4/03/2020
À margem...Não pode valer tudo
3/26/2020
Cartas abertas
2/24/2020
Escolarmente
Hoje em dia, espicaçados pela premência do politicamente correcto esgotamos facilmente a nossa reserva de indignação em algumas situações e depois ficamos sem gás, sem chama para outros motivos de indignação.
9/08/2013
Um país de “velhadas”
Há quarenta anos, mais coisa menos coisa, andava eu pela escola primária. Nessa altura, a minha pequena aldeia, tão pequena que agora vai ser integrada numa qualquer união de freguesias, por via de uma lei teimosa e inútil e defendida com unhas e dentes por quem já deu de frosques deste nosso governozito, dizia eu, nessa altura a rapaziada e raparigada da primeira classe enchiam uma sala com uma turma de trinta e tal alunos. Passaram essas quatro décadas e soube há dias que para a primeira classe para o próximo ano lectivo que se avizinha contabilizaram-se apenas três novas matrículas e que para os anos seguintes será pior.
Fecham-se creches, escolas pré-primárias e primárias (como já na minha aldeia) e abrem-se asilos e universidades séniores. A pirâmide totalmente invertida.
Esta falta de alunos/crianças, que decorre da descida da taxa de natalidade em Portugal e até na Europa Ocidental, não é por isso exclusivo da minha pequena aldeia, pelo que importa perguntar: Estarão os portugueses em vias de extinção? Claro que a resposta não é linear nem fácil mas quando um país paga para se abortar, mesmo que a recorrentes, corta nos escassos apoios e não produz políticas de verdadeiro incentivo e ajuda à natalidade, então é lícito concluir que vamos mesmo no caminho para a extinção e estamos a fazer por isso. Enquanto tal não acontecer, porque a natureza dá muitas voltas e tem sabido sobreviver a cataclismos decorrentes dela própria e a outros provocados pelos humanos, vamos, inevitavelmente, a caminho de sermos um país de "velhadas", um país de "séniores" como agora é bonito dizer-se. Mas tal como um clube desportivo que só tem séniores e não aposta na formação, não tendo escalões de infantis, juvenis e júniores, o futuro nunca será promissor e arrisca-se a que um dia só tenha uma equipa de veteranos.
12/12/2011
Desodorizante 8x4 – Outros aromas…
Novamente o desodorizante 8x4 a perfumar as nossas memórias. Desta vez um cartaz publicitário de Julho de 1968.
É certo que o tempo, sem estar frio como deveria estar (ó branca geada, por onde tens andado?), vai fresco e pouco dado ao suar das estopinhas, logo com menos motivos para desodorizações, mas mesmo assim, mesmo com uma enorme massa de desempregados, convém que quem trabalhe (cada vez menos) se apresente ao serviço, fresco e perfumado.
Esta ideia permite-nos pensar que os tempos que correm, impregnados de crise e dificuldades, que murcham a nossa ténue esperança de que as coisas venham a melhorar, são, afinal, o reflexo de décadas em que nos perfumamos superficialmente, disfarçando a sujidade e o mau odor com uma vidinha folgada e sempre acima das nossas possibilidades, numa espécie de spray desodorizante. A embalagem acabou, já não há spray nem pressão e à falta de hábitos higienizantes, como o rigor, o dever e a disciplina, começamos agora a cheirar mal, desde os pés às pontas dos cabelos, passando pelas virilhas e sovacos.
Estamos assim como o gato, de garras espetadas e de corpo recuado atrás perante o banho de água fria que o espera. Agora a coisa já não vai com cheirinhos nem toalhitas mas apenas com sabão macaco, lixívia e pedra pomes.
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11/22/2011
Reflexão – Caça às bruxas
Do editorial do jornal semanário “A Ordem”:
Portugal está mais pobre do que nunca. Cofre vazio, exaurido de contribuintes, esgotado de forças, sem agricultura, nem pescas que o alimentem, comprando mais do que vende, coberto de dívidas que não sabe quando, (porque não sabe como) pagar. Todos sabemos isto. Todos sabemos que os sacrifícios são inevitáveis e inadiáveis; que vamos todos ter que viver mais pobremente como vivem os cidadãos de países pobres como o nosso; que já não há quem nos empreste dinheiro para, sendo pobres, continuarmos a viver como se ricos fôramos. Repito: todos sabemos isto. E os que dizem que não sabem ou são de uma ignorância que rompe as fronteiras da estupidez ou... são mentirosos.
Nesta emergência, são precisas poupanças duras, cortes e mais cortes, contenções rápidas (e, por isso, nem sempre justas) e - principalmente – supressão de regalias injustificadas, benesses principescas, reformas sem contribuições que as legitimem - enfim, todo um fausto remuneratório que, entre outras coisas, nos levou à situação em que estamos.
Esta austeridade - nas regalias, nas benesses, nas reformas sem rectaguarda contributiva - é das que mais consensos reúne numa matéria e num país onde eles tão dificeis são. E do consenso, rapidamente, se está a passar a uma onda de entusiasmo justicialista que se apresenta como moralizadora da coisa pública quando não passa de moralismo, de puritanismo e, em muitos casos, de oportunismo populista. Em suma: nesta matéria, estamos a assistir, em Portugal, a uma verdadeira ‹‹caça às bruxas››. De que poucos se aperceberam ainda e de que as multidões gostam - sejam de esquerda, sejam de direita ou não sejam de coisa nenhuma. Na popularice todos se encontram.
Pela moral contra o moralismo, pela justiça contra o justicialismo, pela tolerância contra o puritanismo, enfim pela democracia contra o populismo, esta «caça às bruxas››, apesar do seu colorido medieval, deve ser denunciada sem rebuço nem receio - por muito politicamente incorrecto que isso seja. E é. Primeiro porque estamos a assistir a um verdadeiro clamor contra «reformas acumuladas››. Ora, à boa maneira escolástica, é logicamente imperativo e moralmente conveniente fazer aqui um ‹‹distinguo››.
É que há «reformas acumuladas» perfeitamente legais e LEGÍTIMAS e «reformas acumuladas» que, embora também sejam legais, são claramente ILEGÍTIMAS. É da mais elementar honestidade separar umas das outras.
Estão no primeiro caso as reformas que resultam de dois empregos que se acumularam (obviamente trabalhando mais) e na vigência dos quais se fizeram integralmente os respectivos descontos, durante os anos necessários. A pessoa trabalhou a dobrar, descontou a dobrar, é justo que tenha uma reforma a dobrar. E se não trabalhou exactamente a dobrar, é igualmente justo que receba na proporção do que trabalhou a mais e descontou a mais. E não se julgue que estes casos são raros (mesmo que o fossem a justiça que lhes assiste deve ser acautelada). Por serem muito frequentes é que vale a pena esta chamada de atenção..
