andorinha.

Hoje, na casa vive apenas a minha mãe mas semanalmente recebe sempre a visita dos vários filhos.

Claro está que muitas mais recordações podem ser associadas às nossas casas mas essas são pano para mangas de outras histórias e outras nostalgias.

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10/17/2009

Dia de parar o tempo

 

blog do dia viva hoje e sempre 

 

Vale o que vale, mas o interessante sítio “Viver hoje e sempre”, escolheu o Santa Nostalgia como o Blog do dia, no tema “Dia de parar o tempo”.

Este sítio, do Brasil, tem em cada dia do mês um tema diferente que é abordado em diferentes áreas, nomeadamente o cinema, a gastronomia, a música, etc.

Fica aqui o agradecimento pela escolha e deferência do nosso simples Blog.

Quanto ao tema em si, “Dia de parar o tempo”, não deixa de ser interessante. De facto todos nós, que já vamos avançados e avançando na idade e no tempo, temos uma necessidade emocional de voltar aos nossos tempos passados, nomeadamente aqueles momentos que por um ou outro motivo nos marcaram na nossa infância, e juventude. É claro que não se pretende parar o tempo porque essa é uma impossibilidade nossa, física e temporal, mas podemos, isso sim, viajar a qualquer momento às nossas mais ricas recordações e nostalgias, bastando, para isso, sonhar, mesmo que acordados.

Nós somos presente, e almejamos ser futuro, mas somos sobretudo o passado. É verdade que o passado é uma parte temporal que se perde a cada momento, mas também é ele que nos acompanha e estrutura. Quem ignorar o seu passado não estará em condições de compreender e valorizar o presente, porque este, amanhã já será novamente passado.

Ainda quanto à escolha do blog Santa Nostalgia, não deixa de ser sintomático ter sido feita por um sítio do Brasil, onde temos muitos visitantes. Neste aspecto sabemos que na nossa hortinha chamada Portugal o reconhecimento é uma colheita quase sempre tardia porque na nossa génese lusitana somos quase sempre ingratos e invejosos. Está-nos no sangue.

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9/30/2009

Outono – Cores quentes e nostalgias

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livro de leitura da segunda classe outono sn 01

Naquele que foi o meu livro de leitura da segunda classe, uma das características interessantes é que assinalava o começo das diversas estações do ano. Isso era feito com duas páginas ilustradas com as cores e elementos que caracterizavam cada uma dessas épocas do calendário do tempo. Tinha um bonito texto e uma música que se aprendia. Esse livro foi magnificamente ilustrado pela Maria Keil e pelo Luís Filipe Abreu, cujos estilos por vezes se confundem, mas creio que estas ilustrações a que me refiro são do pincel mágico do Luís.

Assim, e porque já estamos neste pleno período, trago à memória as páginas correspondentes ao Outono, com as suas cores quentes e brilhantes e alguns frutos lembrando o tempo de colheitas das coisas amadurecidas pelo Verão.

O Outono está fortemente associado ao tempo do início das aulas nos diferentes graus de ensino. Recuando no tempo e na minha memória, recordo-me do meu primeiro dia de escola e toda a expectativa e ansiedade que sentia, tanto no próprio dia como nos dias anteriores.

A minha primeira classe foi feita numa Escola Primária, localizada a 50 metros da casa de meus pais (idêntica à desta imagem mas apenas com um piso e por isso com duas salas). A partir da segunda classe e até à quarta, fui para uma outra escola, quase a estrear, pois tinha sido edificada há pouco tempo noutro lugar da freguesia (idêntica a esta).

Devido a essa proximidade, desde cedo observava com fascínio aquele ambiente de algazarra de crianças nas diversas brincadeira durante o recreio ou na entrada, silenciosa e disciplinada, para as duas salas. Este clima despertava em mim uma forte vontade de completar os 6 anitos para entrar e participar naquele mundo. Para além de todo este ambiente, que me era próximo, como disse, tinha um motivo acrescido que era o de desejar aprender para passar a ler e a compreender eu próprio as histórias e as lições que já via fascinado nos livros do meu irmão mais velho, então já na segunda classe a quem insistentemente pedia para me ler.

