[Nota: Artigo em reposição, publicado no Santa Nostalgia há dez anos, em 29/05/2009]
5/29/2019
Erva de S. Roberto
[Nota: Artigo em reposição, publicado no Santa Nostalgia há dez anos, em 29/05/2009]
7/26/2011
Sachas e merendas
Como se disse, era um trabalho de paciência e moroso. Era simultaneamente duro, pois exigia uma posição de costas vergadas e quase sempre debaixo do sol tórrido. Pelas suas características, era uma tarefa que envolvia várias pessoas, da casa e da família, mas também de vizinhos que vinham ajudar ou mesmo de jornaleiros (a quem se pagava a jorna combinada, no final do dia).
A merenda quase sempre era pouco substancial: Broa de milho, vinho da casa, azeitonas, cerejas se as houvesse e alguma fruta, tudo produção da casa. Se o proprietário fosse pessoa de posses, então a coisa podia ser quase uma refeição, com uma panela de arroz, umas iscas de bacalhau frito ou até mesmo uma galinha caseira estufada.
Logo depois da merenda, com as forças e os ânimos restabelecidos, toca a pegar nas enxadas com as mãos calejadas e voltar para debaixo do sol e da poeira e cavar e mais cavar.
Sempre se disse que o trabalho dignifica a pessoa humana. Assim é, mas convenhamos que hoje os tempos assentam numa filosofia bem diferente. Mesmo com as naturais excepções, a regra é procurar levar a vida sem trabalho, sem canseiras e responsabilidades e foge-se dele como o diabo da cruz. Procura-se emprego mas não trabalho. Mesmo com a crise e com níveis absurdos de desemprego, ainda há quem prefira a mama do subsídio ou do apoio a ter que enfrentar o trabalho diário.
3/24/2011
Carros tradicionais portugueses
Hoje em dia ainda é utilizado mas apenas em meios rurais interiorizados, em aldeias com difíceis acessos, servidas por caminhos estreitos e sinuosos, onde o tractor não chega. Mesmo assim já serão raros os exemplares que sobrevivem.
Todavia, até há cerca de duas décadas atrás, mesmo já com a vulgarização do tractor, que susbtituiu em rapidez e eficiência muitas das tarefas do campo e da floresta, o carro-de-bois era um elemento vulgar na maior parte das localidades rurais.
Em Portugal, para além da utilização do boi como animal de eleição, pelo seu bom trato, força e corpulência, e quase sempre em parelha ou junta, em algumas regiões do país, sobretudo na metade sul, como Ribatejo, Alentejo e Algarve, utilizava-se com regularidade o carro para um único animal, com frequência um cavalo, mula ou burro, situação bem mais rara na metade norte.
Extraídas de uma colecção de carteiras de fósforos, fica aqui um grupo de ilustrações de alguns carros tradicionais, representando várias províncias portuguesas, do Minho ao Algarve, passando pela Madeira e Açores.
1/19/2011
8/04/2010
Broa de milho
Faz habitualmente parte das nossas refeições, mas é consumido de forma automática, sem sequer percebermos toda a lida que esteve por trás da sua confecção, ainda que em padarias modernas e automatizadas.
Mas nem sempre foi assim. Noutros tempos, principalmente em ambientes de aldeia, o pão para consumo durante a semana era confeccionado e cozido na própria casa.
Reavivando as memórias do meu tempo de criança, recordo que em casa dos meus pais, a exemplo de muitas outras famílias, existia o tradicional forno onde semanalmente, todas as quartas-feiras, a minha mãe reservava a parte da manhã para cozer o pão.
Para isso existia um móvel em madeira, designado de masseira, onde a farinha misturada com a água era amassada à força de braços e mãos.
O processo principiava na véspera, com a moagem de um saco de farinha no moinho de água, propriedade da família. Depois a farinha deveria ser bem peneirada.
À mistura de farinha e água quente era acrescentado o fermento, chamado de crescente, que era um pouco de massa guardada da anterior amassadura. Este fermento era indispensável à levedura da massa.
Depois de preparada a massa, esta era aconchegada num dos cantos da masseira. Era feita uma cruz em baixo relevo, com o topo inferior da mão e no meio da cruz era espetada uma cebola crua, que permitia acelerar a levedura.