Apenas dois exemplos: Iniciei a minha carreira profissional numa antiga escola industrial. Como era natural (dadas as matérias que aí predominavam) muitos professores eram engenheiros. Poucos eram os que se dedicavam exclusivamente à docência. A maior parte trabalhava ou no Estado (Ministério das Obras Públicas, C. P., Câmara Municipal etc.), ou em empresas privadas, mormente industriais. Ao fim de um dia de trabalho, davam ainda mais quatro ou cinco horas de aulas aos cursos nocturnos. Era um segundo emprego (obviamente de grande sacrifício), com um segundo ordenado sobre o qual faziam os respectivos descontos para a reforma.
É evidente que ganhavam o direito a duas reformas (ou a uma reforma unificada a partir da soma das duas - mas isto já é uma questão técnica).
Um caso parecido, mas, ao contrário do anterior, muito badalado na comunicação social é o do Presidente da República, Doutor Cavaco Silva. Foi, durante muitos anos, funcionário do Banco de Portugal. Ao mesmo tempo era professor da Universidade Nova de Lisboa. Claro que ganhava dois ordenados e sobre dois ordenados fazia descontos para a respectiva reforma. Também aqui é evidente que ganhou o direito a duas reformas - ele ou qualquer outro colega nas mesmas circunstâncias. São casos perfeitamente legais e legítimos. Ilegítima seria a lei que os obrigasse a fazer descontos para duas reformas e, no fim, só lhes pagasse uma. Mais do que ilegítima, seria uma lei injusta, iníqua mesmo, um verdadeiro latrocínio. Estes casos de reformas acumuladas (mesmo que o seu beneficiário queira continuar a trabalhar depois de reformado) não tem nada que Ver com as reformas e subvenções Vitalícias que se ganham ao fim de quatro ou cinco ou mesmo doze anos de descontos em funções políticas ou, pior ainda, em empresas públicas onde essas reformas são muito mais chorudas.
A imoralidade e a ilegitimidade (ainda que legal) está nestes casos em que os que descontam durante quatro anos recebem tanto de reforma quanto os que descontaram durante quarenta. Aí estamos perante um caso de assalto oficial à carteira do contribuinte. Mesmo no caso de reformas simples (haverá alguns casos, poucos, excepcionais e particulares que não vou agora abordar). Quanto mais no caso de reformas acumuladas!
O princípio geral deverá ser este: reformas sempre proporcionais aos descontos feitos; reformas completas só para quem tiver tempo de descontos completo. Nestes casos, o trabalhador-contribuinte terá direito a tantas reformas quantas as carreiras para que descontou. O mais que isto é imoral e devia ser ilegal.
Esta distinção é importante e urgente. A inveja que caracteriza o português _ nomeadamente o português preguiçoso que nunca quis trabalho suplementar ou duplo _ faz com que ande para aí uma pouco esclarecida onda persecutória às reformas acumuladas, que assume, pela raiva e pela obtusidade, os contornos e o colorido de «caça às bruxas››.
M. Moura-Pacheco - Professor Universitário Aposentado
11/15/2011
Já mexem os postais de Natal
Esta já é uma velha discussão, a da antecipação do Natal, sempre na perspectiva consumista, desvanecendo-lhe o sentido, a cor e sabor tão característicos.
O certo é que a coisa tornou-se irreversível e já não há volta a dar. Esperemos pelo menos que esse pré-natal se fique pelos alvores de Novembro pois seria bem pior que recuasse para Outubro ou até Setembro.
Para além de tudo, para além da propaganda, que até se pode compreender, ainda temos que assistir às habituais guerrinhas publicitárias entre as principais marcas concorrentes nos diferentes sectores, tanto na distribuição, como nas comunicações, nas bebidas, etç, numa espécie de disputa do género "a minha pila é maior que a tua".
Neste particular, o sector das telecomunicações móveis é onde há mais estardalhaço, porque os consumidores, tão dados a estas coisas, ajudam a financiar essas batalhas.
Seja como for, já formatados por esta calendarização comercial, já é vulgar principiarmos os preparativos bem cedo, seja na compra dos presentes, cada vez mais difícil porque os tempos são de dura crise, seja em coisas mais simples mas porventura mas significativas, como é o caso dos postais de natal a enviar para as pessoas mais queridas, seja na forma clássica, em cartão e remetido em envelope pelo Correio, seja pela forma virtual pela Web.
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11/14/2011
Estranhos tempos
Vão estranhos os tempos e o tempo. Ainda ontem, na visita regular à casa paterna, aos domingos de manhã, vi que a velha ameixoeira estava toda florida, certamente enganada no seu calendário biológio por um Outubro estival. Claro está que dali não se espera fruto e aquela beleza efémera tem os dias contados e prazo marcado com o primeiro frio a sério.
Este quadro, anormal, diga-se, serve de reflexão para outras considerações ou pensamentos: Remete-nos para a realidade dos novos tempos, em que as pessoas florescem demasiado cedo, fora de estação , e passada a beleza efémera da floração, perante os primeiros rigores da vida, desfazem-se numa existência sem estrutura.
No global, somos uma sociedade de florzinhas, vistosas, perfumadas, atraindo a si toda a espécie de insectos, mas, terminado esse período do antes parecer do que ser, poucos são os frutos e destes ainda menos os saudáveis pois o grosso será sempre uma fruta bichada, doente, mesmo que com uma aparência exterior colorida e envernizada.
8/24/2011
Crise? Qual crise?
Os tempos são de crise!
Dizem-nos todos os dias e os cortes nas depesas e o aumento impiedoso dos impostos reiteram esta realidade. As empresas encerram e engrossa o número de desempregados.
Todavia, desconfia-se que as pessoas, os portugueses, claro está, ainda não adequaram o seu comportamento à crise pelo que o anúncio da mesma em certo sentido torna-se ridículo.
Vejamos: Apesar de dizerem que o consumo baixou, por estes tempos os restaurantes e os bares estão repletos, as estradas pejadas de automóveis e os centros comerciais inundados de gente. Continua-se a ir de férias para o Algarve ou para o estrangeiro. Os hotéis não se têm queixado.
Mesmo os vários festivais de Verão, um pouco por todo o país, abarrotaram de gente mais nova. Ora sendo que o grosso dos jovens é da classe estudante, pergunta-se de onde virá o dinheiro para suportar tanta farra? Mesmo admitindo que dormem ao relento, onde vem o dinheiro para os transportes, para os telélés, para as muitas bejecas, para a comida, para os bilhetes? Muitos deles no desemprego e outros sem receitas porque estudam, quiçá recorrendo a bolsas de estudo (estas cada vez mais magras), de onde virá o dinheiro? Dos papás? Do céu?