Por outro lado, o Outono significava já o tempo frio, com chuvas, ventos e geadas. Era, pois, imperioso o uso de roupas mais quentes, incluindo cachecóis e gorros. O tipo de escola que frequentei na primeira classe tinha uma lareira para aquecimento nos dias mais frios mas a verdade é que, por questões logísticas (nessa altura não havia pessoal auxiliar), nunca me recordo de ter funcionado. Por isso, as mãozitas tinham que se valer de luvas de malha (para os mais ricos) ou umas peúgas que se enfiavam. Outro estratagema, era trazer de casa uma pedra ou uma cunha de ferro aquecidas no lume e embrulhadas em papel de jornal, funcionando assim, por pouco tempo, é certo, como um aquecedor portátil.

Por vezes, no recreio, que se estendia para um largo terreiro adjacente à escola, a criançada fazia fogueiras com gravetos que colhia no pinhal próximo.

Por tudo isto, são sempre fortes e nostálgicas as recordações do tempo que passamos na escola primária. Certamente que voltaremos a estas memórias que não são apenas minhas mas de todos nós que já passamos sobre essa fase da nossa vida.

9/18/2009

Rical – Sem corantes nem conservantes



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Quem não se recorda dos saborosos sumos da Rical? Recordo-me que no meu tempo de criança e adolescente era uma das boas marcas e de certa forma era uma boa alternativa ao também mítico e popular Sumol bem como ao também popular Frisumo, que apareceu no mercado em 1971, tornando-se um rei de vendas dos refrigerantes. É claro que me recordo sobremaneira de outras populares marcas de bebidas, que a seu tempo trarei à memória, mas a Rical é uma delas, já com o popular slogan "sem corantes nem conservantes".

Com os meus catorze anitos, juntamente com os colegas mais próximos, aos domingos à tarde, principalmente no Verão, íamos a uma das tascas da aldeia merendar. Quase sempre um cartucho de amendoins torrados, ou um punhado de azeitonas, acompanhados com um Sumol de laranja ou um Rical, também de laranja. Pessoalmente preferia o Rical pois dizia que era à Benfica, isto pela cor do rótulo. Os rótulos nas garrafas daquele tempo eram quase sempre pintados pelo que ainda hoje se encontram em bom estado garrafas de algumas míticas marcas de refrigerantes, gasosas e águas.

A bebida era produzida pela Rical - Fábrica de Refrigerantes e Águas, L.da, de Santarém. Ainda nos anos 70, concretamente em 1977, a empresa foi integrada na Unicer. A marca foi relançada em 1995, aparecendo com uma nova imagem.

9/10/2009

Tempo de vindimas

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Este delicioso texto referente às vindimas, bem como a magnífica ilustração, faz parte do inesquecível livro de leitura da terceira classe do meu tempo.
De facto, quem já teve oportunidade de viver e trabalhar nas vindimas, de norte a sul do país, sabe que assim é.

Hoje em dia as vindimas e a decorrente produção do vinho, têm uma forte componente de trabalho mecanizado, tanto na apanha da uva como no transporte, como em todo o restante processo, desde o esmagamento até à sua passagem para o armazenamento. Por conseguinte, a mão-de-obra humana e animal é cada vez menos preponderante.

Noutros tempos, porém, todo o processo era fundamentalmente manual pelo que o envolvimento de bandos de homens e mulheres resultava sempre em jornadas de alegria, tanto na apanha como na tradicional pisa.

Na minha aldeia produzia-se vinho verde, mas na variedade chamada "americano" ou "morangueiro". Outrora muito apreciado em tascas e tabernas, mesmo da zona do Porto e Gaia, mas, fora alguns nichos de mercado, era um vinho comercialmente pobre, pelo que era produzido principalmente para clientes mais ou menos locais e também para consumo do dia-a-dia. O tinto era agradável mas de baixo teor alcoólico pelo que não permitia engarrafamento longo. Já o branco, mais forte, permitia um engarrafamento mais longo, mas sempre arriscado. Para o fortalecimento do vinho, era habitual a sua mistura com uvas de castas características do vinho verde, bem mais encorpado.

Fora esta característica, todo o processo que englobava a vinha e a vindima, era em tudo semelhante às grandes regiões vinícolas, como o Alto Douro, Dão ou Alentejo ou até com a região do Vinho Verde, no Minho, tendo aqui muitas semelhanças.