Depois era feita a tradicional benção. A minha mão rezava assim:
S. Vicente te acrescente,
S. Mamede te levede e
S. João de te faça pão.
Amem.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo:
S. Vicente te acrescente e
S. João de te faça pão.Deus de acrescente
Dento de forno,
E fora do forno
E a quem te comer.São Vicente te acrescente
São Romão te faça pão
O Senhor te ponha a virtude
De mim fiz eu o que pude.S. Vicente te acrescente,
S. Humberto te levede,
S. João te faça pão,
Para comer e p'ra dar.
Deus te queira acrescentar.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Reza-se então um Padre Nosso e Avé Maria.S. Vicente te acrescente,
S. Mamede te levede,
S. João te faça pão,
E Deus Nosso Senhor te deite
Sua divina benção.
O Senhor te acrescente,
E te queira acrescentar,
Para comer e mais para dar.
Em nome do Pai, do Filho
E do Espírito Santo, Amén.S. João levede o pão
S. Vicente te acrescente
Sta. Marinha levede a beijinha
Em honra de Deus e da Virgem Maria
Um Pai-Nosso com uma Avé MariaS. Vicente te acrescente,
S. Sebastião te faça bom pão e
Deus te cubra de divina bênção.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.São Vicente te acrescente,
Sã Mamede te levede,
E todas as almas santas
Te ponham a sua virtude.
São João te faça pão,
Com a graça de Deus e da Virgem Maria.
Cresça ó pão no forno
E o bem pelo mundo todo.
Nós a comer e ele a crescer,
Que não possamos vencer,
P’rá minha alma quando for
O eterno descanso, Senhor.Para a massa levedar
S. Vicente te acrescente
S. João te faça pão.
Em louvor da Virgem Maria
Um Padre-nosso e uma Avé Maria.
Quando a massa se mete no forno
(com a pá faz-se uma cruz)
Cresce o pão no forno.
Ele a crescer
Nós a comer
Nunca o poderemos vencer.Deus que te levede
Deus que t’acrescente
Com a graça de Deus e da Virgem Maria
Um Pai-Nosso e uma Avé-Maria
S. Mamede te levede
S. Vicente t’acrescente,
S. João de ti faça bom pão,
Deus te ponha a virtude
Que da minha parte fiz tudo que pude.
Um Pai-Nosso e uma Avé-Maria.
O Senhor te levede
S. Pedro te acrescente
E o Senhor te faça pão
Com o poder da Virgem Maria
Um Pai-Nosso e uma Avé-Maria
IV
S. Vicente t’acrescente,
S. Mamede te faça pão,
Em louvor de Santiago
Não fiques nem insosso nem salgado
São João te faça pão,
S. Mamede te levede,
S. Vicente t’acrescente
Em louvor de Deus e da Virgem Maria
Um Pai-Nosso e uma Avé-Maria.
S. Crescente t’acrescente
S. Mamede t’alevede
S. João te faça pão
E Deus te cubra de benção
VII
S. João te levede
S. João t’acrescente
S. João te faça pão
Pelo poder de Deus e da Virgem Maria
Um Pai-Nosso e uma Avé-Maria.
Quando a massa estivesse preparada, o forno era limpo dos resíduos da fogueira e varrida a cinza.
Depois, em cima de uma pá de madeira, era colocada uma camada de farinha fina e sobre ela era colocada uma porção de massa, entretanto preparada em forma de bola. Uma vez na pá era ligeiramente moldada de forma a ficar com uma base plana. Depois de assim preparada era introduzida no forno. Este processo era repetido de acordo com a quantidade de broas. Normalmente a minha mão cozia quatro a cinco broas.
Importa dizer que, antes da entrada no forno da broas, eram cozidos de forma rápida os bolos, um pão em forma circular, achatados, com uma espessura de cerca de 2 a 3 centímetros a que algumas vezes eram revestidos superiormente com sardinhas ou carne. Para mim e para os meus irmãos, a minha mão habitualmente preparava uns bolos de tamanho pequeno (os bolinhos), talvez com cerca de 10 centímetros de diâmetro e também os chamados picões, que eram redondos e pontiagudos nas pontas.
Depois destas cozeduras rápidas, então eram colocadas as broas, cobertas com uma camada de farinha, para melhor formar a côdea (parte dura da superfície superior da broa) e fechado o forno. A maior parte dos fornos não tinham porta com sistema de fecho pelo que era necessário vedar a porta, sendo para isso utilizado o resto da massa. Isto em minha casa, pelo que em tempos de maior crise, para não se desperdiçar a massa, era utilizado barro. Havia até quem utilizasse uma mistura de terra com bosta de vaca que pela quantidade de fibras era adequada à consistência da massa de vedar.