Não, meus senhores, a crise, por enquanto ainda não se faz sentir e por isso quase todos ainda gozam à grande e à francesa.
É possível que a crise ainda esteja nos preliminares mas não tardará a ejaculação e então depois é que o país, terminado o êxtase, cairá em si.
Crise? Qual crise?
8/13/2011
A Ordem – Jornal católico
O jornal “A Ordem”, é um quinzenário católico, fundado em 1913 por António Pacheco, portanto à beira de se tornar centenário, com sede na cidade do Porto.
Durante muitas décadas foi um semanário, passando recentemente a quinzenário devido a dificuldades na sua gestão, de resto, dificuldades próprias de uma publicação que vive essencialmente da receita dos seus assinantes, já que basicamente não tem publicidade.
O meu sogro era assinante, pelo que desde o seu falecimento, há cerca de 10 anos, em sua memória e pela qualidade das reflexões e artigos publicados, tomei a continuidade da assinatura, mantendo o número quatro mil e tal.
O jornal “A Ordem”, atravessou assim importantes períodos da nossa história recente e mais do que a defesa de questões da Igreja, sua organização e hierarquias, tem assumido sobretudo a defesa dos valores que a todos devem ser caros, como aqueles expressos no Evangelho.
Infelizmente, reconhece-se que estas publicações e o tipo de reflexões que produzem, estão longe de satisfazer as necessidades do grosso da maioria dos leitores de jornais ou revistas. O interesse vai para tudo quento é efémero e visual, como os enredos e protagonistas das novelas, da sociadede, do espectáculo, do jet-set, do futebol, etc, etc.
O substancial, a reflexão do que deve ser o nosso leque de valores individuais e comuns, enquanto cidadãos e sociedade, são quase sempre questões que não merecem elas próprias, reflexão ou análise.
Dos vários artigos, assinados por várias personalidades, quase sempre me merecem apreço as reflexões do seu actual director, Manuel Moura Pacheco, profesor universitário aposentado, pela clareza, síntese e profundidade das mesmas. É o caso recente da sua análise sobre as férias, que tomo a liberdade de reproduzir, porque estou certo que reflecte a situação actual deste período tão desejado para quem trabalha e que, como é o nosso caso, também dele estamos a usufruir, no que de resto tem contribuido para um adormecimento no ritmo do santa Nostalgia, que, compreenderão os nossos caros e habituais visitantes.
FÉRIAS
Todos os anos (ou quase) volto a este assunto: a subversão das férias. Um tempo que foi concebido e planeado como de repouso merecido depois de um ano de trabalho; como de imprescindível descanso preparatório de novo ano de esforço; como condição essencial da rentabilidade dessa nova etapa; essa concepção legalmente protegida e obrigatoriamente subsidiada — tudo isso é, frequentemente, subvertido num tempo de mais esforço, mais cansaço e menos preparação para o trabalho que vai seguir-se. E de mais despesa — a ultrapassar o subsídio dito «de férias». Resultado: as pessoas regressam de férias mais esgotadas do que partiram — fisica e financeiramente.
É a subversão, pura e simples, do conceito de férias e do subsidio das ditas. Só que, este ano, o problema é mais sério. Por duas razões: porque o ano que ai vem vai exigir mais esforço e mais trabalho e porque vai trazer menos dinheiro e obrigar a gastar mais. Duas poderosas razões para se acautelar, mais do que nunca, o perigo da subversão das férias. Estas — as deste ano não deverão ser as últimas descuidadas de folia, de folguedo e de gastos (porque «para o ano não se sabe»), mas, ao contrário, deverão ser as primeiras a observar, com todo o rigor, a sua origem, a sua razão de ser, a justiça do seu objectivo, para que nenhuns eventuais excessos de dispêndio (de energia e/ou de dinheiro) transitem para o novo ano de trabalho.
Foram descuidos destes — de deixar transitar para o ano seguinte o «deficit» do ano anterior que deixaram chegar Portugal ao estado em que está, arrastando consigo famílias e cidadãos. Descuidos colectivos passados que nos obrigam individualmente no presente a observar, com duplicado escrúpulo, o conceito de férias e a justificação do seu subsídio. Ao partir para as férias de 2011, desejo a todos os nossos Leitores um bom descanso de corpo e de espírito que lhes permita amealhar, para o ano que aí vem, um pouco da energia suplementar de que vão carecer. E — se possível — amealhar também um pouco do famoso subsídio. Podem vir a carecer dele também. Mais vale prevenir do que remediar — diz o povo e diz bem. Os meus votos de boas férias são os de que, cada um, se previna, nesta matéria, o melhor que puder.
M. Moura Pacheco, professor universitário aposentado.
3/21/2011
Casa, descasa
No último Domingo, como habitualmente, segui mais um episódio da série documental "Universo", transmitido pelo canal História, na grelha da ZON.
Não quero aqui abordar qualquer questão relacionada com os mistérios e belezas do universo, muito menos sobre pulsares e quasares - tema do episódio - mas sobre algo que retive num dos spots publicitários no intervalo (já agora, aqui está uma coisa que nunca compreendi, a existência de publicidade em canais pagos).
Apesar do espanhol, retive um trocadilho, que grosso modo fazia-nos ver que num passado mais ou menos recente um casamento era uma coisa que se procurava para a vida, enquanto que na actualidade o conceito é passar a vida a procurar o casamento. Creio que todos compreendemos isto e sobretudo a mudança.
Sem alinhar pelo exagero de ambas as situações, a verdade é que hoje em dia a segunda ideia é a que melhor retrata a situação.
Pessoalmente conheço alguém próximo que já vai no terceiro divórcio e no quarto casamento e tem filhos das três mulheres e a procissão ainda irá no adro. Convenhamos que, para todos os intervenientes não será uma situação que seja lá muito exemplar sob um ponto de vista da estabilidade, daí não surpreender que a pessoa em questão passe mais tempo em tribunal do que com os filhos.
Decorre ainda que, face à incapacidade e, já agora, irresponsabilidade, em manter os compromissos de paternidade determinados pelo tribunal, uma parte substancial desses encargos estão a ser suportados pelos pais deste profissional do divórcio.
Chegamos assim a um ponto da sociedade em que se preza e exalta a liberdade de cada um em decidir o seu destino em cada momento, e muito bem, pelo que não surpreende que os divórcios sejam cada vez em maior número, e consequentemente o tão novelístico casa-descasa, mesmo que as razões subjacentes na maior parte dos casos decorram de uma incapacidade de diálogo e de compreensão, a ponto de à mínima tempestade, ao ínfimo obstáculo da vida conjunta, o barco, já por si de débil construção, afundar-se inapelavelmente.