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Ao contrário dos vinhos maduros, caracterizados por cepas ou vides de espécie baixa, o vinho verde, principalmente americano, era cultivado em altas latadas com estrutura de vigas de ferro e arame assente em esteios de granito ou mesmo em ramadas verticais. Contrariamente às vinhas tradicionais, estendidas por todo o terreno, o vinho verde na minha região era cultivado principalmente nas bordas e cômoros dos campos, sendo reservado o miolo a culturas de subsistências como o milho, batata, feijão e centeio. Por conseguinte, o cultivo e produção de vinho na minha aldeia, salvo raros exemplos, era uma actividade complementar de pequeno lavrador, proprietário ou caseiro (arrendatário).

As videiras cultivadas nas bordas dos campos, frequentemente eram estendidas pelas árvores, vulgarmente choupos, pelo que na hora de vindimar era necessário um escadote muito alto e exigia muita ginástica e, naturalmente, envolvia algum risco.

Em todo este contexto, os meus pais cultivavam bastante vinha, pelo que nesta altura do ano a vindima e preparação do vinho era um trabalho de canseiras, sacrifícios, de manhã bem cedo até altas horas da noite, mas sempre com alegria.

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- Característica latada de vinho "americano" da minha região

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- Ramada vertical com desenvolvimento através das árvores

Primeiramente a vindima propriamente dita, era realizada com as pessoas distribuídas ao longo das latadas e ramadas, com uma equipa apanhando as uvas mais baixas e outra equipa, munida de escadas e escadotes, apanhando nas partes altas. Usava-se uns cestos de verga ou vime, a que chamámos canistréis e depois de cheios eram vazados em jigas, também de verga, ou então, mais no tarde, em sacos plásticos, aproveitados das embalagens de adubos ou rações para o gado. Depois deste processo, porque os campos eram mais ou menos distantes dos povoados, era necessário fazer o transporte, quase sempre em carro de bois (o meu pai teve uma junta de bois amarelos durante vários anos) mas muitas vezes transportava-se as jigas à cabeça ou os sacos às costas. Trabalho muito duro, porque tinha que ser repetido várias vezes, por caminhos francos e quase sempre a subir, porque os campos, as leiras, as ribeiras e as várzeas, localizavam-se quase sempre nas zonas baixas da aldeia.

À noite, já com o lagar cheio, eu, o meu pai e os meus irmãos, despojados das calças, apenas em cuecas, saltávamos para o lagar para a pisa das uvas, tarefa que normalmente durava duas a quatro horas. O vinho tinto, exigia mais tempo. Com o avançar dos anos adquirimos uma esmagadeira manual, com um sistema de rodas dentadas accionadas por uma manivela e assim realizava-se um pré-esmagamento, pelo que a tarefa da pisa era facilitada.

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No final, depois de lavadas as pernas, estas eram esfregadas com álcool ou aguardente. Mas era certo que nos dias seguintes, a comichão nas pernas era desesperante.
De seguida, depois de fermentada a mistura, procedia-se ao vazamento do vinho para pipos de madeira de castanho ou carvalho. A parte sobrante, chamada bagaço, era transportada para a prensa, normalmente localizada ao lado do lagar. No caso dos meus pais, como a prensa era muito antiga e exigia muito esforço, pois era com um sistema de braço horizontal, com duas pontas, girando em torno de um eixo vertical roscado, o bagaço era transportado em carrinho de mão para a prensa do meu avõ, que já estava dotada com um mecanismo de cunhas ou linguetas, pelo que o movimento da alavanca era de vai-e-vem, exigindo menos esforço. Actualmente as prensas são quase todas hidráulicas, assegurando um trabalho eficaz quase sem esforço.

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- Uva "americana" tinto

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- Uva "americana" branco

A partir do bagaço era aproveitado muito vinho que era colocado nos pipos a decantar. O último vinho aproveitado, era designado de água-pé e que era servido no final das esfolhadas de milho ou nos magustos de S.Martinho.
Convém referir, que no processo de prensagem, o bagaço era revolvido várias vezes, para um aproveitamento máximo.
Quando o bagaço já estava quase seco, era arrancado às postas da presa e esfarelado em jigas, seguindo de seguida para os alambiques da região, para produzirem a famosa aguardente de bagaço americano. Esta aguardente é das mais apreciadas nas tascas da região. Recordo-me de ir várias vezes com o meu pai transportar o bagaço em carro de bois ao alambique da aldeia vizinha. A aguardente produzida, era guardada em garrafões de cinco litros, de vidro, empalhados, por sua vez acondicionados vários anos na fria e escura adega ou casa-do-vinho, como era designada na minha região. Para consumo da casa, vazava-se em garrafas de um litro.