Uma vez fechada e vedada a porta do forno, esta era benzida com o Sinal da Cruz, feito com a pá. Estava terminada a tarefa pelo que restava aguardar uma a duas horas, conforme o tamanho do forno, a sua capacidade de aquecimento e da quantidade de broas.
Um dos momentos mais apetecidos era o da abertura do forno, pelo qual saía uma bafarada quente com aroma a pão quente. Só isso confortava a alma pelo que a barriga só depois de arrancado um naco de broa. Era conveniente, contudo, deixar arrefecer um pouco pois o ditado popular dizia que "Pão quente, diabo no ventre", o que significa que é perigoso comer pão muito quente.
As broas já cozidas eram retiradas com uma outra pá, esta em chapa de ferro, própria para se introduzir debaixo da broa para facilitar a sua remoção.
O pão então era colocado numa caixa de madeira e coberto e assim serviria para a companhar as refeições durante toda a semana. Claro que também servia de petisco fora das refeições, acompanhando uma mão-cheia de azeitonas, também da casa ou um pouco de salpicão de lavrador.
Com o avançar dos anos, estas práticas deixaram de ter lugar na maioria das famílias e já mesmo na aldeia são raros os exemplos deste tipo de confecção caseira. Claro que ainda subsistem, principalmente em aldeias do interior, ainda muito dependentes de uma agricultura de subsistência, mas são uma espécie em vias de extinção. Na minha aldeia ainda há pelo menos duas casas que produzem semanalmente a broa de milho caseira, seguindo praticamente os métodos artesanais de tempos antigos, mas já com uma vertente comercial. Mesmo assim, fazem com que ainda se coma broa de milho à moda dos nossos avós, dando um melhor acompanhamento a certas comidas, nomeadamente uma sardinha assada ou uns bons rojões caseiros.
4/04/2010
Dia de Páscoa
(clicar na imagem para ampliar)
3/09/2010
Vestuário – Roupas dos anos 60 - XV
2/05/2010
10/02/2009
9/10/2009
Tempo de vindimas
9/01/2009
Vestuário - roupas dos anos 60 - 12
7/27/2009
Lua - Quarto-Crescente
(clicar nas imagens para ampliar)
Hoje fotografei a Lua. Neste momento está quase na fase de Quarto-Crescente, portanto a caminho de Lua Cheia, o que acontecerá no dia 5 de Agosto. Se o tempo o permitir, espero então fazer a fotografia da sua luminosidade plena, tanto mais que o luar de Agosto, a par do de Janeiro, é considerado dos mais luminosos.
A Lua sempre esteve muito presente na cultura e tradições populares, desde tempos imemoriais, já para não falar na sua influência religiosa em antigas civilizações.
Ainda hoje as pessoas ligadas à terra têm muito em conta as fases da Lua, determinando estas os períodos ideais para as sementeiras e colheitas e até para a matança de alguns animais, como o porco. Por outro lado, determinam as condições climatéricas em função do estado da Lua num determinado momento, caso onde se aplica, por exemplo, o ditado: Lua Nova trovejada, 30 dias é molhada.
A verdade é que, apesar de haver quem não veja nisso mais do que meras superstições e crenças, estes ditados, usos e costumes resultam de uma sabedoria transmitida ao longo de gerações, fruto de testemunhos e observações do tempo.
Neste contexto de tradição e sabedoria secular, deixo aqui uma breve lista de alguns ditados populares relacionados com a Lua. Alguns são conhecidos meus e usuais na minha região, outros foram "pescados" na Web. Certamente muitos mais haverá.
Luar deitado, marinheiro de pé.
Lua Nova trovejada, 30 dias é molhada.
Não há luar como o de Janeiro nem sol como o de Agosto.
Luar de Janeiro não tem parceiro.
Luar de Janeiro não tem parceiro mas o de Agosto sabe-lhe o gosto.
Ao luar de Janeiro se conta o dinheiro.
Não há luar como o de Janeiro nem amor como o primeiro.
Luar de Janeiro ilumina o terreiro.
Luar de Janeiro poupa vela no telheiro.
Ao luar de Janeiro, descansa o candeeiro.
Luar de Janeiro no caminho é companheiro.
Luar de Janeiro é o sol depois de posto.
Não há entrudo sem Lua Nova nem Páscoa sem Lua Cheia.
Em Janeiro o luar não é bom p´ra namorar.
Lua Nova de Agosto tapada, Lua Lua Nova de Outubro será trovejada.