De um modo geral, respeitando as devidas diferenças, distâncias e excepções, a actual sociedade mostra-se prática e objectiva no uso dos seus direitos, liberdades e garantias. Somos neste campo uns artistas da bola, uns chicos-espertalhões; Mas no que toca ao outro lado da moeda, aquele em que se reflectem as responsabilidades e os deveres, aí a coisa já descarrila e descamba para o torto. Aliás, se há matriz que define a sociedade actual, de novo com as ressalvas da praxe, é precisamente a aversão ao cumprimento desta componente, a das responsabilidades e dos deveres, seja para com o Estado seja para com as pessoas. Aí já somos uns molengões, uns arrastados, uns deixa-andar, em que mesmo na pior das hipóteses não tememos sequer as multas, coimas, juros ou mesmo decisões de tribunal, no que decorre de um Estado sem sentido de rigor e justiça, até porque os maus exemplos chegam quase sempre de cima.
Depois, se por um crime de homicídio, bárbaro e premeditado, se pode apanhar apenas 10 ou 15 anos, e destes cumprindo-se metade da pena, pervalecendo para os demais crimes um sistema penal quase incentivador à criminalidade, pela ineficácia das medidas e da brandura das penas, porque é que alguém haveria de temer ser responsabilizado por coisas menores, como ter que cumprir as suas obrigações sociais, compromissos, manter os filhos, pagar dívidas aos bancos, empresas, particulares ou indemnizações?
É o que temos e não falta quem se congratule por isso, porque, acima de tudo, nada de beliscar as nossas liberdadezinhas custosamente conquistadas.
2/14/2011
Dia dos Namorados
Hoje é o dia de S. Valentim, Dia dos Namorados.
Entre nós é uma data com poucas ou nenhumas tradições e a sua base importada decorre sobretudo da globalização e interesses comerciais.
A sua implantação em Portugal assume principalmente essa vertente consumista e é relativamente recente. Interessa sobretudo aos restaurantes, perfumarias e floristas, mas não só. Para o comércio, sobretudo grandes superfícies, a par do Carnaval, é um dia interessante e rentável que aparece entre o Natal e a Páscoa já que tem de facto um forte apelo ao consumo, aos jantares ou às prendas mútuas. No meu caso, nada me diz, mesmo que coincida quase com o dia de aniversário da esposa (15 de Fevereiro), esse sim, o nosso Dia dos Namorados.
Outro exemplo de uma tradição importada e imposta pelo comércio é o Dia das Bruxas, o Halloween, entre 31 de Outubro e 1 Novembro e que aos poucos, tal como o Dia dos Namorados, vai encontrando acolhimento sobretudo nos mais novos.
Por outro lado, de um modo geral, hoje em dia o namoro já não é o que era e o termo namorar é um mero eufemismo que só ganha importância neste conceito comercialista. Os actuais namorados na realidade têm uma vivência e comportamento quase em tudo semelhante a um casal formalizado no casamento ou na união de facto, salvo que muitos, aparte a cama que vão partilhando, continuam com a casa, a segunda cama, a mesa e a roupa lavada dos paizinhos que cada vez mais os têm que albergar para lá dos 30.
É verdade que as tradições em si são um elemento dinâmico que reflectem aspectos culturais, sociais ou religiosos, de países e regiões, ou até mesmo de aldeias, e assim é natural que com o tempo se assista a uma variação dos pressupostos, que podem passar por mudanças, extinções ou até aparecimento de novas rotinas que depois adoptam o nome de tradições.
Esta realidade em si não tem nada de surpreendente, porque é evolutiva, mas também é verdade que revela algum empobrecimento das nossas verdadeiras raízes, já que somos expertos a assimilar contextos marcadamente importados quando, pelo contrário, vamos perdendo ou ignorando os verdadeiramente nossos. Ora uma sociedade que desvaloriza ou permite a alteração das suas raízes de forma tão ligeira, não deve ser tomada lá muito em conta.
É o preço da globalização, com todos os prós e contras.
2/11/2011
Dia Mundial do Doente
Hoje é o Dia Mundial do Doente, instituído em 1992 pelo papa João Paulo II, e recordar algumas situações, como a recente, de uma idosa que morreu só e abandonada no seu apartamento, em Rinchoa - Sintra, sendo descoberta apenas 9 anos depois, e decorrente de um processo de penhora (a faceta implacável e materialista do Estado), e com a recusa sucessiva do próprio Tribunal em ordenar o arrombamento da porta, ante a necessidade lógica e óbvia de se tentar encontrar alguém desaparecido, só reforça a perda ou subversão de valores da nossa sociedade que de um modo geral despreza os fundamentais à vida e à sua preservação. Não fora alguma sociedade civil e algum voluntariado social, de modo especial ligado à Igreja, e os idosos deste país estariam ainda mais abandonados à doença, à solidão e ao desprezo, tanto pelo Estado como pelos próprios familiares.
Com um Estado em que se anuncia que já terá gasto 100 milhões de euros com abortos, depois da entrada em vigor da legalização, e que se permite relaxar políticas elementares de apoio aos idosos, incluindo cortes nas magras pensões, ou à natalidade, não deixa de ser dolorosamente sintomático do estado a que este pobre país chegou. Pode não haver um subsídio para mitigar as dificuldades da doença ou dinheiro para apoio de projectos de lares e centros de apoio e acolhimento, ou para um maior subsídio à maternidade e à promoção da vida, mas há seguramente para milhares de abortos, no geral fruto de condutas de promiscuidade, irresponsabilidade e muitas noitadas de copos de jovens e adolescentes.
Este Estado e este sociedade com estas contradições envergonham-nos.
1/18/2011
A insegurança dos nossos dias
Desde há vários meses que o programa da RTP1, "Praça da Alegria", no ar diariamente entre as 10:00 e as 13:00 horas, com apresentação de Jorge Gabriel e Sónia Araújo, dedica sensivelmente os últimos 40 minutos da emissão a analisar e a reflectir sobre vários casos vindos a público, com impacto social e frequentemente decorrentes de situações de criminalidade, quase sempre ligados à segurança, ou falta dela.
Ontem, por exemplo, abordou-se o caso recente de uma senhora idosa, que vivendo só, foi assaltada com alguma violência, atada, amordaçada e abandonada no chão frio da casa, tendo-lhe sido roubada uma elevada quantia, a maior parte pertencente a um filho da vítima.
Habitualmente estes casos são superiormente analisados por especialistas convidados, como o médico-legista Dr. Pinto da Costa, o advogado Dr. Paulo Santos, o Juiz Rui Rangel e o médico psicólogo e sexólogo Júlio Machado Vaz.