A aguardente, para além do tradicional "mata-bicho", tanto em jejum como depois das refeições, tinha utilidade em diversas situações: Servia para esfregar o rosto depois de barbeado, para bochechar a boca quando doía os dentes, para temperos, especialmente de cabrito e coelho e servia também para vários remédios a aplicar no gado.
O bagaço, depois de extraída a aguardente, servia para estrumar os campos.
Depois de concluído todo este processo, lá mais para o final do ano, o ciclo do cultivo recomeçava com a época das podas e manutenção das latadas e ramadas. Mais tarde o tratamento com sulfato e monda dos rebentos chamados de "ladrões". Depois, pelo S. Tiago, quando já pinta o bago, já se adivinha nova vindima, lá para o final do Verão. É este o ciclo da vinha, da vindima e do vinho.

As vindimas, ainda hoje são transmitidas como uma imagem bucólica e alegre, mas na realidade, no meu tempo de criança, englobava tarefas muito duras e exigentes. Era um processo de várias etapas, todas elas comportando muito esforço. Mas, é claro, não havia trabalho do campo que não estivesse imbuído de uma sã alegria. Essa alegria era manifestada essencialmente no dia-a-dia quando de forma gratificante se usufruía desses esforços e canseiras, nomeadamente às refeições e em dias festivos. O vinho sempre omnipresente. Em cada trago valorizava-se o esforço antes despendido para o produzir a trazer até ali, à caneca, ao alcance do copo e da boca.

8/24/2009

Cruzada - Revista Eucarística


 cruzada julho 1965 sn

cruzada abril 1990 sn

cruzada maio 1998 sn

cruzada julho 2001 sn

cruzada maio 2007 sn

cruzada maio 2008 sn

cruzada janeiro 2009 sn

cruzada maio 2009 sn

Este artigo foi motivado pela capa da edição de Julho de 1965 da revista CRUZADA (imagem de cima), onde é retratado o Papa Paulo VI. Com ela veio-me à memória a sua visita a Portugal e ao Santuário de Fátima, em 13 de Maio de 1967, por ocasião do 50º aniversário sobre a data das aparições.
Na altura o evento mereceu a transmissão em directo pela RTP, a preto-e-branco, um marco histórico para a televisão portuguesa. Desde a saída de Roma, a aterragem em Monte Real e a chegada ao santuário, com passagem por Leiria, o acontecimento mereceu por parte da jovem estação de televisão (10 anos) um envolvimento grandioso para a época, com 150 profissionais, 6 carros de reportagem, 5 equipas e 19 câmaras (10 em Fátima) e dois helicópteros. A RTP teve a ajuda de meios técnicos emprestados pelas televisões italiana, francesa e espanhola. A visita mereceu ainda 5 horas de transmissão pela rede da Eurovisão. Os Estados Unidos, Canadá, México e Brasil também receberam imagens deste acontecimento.
Lembro-me que o meu avô materno era das poucas pessoas da freguesia a terem um televisor pelo que toda a gente da aldeia apinhou-se defronte do aparelho Telefunken que foi colocado à porta da sala, virado para o exterior. Era uma autêntica plateia digna de uma sala de espectáculos. Meu Deus, quanto tempo já passou...

Quanto à revista CRUZADA:

Fundada em 1930, é uma revista mensal, ilustrada, com 32 páginas. Tem como finalidade principal a difusão da doutrina da Igreja Católica, na fidelidade aos ensinamentos do Magistério, e o incremento e evangelização da piedade popular.
Pensada, inicialmente, para as crianças e jovens, acabou por fazer sucesso junto de leitores de todas as idades. A confirmá-lo está a tiragem mensal (90.000 exemplares), que faz desta revista um dos órgãos de comunicação da Igreja Católica em Portugal com maior difusão. Está presente junto dos emigrantes portugueses, tendo assinantes em 82 países.
Mantém desde há longos anos uma secção mensal – Testemunhos Vivos – destinada a publicar cartas de leitores que testemunham o poder da fé e da confiança em Deus, nas mais diversas e, por vezes, dramáticas circunstâncias.
Outra secção mensal intitula-se Perguntas com Resposta e destina-se a esclarecer dúvidas, no âmbito da fé, da moral e da religião, na fidelidade ao Magistério da Igreja Católica.