Luar de Janeiro à porta, vê-se o carreiro p´ra horta.
No luar de Janeiro a galhinha tarda ao poleiro.
Luar de Janeiro é claro como o carneiro mas lá vem o de Agosto que dá-lhe no rosto.
A Lua é uma desavergonhada: Quando nova, anda de quarto em quarto e depois aparece cheia.
Festas e romarias – A procissão
(páginas do “Livro de leitura da primeira classe” - clicar nas imagens para ampliar)
Será já no próximo fim-de-semana a festa anual da minha aldeia. Como manda a antiga tradição, é o primeiro Domingo do mês de Agosto a determinar a data. Tempos houve em que a festa se resumia ao dia de Domingo, mas já há bastantes anos que se prolonga de Sábado a Segunda-Feira e mais recentemente foi-lhe acrescentada a Sexta-Feira.
A festa da minha aldeia na actualidade é idêntica a muitas outras que ocorrem por estes meses de Verão em quase todas as aldeias deste nosso Portugal. Desde as mais humildes e discretas até às mais populares, extravagantes e despesistas, há-as para todos os gostos e em todos os recantos, desde o Minho ao Algarve, desde o Litoral até ao Interior, não esquecendo, naturalmente, os Açores e a Madeira.
Actualmente estas festas e romarias continuam a ser diferenciadas principalmente pelas dimensões e respectivos orçamentos, quase sempre desmesurados, mas no resto uniformizaram-se nas suas características. A componente religiosa, quase sempre a génese das mesmas, como a devoção ao santo ou à santa, o pagamento de votos, promessas e orações, há muito que tem sido relegada para um plano secundário e meramente formalista. Em contraponto, ganhou predominância o lado profano, com vastos programas musicais, onde predomina o brejeirismo “pimba” e elementos de diversão. Assim, não há festa popular que se preze que não conste no seu cartaz alguns cantores da nossa praça, a banda de música de baile, o seu parque de diversões, com pistas e carrocéis, as roullotes das farturas e bifanas e as tendas dos chineses, africanos e marroquinos, à mistura com as barracas de fruta, brinquedos, calçado e roupa.
Depois, barulho, muito barulho, numa profusão e mistura de sons.
As partes religiosas habitualmente constam de missa solene, em honra do santo ou santa da terra, com pregador encomendado fora da terra e depois a procissão, mais ou menos solene, acompanhada habitualmente pela banda filarmónica.
Apesar de tudo, nomeadamente desta generalização imposta pelos conceitos consumistas da aldeia global, felizmente ainda há tradições, traços e características muito próprias que se vão mantendo em muitas dessas romarias. São raros os exemplos, é certo, mas principalmente no interior, ainda subsistem romarias muito genuínas com as tradições ainda muito vivas. No caso da festa da minha aldeia, digamos que as coisas já foram mais genuínas mas ainda há aspectos que preservam costumes bem antigos.
De todas essas tradições, a procissão solene apresenta-se como elemento comum em quase todas as romarias mas infelizmente também já muito adulterado. Já quase ninguém se ajoelha à passagem do Santíssimo, já quase não há colchas coloridas e bordadas nos parapeitos das janelas ao longo do percurso atapetado de grafismos com flores. Os andores continuam lá, é certo, mas a devoção escasseia. Outrora estes eram enfeitados com as flores da época (rosas, cravos, agapantes, etc), de forma modesta mas condizente com a simplicidade e ascetismo da vida terrena dos santos. Hoje em dia o luxo e a vaidade chegaram aos andores, com lojas de floristas competindo entre si numa extravagância despropositada de modelos e flores exôticas importadas, à mistura com outros elementos decorativos nada adequados.
Vai longe o tempo da procissão genuína, aquela dos versos de António Lopes Ribeiro, cantada (ou dita) pelo João Villaret ou a pintada pela sublime arte de José Malhoa. A procissão transformou-se, assim, em mais um elemento alegórico feito essencialmente para a vista, para os olhos, e menos, muito menos, para a alma, para o espírito. Sinais dos tempos.
Tocam os sinos na torre da Igreja…
Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia, que Deus a proteja,
Vai passando a procissão.
Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o so-li-dó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.
Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.
Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!
Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!
Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!
Com o calor, o Prior vai aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!
7/15/2009
Água da fonte – Viagens pelos livros escolares - 14
Actualmente, mesmo em muitas aldeias do interior, a água canalizada já chega com todo o comodismo às torneiras das casas. Mas nem sempre foi assim: Noutros tempos, o abastecimento público de água era um privilégio das cidades e vilas e nem todas. Por conseguinte, as fontes e poços tinham uma importância extrema no fornecimento de água às populações, tanto para consumo como para rega.