Uma grande parte das intervenções estão disponíveis no YouTube pelo que facilmente se pode apanhar os fios às meadas de muitas das situações dissecadas.
Tudo isto para se constatar que não raras vezes, principalmente pela análise experiente do Dr. Pinto da Costa, todos estes casos, nomeadamente ligados à criminalidade, revelam um forte desprezo pela vida e pessoa humana, nomeadamente os ocorridos contra pessoas idosas, fragilizadas na incapacidade física e na solidão, bem como a uma falta de valores e princípios cívicos que afecta o grosso da nossa actual sociedade.
Louva-se, evidentemente, a análise destes casos na televisão pública, mas não temos dúvidas que a insistência neste conceito de rubrica, que põe a nu a insegurança, a criminalidade e muitas vezes a ineficácia da autoridade e a lentidão e benevolência da Justiça, formatada legalmente num quadro favorável ao criminoso e pouco ou nada protector quanto à vítima, deve sobremaneira desagradar a muitos, incluindo a sectores do Governo e sobretudo a sectores de uma certa sociedade liberal e progressista que em nome de supostos critérios de defesa contra preconceitos, liberdades e garantias, vêem na classe criminosa um grupo de coitadinhos a quem se deve relevar as suas acções e conceder-lhes todas as oportunidades de recuperação.
Todos esses sectores têm conduzido o país a um crescente clima de insegurança e criminalidade, cada vez mais organizada e violenta bem como a um código penal onde a morte premeditada e agressiva de alguém, independentemente da quantidade de vítimas, é, quando é, penalizada com pouco mais de uma dúzia de anos de prisão.
Quando viramos as atenções para o recente e mediatizado caso da morte do jornalista do jetset, Carlos Castro, e quando se constata que pela lei do Estado de Nova Iorque, o assassino confesso, no mínimo, salvo inimputabilidade do foro psiquiátrico, não se livrará de 25 anos de cadeia, correndo até o risco de apanhar perpétua, é que chegamos à conclusão que neste capítulo Portugal ainda é uma república das bananas onde compensa e vale a pena ser-se criminoso, porque o risco é reduzido e o castigo é lento e benévolo.
A este respeito, dizia há dias o Dr. Pinto da Costa, para a maior parte dos crimes, mesmo que apanhado em flagrante, o criminoso que actua em Portugal fica com a ridícula obrigatoriedade de se apresentar semanalmente às autoridades, por exemplo, à Quinta-Feira, ficando com o resto do tempo livre para se dedicar ao que melhor sabe fazer, ou seja, atentar contra os elementares direitos dos cidadãos, seja quanto ao património seja, o que é mais grave e frequente, contra a integridade física e a vida de treceiros, sejam crianças, jovens, adultos ou idosos. Não surpreende, pois, que recorrentemente cheguem notícias sobre indivíduos que num mesmo dia são apanhados diversas vezes na sua actividade ilícita, alguns dos quais em liberdade condicional ou já sujeitos à medida de coação de termo de identidade e residência. Banaliza-se assim o sentido de justiça e da sua aplicação.
Pode-se, pois, invocar mil motivos, pretextos e razões sociais ou culturais para se defender ou relativizar o papel dos criminosos, mas não se pode ignorar que na maior parte dos casos, este tipo de gente só compreende a linguagem da violência gratuita pelo que, para boa compreensão, tem que se dialogar em consonância, com justiça implacável, dura e efectiva, mesmo que isso possa custar investimento em mais autoridade, meios de segurança e prisões. A liberdade e a sua garantia só deve fazer sentido se a ela na justa proporção corresponder o direito, o dever e a disciplina. A política dos paninhos quentes e do politicamente correcto tem conduzido aos resultados que se vêem e só não não se apercebe disso quem não lê, não vê e não ouve os seus ecos diários nos diferentes suportes da comunicação social, mesmo sabendo-se que esta só dá conta de uma ínfima parte.
Até quando?
1/17/2011
O direito à indignação
Estou revoltado! Indignado! E não é por ser segunda-feira.
O Estado e quem nele nos governa, os seus organismos e entidades tentaculares que corporizam a chamada administração pública, por regra quase nunca me merecem considerações positivas porque quase nunca cumprem os desígnios da sua génese de serviços públicos, de serviço ao cidadão enquanto pessoa, mas antes funcionam como uma enorme fábrica com linhas de montagem intrincadas, complexas e programadas para fazerem a vida negra, já não aos cidadãos porque não nos tem em tal conta, mas aos contribuintes, essa categoria de gente amorfa, com uma identidade de 9 algarismos onde a única relação admitida é a contabilidade, as contribuições, os impostos, as finanças.
Em suma, desta relação estritamente numérica, não sobra tempo nem espaço para o lado humano, para a razão ou a emoção. A um contributo ou dever financeiro, o Estado e toda a sua máquina retribui com indiferença, com frieza. Se nos tem que responder, elenca e fá-lo com regulamentos, portarias, leis e despachos. Ora isto é penoso porque quando temos que responder a alguém que nos diz que somos um merdas, sabemos como responder e que argumentos usar. Mas o Estado responde-nos com uma qualquer alínea c) do ponto 3 do art.º 56º da Portaria 345e catrapuz, barra dois mil e tal de tantos dos tantos. Ora uma linguagem assim deve ser descodificada porque o Estado fala-nos como se estivesse num constante período de guerra e tudo o que nos revela e transmite é codificado. Com esta forma de comunicação, não há relação que aguente e daí que o Estado viva num processo contínuo de divórcio com os seus cidadãos e vice-versa. Designações como Estado Social, proximidade ao cidadão, desburocratização, etç, são meros artifícios, capas ou camuflagens, fazendo-nos lembrar aquelas telas publicitárias que com cenários paradisíacos escondem fachadas de edifícios em ruínas em muitos dos nossos espaços urbanos.
Mas não me custa partilhar aqui o motivo deste estado de revolta, de indignação porque, estou certo, é comum a centenas ou milhares de pessoas.
Direi que tenho uma filha no segundo ano de um curso superior, que como uma grande maioria dos estudantes portugueses, candidatou-se à atribuição de uma Bolsa de Estudo. De forma relativamente descomplicada e justa, obteve-a no ano transacto, até que o Estado, em nome dos cortes e poupanças, porque é exímio a poupar no farelo para esbanjar na farinha, decidiu ligar o complicador que é como quem diz, apertar a malha da peneira. Ou seja, ao processo de candidatura, aberto creio que em Maio de 2010, mandou-o dar uma volta e decidiu alterar a regulamentação como lhe é característico, uma espécie de árbitro que a meio de um jogo decide mudar as regras. Qualquer coisa justificada desta forma:
A entrada em vigor do Decreto-Lei nº70/2010, de 16 de Junho, impôs alterações ao nível do formuláriode candidatura a Bolsa de Estudo. O referido Decreto-Lei, determina, no Artigo 25º, a “reavaliação extraordinária da condição de recursos”.