(fonte: AO)

8/21/2009

Sabonete Feno de Portugal - Os aromas da natureza


O sabonete FENO DE PORTUGAL é daqueles produtos que jamais se esquecem. Neste caso pela particularidade do nome, é certo, mas também pelo bucolismo que foi transmitido nos anos 80 pelo spot publicitário televisivo onde a jovem loura (do cartaz) esvoaçava graciosamente por entre um campo de feno, por entre flores, cores e aromas. Toda ela era leveza e transparência pelo que a imagem relacionada com os aromas e encantos da natureza foi muito bem conseguida e transmitida.
Nessa altura o slogan era "Feno de Portugal, o encanto da natureza". Penso que na actualidade é ligeiramente diferente, qualquer coisa como "Feno de Portugal, o aroma da natureza".

Este produto existe há várias décadas, pelo que pode ser considerado um artigo de tradição e nostalgia. Na sua origem era uma marca da Unisol, por sua vez pertencente ao grupo Quimigal, S.A. A Unisol foi adquirida em 1990 pela multi-nacional Colgate-Palmolive herdando assim a marca Feno de Portugal e outras bem populares como o lava-loiça Super POP, a lixívia Javisol e os artigos de higiene pessoal Festa e Vert Sauvage. Não tenho visto o Feno de Portugal nos locais habituais das minhas compras, mas ainda é fabricado e comercializado.

Ao longo dos tempos o grafismo do rótulo tem mudado mas creio que o aroma característico se tem mantido.
Pessoalmente, nunca fui muito de sabonetes, mas recordo-me que em adolescente era o meu sabonete preferido. Por isso, ainda hoje basta semi-cerrar os olhos e o aroma salta à memória bem como o momento em que acabava de sair do banho e vestia uma camisa ou uma t´shirt.
Os aromas têm de facto essa capacidade fantástica de ficarem retidos na nossa memória, principalmente aqueles que definimos como os mais característicos ou que de algum modo marcaram o nosso dia-a-dia, seja nos momentos do trabalho, da escola ou do lazer. Por isso, toda a nossa vida é assim um repositório de cheiros, perfumes e aromas, passe a redundância dos sinónimos.

Como disse, o nosso dia-a-dia está rodeado de cheiros e através do sentido do olfacto aprendemos a distingui-los, a diferenciá-los; os agradáveis e os desagradáveis; os intensos e os suaves; mas a nossa memória e a percepção dos aromas é tanto mais forte quanto a importância que damos ou guardamos das coisas, dos momentos e dos lugares relacionados.

Quem não tem presente o cheiro a bronzeador de coco nas quentes tardes de Verão na praia, ou o cheiro a mar ou maresia pela manhã? Que tal o cheiro agradável de um copo de leite com café ou uma cevada ou chocolate quentes, a fumegar? Em casa, o cheiro agradável de um refugado ou de um assado acabado de sair do forno? No jardim, o perfume a rosas e cravos ou ervilhas-de-cheiro? E as belas-donas, agora no final de Agosto, ou mesmo as açucenas? Ou até mesmo o cheiro a relva acabada de cortar pela manhã, com mistura de cidreira, hortelã e menta? Claro que no mundo das flores os perfumes são imensos e inconfundíveis. E na escola primária, o cheiro a lápis de cor acabados de afiar e o aroma fresco dos livros novos?

Em casa, nas limpezas, o cheiro fresco a sabão Clarim, da cera de soalho ou do detergente OMO ou JUÁ ou ainda do aroma intenso da lixívia ou do petróleo? No campo, o cheiro fresco que se respira entre os milheirais orvalhados, ou o cheiro morno da terra acabada de lavrar? O aorma a uvas frescas ou acabadas de pisar no lagar? No pinhal, o perfume do eucalipto ou dos pinheiros bravos, resinosos, acabados de abater? O aroma inconfundível de um bom vinho tinto, o cheiro a leite-creme acabado de queimar, o aroma de vinho quente com canela (champarrião) ou a fragrância das castanhas assadas ainda a escaldar? O aroma das sardinhas assadas com pimentos, de um bife grelhado e do pão de milho acabado de saír do forno, ou mesmo um pão de trigo bem quentinho barrado de manteiga? Hummmmm.

Chega como amostra, porque é verdade que cada pessoa tem na memória os seus frasquinhos de aromas. Basta destapá-los, semi-cerrar os olhos e viajar pelo mundo das coisas, momentos e lugares.
Por mim, porque ainda de férias, estou mesmo de saída para almoçar num restaurante onde a vitela arouquesa no espeto, acompanhada de arroz de feijão em panela de barro, vão libertar agradáveis aromas.

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