No tempo do Estado Novo, a construção de um lavadouro público, quase sempre ao lado de um fontenário, era uma obra deveras importante para as populações locais. Neste contexto, na minha aldeia, que até é pequena, existem pelo menos 6 desses equipamentos, quase todos construídos no início dos anos 60.
Com o tempo foram perdendo importância pelo que a utilização do lavadouro é já muito esporádica. As fontes continuam a funcionar, é certo, mas pouco aproveitadas, até porque a água que brota nalgumas delas estão consideradas impróprias para consumo. Dizem que estas análises oficiais têm uma estratégia de obrigar as pessoas a solicitarem o abastecimento de água pela rede pública, que no caso já serve toda a freguesia. Será?
Actualmente, na minha freguesia e nas vizinhas, e isto deve ser uma tendência generalizada, é frequente as pessoas virem com uma carrada de garrafões abastecerem-se de água junto das fontes mais populares. É uma forma de pouparem no consumo da companhia mas também porque a água natural é de facto melhor.
Na casa de meus pais sempre existiu uma fonte de água permanente, entubada a partir de um monte próximo, percorrendo cerca de mil metros desde a mina de origem. Ainda hoje é dessa fonte que se abastece a casa.
Acresce dizer que essa água a partir da origem é distribuída em partes semelhantes por mais quatro proprietários ou consortes, como se diz por aqui. A divisão é realizada numa caixa central.
Por conseguinte, em criança nunca tive muito trabalho a água mas a minha mãe narra-me histórias em que ela, quando criança, tinha como uma das tarefas deslocar-se a uma fonte distante, várias vezes ao dia, transportando água num caneco de madeira. Tempos difíceis.
Apesar, de como se disse no início do texto, a água canalizada já chegar a muitas aldeias, mesmo interiores, também é verdade que em muitas outras, o acesso e utilização da água é igual ao de outros tempos, com recurso a fontes e a nascentes, sendo necessário o transporte quase diário.
Os povos antigos tinham uma notável capacidade de aproveitamento da água. Na minha aldeia existem inúmeras represas (presas como por aqui se diz), minas, charcos e poços, para além das fontes naturais. Era notável o sistema de transporte por gravidade, usando-se os canais chamados regos, que em muitos casos percorrem enormes distâncias, desde a origem até aos campos.
O uso dessas águas e desses sistemas, era quase sempre comunitário ou de grupos de consortes. Nalgumas zonas existem mesmo associações de utilizadores de água para o uso de regas. Nesses antigos sistemas, a sua manutenção competia a todos, normalmente uma vez por ano antes do Verão, previamente ao tempo das regas. A distribuição obedecia a “giros” transmitidos de geração em geração e muitas vezes eram anotados nas escrituras testamentárias. Uns tinham água de manhã, outros só de tarde, outros todo o dia, uns apenas uma vez por semana ou de quinze-em-quinze dias e outros várias vezes por semana, etc.
Estes giros e estas distribuições nem sempre estavam relacionadas com a quantidade e área das propriedades mas principalmente com a importância dos proprietários na origem. Ou seja, se um rico proprietário investiu mais dinheiro na obra, naturalmente o usufruto ficou determinado pela importância dessa participação. Os proprietários com fracos recursos, resignavam-se a uma pequena parte no uso do sistema e da partilha da água, quase as sobras.
Tudo isto teve os seus dias, nos tempos dos nossos avós e dos pais destes. Na actualidade, por questões práticas e de funcionalidade, os novos proprietários modernizaram-se, realizando poços e furos equipados com bombas eléctricas, abastecendo modernos sistemas de rega, pelo que o sistema antigo já quase desapareceu. Subsistem alguns poucos exemplos, em aldeias do interior ainda com forte predominância agrícola, mas até esses têm os dias contados. Quando muito, podem ser conservados como exemplos de património rural que algumas autarquias começam a valorizar como componente turística.
Também no vale da ribeira que atravessa a minha aldeia, existe todo um sistema de levadas e regos que possibilitava a rega a quase todos os campos localizados nas margens. Hoje também quase não são utilizados.
Muito mais há a dizer sobre a água e sua importância económica, social e cultural, de modo especial nas aldeias, no contexto de consumo doméstico e da agricultura.
Prometemos voltar a este assunto.
(clicar nas imagens para ampliar)
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