Deste modo, em Setembro lá abriu um novo sistema e tudo teve que voltar ao princípio. As candidaturas a serem feitas numa plataforma online, com uma complexa rede de dados e informações e uma lista de documentos requeridos, desde logo um documento assinado pelos membros do agregado com vista à autorização de consulta de dados na Segurança Social, como se o Estado precisasse disso. Apesar desse “salvo-conduto”, foram solicitados documentos de prova de abonos e rendimentos que, como seria expectável, foram quase sempre recusados aos balcões das delegações da SS. O Estado e a sua Administração Pública no seu melhor, numa teia intricada de redundâncias, de recusas e acusas mútuas, numa calda de burocracia tão necessária à sobrevivência da sua massa de funcionários.
Apesar das dificuldades iniciais, a candidatura e documentos foram devidamente submetidos. O processo entra em estado de análise, uma espécie de hibernação de um qualquer urso ou lagarto. A vigília à caverna foi quase diária na expectativa do despertar da besta.
Foi assim durante mais de 3 meses e meio, “sem xús nem mús”. De repente o urso acorda estremunhado, mesmo às portas do Natal (se calhar com o cheiro quente das rabanadas) já com os estudantes em férias, e apressado notifica os candidatos, anunciado-lhes a boa nova que há documentos em falta (não requeridos como necessários no processo de candidatura) e que têm 5 diazitos para os apresentar. Que se despachem! Que vão bater à porta das repartições, esses templos sagrados do bom atendimento, simpatia e disponibilidade, porque não há tempo a perder.
Por desmazelo ou falha do sistema, a verdade é que um grosso dessas notificações chega às caixas de email dos candidatos já passado o prazo, isto em plena véspera de natal.
Face à inesperada notificação de Indeferimento da candidatura, é feito o procedimento de Oposição, com a argumentação devida e submetidos os tais documentos. Passados mais uns dias, no início do ano, o urso, refeito do despertar atribulado, lá vem notificar que concede um prazo de 5 dias para apresentação dos documentos em falta, já que os submetidos (certidões de prédios) não estão conforme. Pretendem que seja apresentada certidão por parte do Serviço de Finanças, que esclareça devidamente o que cada elemento do agregado possui, mesmo os menores. Com a "atenciosidade" própria das nossas repartições públicas, travei uma dura batalha para conseguir tal documento, uma espécie de batalha de Aljubarrota, onde tive vontade de resolver a questão à maneira da famosa padeira Brites de Almeida.
Mesmo assim, com toda esta "franca colaboração" do serviço público, o tal documento lá foi submetido bem dentro do tal prazo de 5 dias.
Renascia assim a legítima esperança de que a coisa se ía resolver. Mas não: No dia 14 último, friamente, é feita a solene notificação que a candidatura foi liminarmente indeferida com base na instrução incompleta do processo. Ou seja, entre o dia 6/1/2011, data de submissão do documento em falta, dentro do tal prazo concedido, e a data da notificação final, a 14 de Janeiro, não houve qualquer contacto ou notificação quanto à falta ou inconformidade de documentos, legitimando um pressuposto de que tudo estava conforme. Puro engano.
Creio, assim, estar justificada esta revolta, esta indignação, até porque advém de outras constatações, especulativas, é certo, mas que encaixam: Todo o processo de candidatura foi concebido num pressuposto de dificuldades, levando uma grande percentagem de candidatos a desistirem, por impaciência ou incapacidade de responder e apresentar a documentação suplementar, não prevista no início. Basta fazer a leitura das listas finais de atribuições para se perceber o alcance dessa ratoeira.
Foram três meses e meio em espera, em stand by, para depois, às portas do Natal, em período de férias, notificaram de forma apressada requerendo documentos que têm que ser arrancados a ferros na mesma administração pública.
Por outro lado, face à importância do assunto, não se percebe de todo que a notificação seja feita apenas por email, sem qualquer outro meio complementar, como poderia ser uma carta registada ou até mesmo um corriqueiro SMS. Todo o processo montado remete-nos para aquelas típicas cenas de filmes de assaltos a um banco ou a um museu, com o alvo envolto em armadilhas e uma teia de raios ou feixes laser que logo que tocados inadvertidamente accionam um ruidoso ALARME, ALARME, ALARME, no caso substituídos por um não menos estridente INDEFERIDO, INDEFERIDO, INDEFERIDO.
Mesmo quando se consegue transpôr toda esta sofisticada tecnologia, não ao alcance de qualquer cidadão, o Estado recorre às clássicas mas eficazes cascas-de-banana, largadas no trajecto de quem a ele recorre. Em suma, um árbitro tendencioso, que para prejudicar uma equipa não hesita em inventar um penalti fora da área, nem que seja no último segundo do prolongamento.
É este o nosso Estado. Para além de tudo, indiferente a indignações.
Face a tudo isto, com a esposa em situação de desemprego de longa duração, há anos sem qualquer subsídio, com a implacável prestação de crédito à habitação a bater pontualmente à porta de casa, com um segundo filho menor no ensino básico, com tudo o resto que caracteriza os gastos de uma normal família, urge fazer algumas opções e uma delas passará pela suspensão do curso e dos estudos. Se considerarmos que no ano transacto, a Bolsa rondou os 300 euros mensais, e mesmo admitindo uma expectável redução, estará assim em causa uma verba a rondar os 2500 euros, bastante significativa, diga-se, dentro do tal contexto e das próprias dificuldades que os portugueses em geral vão ter durante os próximos anos.
Para além do mais, os noventa e poucos euros que desde Outubro têm sido transferidos a título de “adiantamento” certamente que vão ser reclamados.
Desculpem o desabafo!
1/14/2011
Bom dia! Como passou vossa excelência?
Hoje em dia vivemos numa sociedade chamada global e para isso têm contribuído sobremaneira as tecnologias de informação e comunicação, como a internet e suas ferramentas. Agimos e interagimos e a blogosfera e as redes sociais, pelas suas características, têm neste particular uma importância relevante. Resumindo, aparentemente nunca estivemos tão próximos, tão em contacto uns com os outros, e todavia, para lá do biombo, do monitor ou ecrã que nos divide desse mundo global mas virtual, nunca estivemos tão afastados, tão solitários e simultaneamente expostos e vulneráveis.
Neste mundo de relações sociais mas virtuais, alguns conceitos e valores estão completamente subvertidos. Veja-se, no caso da rede social do momento, o Facebook, onde o conceito de amigo ou amizade anda pelas ruas da amargura. Ali os amigos contam-se aos milhares e os pedidos chegam como a sardinha na canastra, compacta e uniforme, descaracterizada e sabe-se lá por que motivos. Ali os gestos de amizade medem-se pelas banalidades e trivialidades e poucos são os que realmente cultivam a verdadeira amizade ou interagem com algo que se aproveite. O Facebook é assim uma espécie de laranja mecânica, de casca grossa e sem qualquer sumo por mais que se esprema.
Para justificar e compreender a banalidade a que hoje chegou o valor da amizade, temos que olhar ao nosso redor, na nossa casa, na nossa família, aldeia, bairro ou cidade. Mesmo considerando as escassas excepções que sempre hão-de existir para confirmar a regra, hoje em dia não nos conhecemos. Podemos até ver com regularidade o nosso vizinho da frente, do lado, de cima ou de baixo, mas muitas vezes não passa disso. Saímos à rua, cruzámo-nos com pessoas, conhecidas ou desconhecidas, mas não os olhamos de frente, olhos nos olhos, não lhes fazemos um simples gesto de saudação, não lhes sorrimos nem balbuciamos um simples olá, ou um viva. Quando muito, olhamos para o lado ou para o chão ou até atalhamos caminho ou fingimo-nos distraídos a olhar para o infinito ou com o nariz na montra. Esta indiferença vale tanto para crianças como para adultos ou idosos. Pelo contrário, e relativamente aos idosos, a nossa tendência será até num sentido de repulsa e escárnio, principalmente se para além dos aspectos de decadência física, revelarem um aspecto de desmazelo e abandono.
Frequentemente, mesmo na minha pequena aldeia, reparo que durante a celebração de uma Missa, as crianças ocupam os lugares, sozinhas ou ao lado dos pais, mas mesmo tendo uma pessoa idosa ao lado e em pé, não têm a cultura e a educação para lhes oferecer e ceder o lugar. É claro que a culpa não é das crianças, mas dos pais e da educação e valores que lhes transmitiram.
Não deixo, pois, de evocar os meus tempos de criança, em que na mesma situação, sabíamos oferecer e ceder o lugar aos mais velhos, mesmo que não fossem propriamente doentes. E quando o fazíamos, ficava no peito e no coração um sentimento de dever cumprido.
Diariamente, ao levantar e ao deitar, havendo oportunidade, pedia-se a bênção dos pais. - Dê-me a sua bênção, meu pai! - Deus te abençoe!
Este procedimento aplicava-se para com os padrinhos de baptismo ou para com os avós.
Sempre que se passava por alguém na rua, havia lugar para um "Bom dia", "Boa tarde" ou Boa noite". Também um "Até amanhã, se Deus quiser", ou "Vá com Deus". Já nem falo noutros procedimentos mais formais ou sociais, como o subalterno tirar o chapéu na presença de alguém com estatuto social ou profissional mais elevado. Nesses tempos havia essa distinção, é verdade que por alguma cultura de subalternidade mas também por educação e reconhecimento próprio para quem de facto exercia cargos e profissões importantes.
É claro que se pode relacionar estes hábitos com uma certa cultura religiosa ou cívica, ou mesmo cultural, mas mais do que isso revelavam quase sempre uma base de respeito pelos pais, pelos mais velhos e por todos em geral, mesmo desconhecidos. Actualmente, porém, tudo isso foi abandonado e hoje pautamo-nos pela indiferença de tratamento, respeitamo-nos muito pouco e tratámo-nos como estranhos, como desconhecidos. Por isso, a forma de nos dirigirmos a um simples mas digno operário é exactamente a mesma do tratamento dado a um professor, um médico, um sacerdote, um ministro ou um magistrado. A pretexto de princípios de suposta igualdade e contra supostos preconceitos, nivelamos tudo, mas por baixo. Como costumo dizer, de algum exagero do 8, passamos para o exagero do 80.
Com toda essa igualdade, essa indiferenciação de estatuto e condição, perdemos o respeito pelos outros e até por nós próprios. Ao ensinamento velhinho de que devemos saber ocupar o nosso lugar, não deixamos de classificar essa máxima como desajustada e fora de prazo porque considerámo-nos todos ao mesmo nível, não porque o não sejamos na essência humana, mas porque perdemos os valores e os parâmetros que balizavam alguma diferenciação de tratamento. Exemplificando com o caso da escola, dos alunos e professores, estes, outrora considerados mestres e por quem se nutria respeito mas também admiração tanto pela pessoa como pela dignidada da função, hoje tornaram-se vulgares funcionários, desprezados e desconsiderados, impedidos de exercer a autoridade e disciplina e por conseguinte expostos à má educação e desaforo do sistema, dos pais e alunos de toda a espécie, pepinos crescidos sem quaisquer torcimentos.
Chegamos assim a um ponto onde qualquer laivo de boa educação cívica e moral, mesmo a que bem herdada de nossos pais e avós, tornou-se obsoleto, desnecessário e até motivo de risada, de escárnio ou de espanto.
Tenha, pois, cuidado, ao passar na rua e saudar alguém com um jovial "Bom dia!" pois, mesmo que o conheça, poderá olhar para si de forma espantada e intrigada.
Para o bem e para o mal, as coisas chegaram a este ponto de caramelo e em grande parte justificam a fonte de muita da actual violência gratuita e o desprezo pela vida e condição humanas.
1/10/2011
O tempo das coisas
Aqui há dias, um pouco antes da passagem de ano, assistia na RTP a uma das costumeiras e triviais reportagens da época, numa qualquer pastelaria, numa espreitadela sobre a confecção do popular bolo-rei. Para além de tudo o que se viu e ouviu, retive a afirmação de que apesar desta ser a época alta, todavia o bolo-rei confecciona-se e consome-se todo o ano. De facto assim é, como também é verdade realativamente a muitos produtos de origem sazonal ou identificados com épocas específicas.
É o caso do bolo-rei, conforme referimos, mas também o pão-de-ló e as amêndoas, tradicionalmente ligadas à festividade da Páscoa, as rabanadas, ligadas ao Natal, etç, etç.
No caso das frutas: Noutros tempos, no nosso país, morangos e melões vendiam-se nos meses de Verão, as cerejas em Maio e Junho, as castanhas, nozes e figos no Outono e por aí fora.
Hoje em dia, pelos efeitos da globalização, desenvolvimento das tecnologias de produção, confecção e armazenamento e conservação, temos quase tudo isso em qualquer dia do ano.
Certamente que esta abundância e disponibilidade por si só não têm nada de negativo mas, verdade se diga, perdeu-se muito do encanto próprio dessas coisas, quase como uma magia desvendada ou um segredo revelado. Dito de outro modo, as coisas vulgarizaram-se, tornaram-se rotineiras sem qualquer deslumbramento. Perderam assim o sabor e o aroma.
Consequentemente, as coisas e as situações tendem a cair numa espiral de vulgaridade que vai aumentando. Veja-se o caso do Natal, que outrora confinado à quadra, hoje já se começa a revelar em princípios ou meados de Novembro, porque o consumismo e os aparelhos que o sustentam assim o determinam.
Por conseguinte, perdeu-se para sempre o tal encanto e deslumbramento das coisas que aconteciam na altura própria em todo o seu explendor, como o concretizar de um desejo. Se desejávamos cerejas, tínhamos que esperar pelo tempo delas; Se desejávamos grelos ou melões, tínhamos que aguardar pelo tempo deles. Era assim com tudo. Mas tudo mudou.
Sinais dos tempos em que deixou de haver tempo para a espera, para o ritmo próprio dos ciclos da natureza e da vida.
1/01/2011
E tudo recomeça…
E pronto...Não custou nada!
Cá estamos no ano de 2011, acabadinho de chegar. Faz-nos lembrar quando compramos um novo telemóvel em que lhe damos mil cuidados para se manter brilhante e impecável e até hesitamos em remover a película protectora do ecrã. Durante os primeiros dias anda todo embrulhadinho, mas volvidas duas ou três semanas, lá está ele como todos os anteriores, pousado em qualquer sítio, sujo, desmazelado, repleto de riscos e mossas de algumas quedas.
No fundo é mais ou menos isto: Nos dias que antecedem a passagem de ano somos bombardeados com um chorrilho de votos de um bom e próspero ano novo, uns sinceros outros apenas de forma maquinal. Creio até que o caminho que o Natal tem vindo a percorrer, muito consignado na matriz comercial e consumista, tem esvaziado a celebração do seu verdadeiro sentido e isso também reflecte-se na forma como o desejamos. Assim, os votos de boas festas, feliz natal e feliz e próspero ano novo, regra geral são desejos vazios, sem corpo e sem alma, expressados de forma rotineira e maquinal.
Ao fim e ao cabo, no que ao ano novo diz respeito, bem sabemos que regra geral tudo vai continuar na mesma e do ano velho, como quem muda de casa, transportamos toda a mobília e todos os problemas que tínhamos às costas a 31 de Dezembro. Bem podemos pensar que será sempre bom que pelo menos se aproveitem os também habituais votos de saúde, paz e amor. Porventura será nesta trilogia onde residirá alguma da esperança ao mudarmos de ano. Se é verdade que nos podemos manter fiéis ao amor, e dependemos de nós para o cultivar, já a saúde é um dom que dependendo também de nós, da forma como nos cuidamos nos diferentes aspectos da mente e do corpo, ela também depende do que a sociedade pode fazer por nós; A sociedade, o Estado e por conseguinte o seu sistema de Saúde. Aqui, quem tem dinheiro continua a ter um melhor acesso.
Bem sabemos com o que vamos contar ao nível da nossa governação, atolados em dificuldades, com um enorme desemprego, uma imensa dívida pública que cresce a olhos vistos, impostos gravosos e cortes orçamentais nos diversos sectores. Como alguém me dizia, a diferença substancial entre os antigos e os novos tempos, é que nos outros as pessoas viviam de acordo com as suas possibilidade e nestes vivem bem acima das suas possibilidades. Se queremos perceber a origem das nossas dificuldades, não haja mistificação quanto a esta leitura.
É esta a realidade. Logo depois de rebentados os últimos foguetes, tombadas no chão as rolhas do champanhe e curadas as bebedeiras do reveilon, os portugueses entrarão nela de queixos, como um forcado acagaçado que teme o cornos do bicho enfurecido que tem diante de si.
Não queremos abandonar a esperança e tudo o que possa significar. Ela ainda é uma das poucas âncoras que nos podem estabilizar neste fundo arenoso e instável que é o estado a que o país chegou.
Haja optimismo, mas até este voto pode ser vazio de sentido.
10/18/2010
Modess – Quando as raparigas modernas conversam
Ainda há alguns dias falamos da Modess, uma conhecida marca de pensos-higiénicos da Johnson & Johnson. Hoje trazemos à memória um novo (antigo - início dos anos 60) cartaz publicitário a esse produto da higiene íntima feminina.
Da leitura do cartaz e da sua mensagem, resulta a análise curiosa do facto de nos dias de hoje frequentemente se dar como adquirido que noutros tempos alguns assuntos eram tabú e as pessoas viviam fechadas num certo convencionalismo. Por isso não deixa de ser surpreendente, e desmistificador, vá lá, que num cartaz com 50 anos já se propagandeasse esse modernismo e esse à vontade das raparigas “já então modernas” em contraponto às suas avozinhas.
Agora podemos admitir que hoje em dia já não será pretexto ou sinal de modernidade que as raparigas falem entre si sobre os seus ciclos menstruais e os pensos higiénicos. Modernidade actual, e bastará ler a revista “Maria” ou outra do género”, lida maioritariamente por um publico feminino adolescente ou mesmo pré-adolescente, será discutir-se coisas triviais como perguntar se um beijo tido com o namorado implicará uma gravidez, ou que está a achar estranho o namorado, por este ao fim de duas semanas de namoro ainda ainda não querer ter relações sexuais ou ele a perguntar se será homossexual porque fica excitado quando pensa nos colegas ou preocupado por achar o seu pénis pequeno e descaído para a esquerda ou triste por a namorada não gostar de sexo oral por sentir nojo ou aflito por ela não querer outra coisa a toda a hora. Preocupações preocupantes.
Bom…bem sabemos que os famosos consultórios deste tipo de revistas extravasam os limites da realidade e aproximam-se mais de um certo surrealismo de mentalidades com pouca saúde, tanto mais tendo em conta o indesculpável fácil acesso à formação e informação. Mesmo não usando estes exemplos como regra, a verdade é que todos sabemos mais ou menos onde assenta ou fundamenta a modernidade da maioria dos nossos jovens. As redes sociais na Web são palco desse mundo moderno onde as amizades, seja lá o que isso significa, são medidas ou contadas aos milhares quando, afinal, essas pseudo-relações virtuais são conseguidas no escuro e na solidão de um quarto ou de uma sala. As sequências e consequências são já palpáveis mas daqui a 50 anos esta realidade terá certamente a mesma desmistificação do que a agora transmitida pela leitura contemporânea do cartaz da Modess.
Concluimos, pois, que a modernidade é sempre o tempo presente e somos tão modernos hoje em relação ao ontem como amanhã seremos em relação a hoje. Confuso mas compreensível.
3/07/2010
Livros de religião da escola primária
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